Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Uma visão bakhitiniana do Momo
Por: Alberico Carneiro
Momo deriva etimologicamente do grego mõkân ou mokânsthai: zombar, ridicularizar, escarnecer e de môkos, escarnecedor, trocista, zombeteiro, conforme apontam os dicionários especializados. Tal conceituação arremete à palavra Carnaval, que etimologicamente vem do latim medieval carnelevare ou carnilearia, registro séc. XI/XII, correspondente ao latim clerical carnem levare ou carne levare: abstenção de carne. Por dialetos italianos e provençal milanês carnelevare, 1130. No século XIV, há o registro do italiano carnevale e, em 1552, o francês registra carneval, para, em 1680, estabelecer a forma definitiva, carnaval. Assim, a palavra provém do latim caro, carnis, carne e de levare, tirar, afastar. A referência é feita em relação à Quarta-Feira de Cinzas, dia inicial da abstinência de carne, exigida durante a Quaresma. Há uma hipótese histórica sobre uma outra origem mais concreta, também latina carrus navalis, carro naval, que, por contigüidade ou similaridade, associa-se à carreta com formato de barco, usada em festas populares romanas, que tem como correspondente, na atualidade, o carro alegórico. Há um dado curioso que refresca a memória: a forma latina vale, adeus e a francesa aval, abaixo, poeticamente podem arremeter a essa necessidade de dizer adeus à rotina, pondo abaixo, pelo menos por alguns dias, a crueldade devastadora do tempo, das dívidas, da nostalgia e da melancolia.

Mikhail Bakhtin, no A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – o Contexto de François Rabelais (Editora HUCITEC, Editora Universidade de Brasília, tradução de Yara Franteschi Vieira, São Paulo, 1987) faz um retrato ou desenho do que seja a dimensão social e humana do Carnaval,
No entanto, sua amplitude e importância na Idade Média e no Renascimento eram consideráveis. O Mundo infinito das formas e manifestações do riso opunha-se à cultura oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época. Dentro da sua diversidade, essas formas e manifestações – as festas públicas carnavalescas, os ritos e cultos cômicos especiais, os bufões e touros, gigantes, anões e monstros, palhaços de diversos estilos e categorias, a literatura paródica, vasta e multiforme, etc. – possuem uma unidade de estilo e constituem parte e parcelas da cultura cômica popular, principalmente da cultura carnavalesca una e indivisível., Op. Cit., pp. 3 e 4.

Adiante, Bakthin traça um paralelo magistral em que confere ao Carnaval da Idade Média idêntico perfil do Momo de hoje, estabelecendo diferenças entre o que na atualidade chamamos de Escolas de Samba e Blocos Organizados e o Carnaval de Rua,
Os festejos de Carnaval, com todos os atos e ritos cômicos que a ele se ligam, ocupavam um lugar muito importante na vida do homem medieval. Além dos carnavais propriamente ditos, que eram acompanhados de atos e procissões complicadas que enchiam as ruas durante dias inteiros, celebravam-se também a “festa dos tolos” (festa stultorum) e a “festa do asno”(festa asinorum); existiam também um “riso pascal” (risus paschalis), muito especial e livre, consagrado pela tradição.

Além disso, quase todas as festas religiosas possuíam um aspecto cômico, popular e público, consagrado também pela tradição., Op. Cit., p. 4
É ainda Bakthin quem nos aponta os meios de captar o que seja o verdadeiro espírito do Carnaval, sua natureza, o seu caráter de festa móvel, de folgança, farra e folia libertária,
Os espectadores não assistem ao Carnaval, eles o vivem, uma vez que o Carnaval, pela sua própria natureza, existe para todo o povo. Enquanto dura o Carnaval, não se conhece outra vida senão a do Carnaval. Impossível escapar a ela, pois o Carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade. O Carnaval possui um caráter universal, é um estado peculiar do mundo, o seu renascimento e a sua renovação, dos quais participa cada indivíduo. Essa é a própria essência do Carnaval, e os que participam dos festejos sentem-no intensamente., Ibidem, p. 6.

