Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Simplesmente PoesiaA poesia não é coisa pífia muito menos coisa, é gente da melhor espécime – não requer tratado que a tordesilhe nem lhe finque estacas de equadores. Tem a sua linha imaginária (criativa), nunca divisória, ascende portos de todos os mares, com seus faróis inventivos emoldura quadro de todos os matizes e forma grupos nunca gang’s – não confabula na madrugada preferenciais de grupelhos, nem assassina, prepotente, os que a cantam livre e simples, natural e verdadeira como os jardins e arco-íris que a inspiram, sem métodos pós-modernos de computadores e exaustivas buscas dicionarescas à procura do “difícil”, do “complicado”, do “exótico”, nunca do poético. A poesia está na poesia, no dia-a-dia e chega de repente num rompante, cada instante, não tem hora certa nem lugar para nascer, no ônibus, na estrada, no cinema, num instante de solidão, na vista do vasto mar silencioso, no meio da multidão, num pôr-de-sol brilhando o porto da imaginação.
A poesia é um cálice do mais puro vinho tinto, servido na ceia comum dos que comungam a versatilidade de bordarem as palavras de sonhos e fantasias, de misérias absolutas e dores relativas, de interpretar o sentimento e a fala silenciosa da natureza