Como Bakthin vê o carnaval interferindo na vida do indivíduo na multidão, transformando-se em família universal e capaz de transformar a própria vida das pessoas, tirando-as da rotina e pondo-as numa terapia de grupo? Qual é, afinal, a verdadeira função miraculosa do Carnaval?
(...) durante o Carnaval é a própria vida que representa e, por um certo tempo, o jogo se transforma em vida real. Essa é a natureza específica do Carnaval, seu modo particular de existência.

Carnaval é a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso. É a sua vida festiva. A festa é propriedade fundamental de todas as formas de ritos e espetáculos da Idade Média.
Mesmo o Carnaval, que não coincidia com nenhum fato da história sagrada, com nenhuma festa do santo, realizava-se nos últimos dias que precediam a Quaresma., Ibidem, p. 7.
Finalmente Bakthin identifica no carnaval oficial uma de suas características mais criminosas, a consagração das desigualdades, em oposição ao Carnaval de rua que consagra a confraternização geral, universal, onde os preconceitos de raça, cor, condição sócio-econômica e raiz familial são esquecidos,

A abolição das relações hierárquicas possuía uma significação muito especial. Nas festas oficiais, com efeito, as distinções hierárquicas destacavam-se intencionalmente. Cada personagem apresentava-se com as insígnias dos seus títulos, graus e funções e ocupava o lugar reservado para o seu nível. Essa festa tinha por finalidade a consagração das desigualdades, ao contrário do Carnaval, em que todos eram iguais e onde reinava uma forma especial de contrato livre e familiar entre indivíduos normalmente separados na vida cotidiana pelas barreiras intransponíveis da sua condição, sua fortuna, seu emprego, idade e situação familiar., Ibidem, ibidem, p. 9.

As festas oficiais são as de arquibancadas, com pirâmide social, elitistas, estratificadas, de gala, separatistas e segregacionistas, em que o artificialismo, a competição ou concorrência e disputa de fantasias luxuosas, anulam todo frescor, vigor, espontaneidade, naturalidade e universalidade do verdadeiro Carnaval. E esse “carnaval” separatista, discriminatório e com todas as tintas e matizes oficialescos de ambientes bajulatórios ou mesmo o das guerras das Escolas de Samba, constitui a descaracterização do Momo que, perdido no tempo, começou por simples Intrudo. Ah, o verdadeiro Carnaval é um estado de espírito coletivo, vivido nas ruas, praças, becos, ruelas, bairros e bailes populares, com orquestra e tudo o mais a que o povo tem direito. E não sejam esquecidos os confetes, as serpentinas e os lança-perfumes.

O aspecto paródico é a essência e quintessência do riso na praça. E, ainda que a paródia seja a reprodução ou projeção de uma fantasia com base na realidade, essa alegoria sobre a alegria descomprometida, de pessoas que representam outras, como personagens de um teatro popular, travestidos ou mascarados de fofões, foliões, reis momos e rainhas de bailes ou passarelas, constitui uma rara oportunidade para que se possa fazer a crítica através da representação de tipos típicos ou estereótipos, quer ridículos, quer heróis sem nenhum caráter, quer colarinhos brancos e demais modelos de corruptos oficiais. O povo colocado no lugar do poder, enquanto teatro e o poder no lugar do povo, enquanto platéia, para que este, no lugar daquele, ria de si mesmo, como se fosse outro, valendo-se de imunidade e impunibilidade.
Já que são elementos essenciais do Carnaval a liberdade e o riso universais, a ausência de hierarquia e de preconceito, deixemos que a representação dos foliões, fofões e mascarados em geral, funcione em seus travestimentos, ainda que em reproduções ou cópias caricatas, retratos satíricos, picarescos e burlescos do país. De um lado, uma cópia de um povo pobre que tem o poder de renascer das cinzas, de rir nas situações mais difíceis ou trágicas. Do outro, um retrato dos podres poderes, visto nos bastidores, onde, na surdina, sub-repticiamente maquinam a morte da real memória nacional.
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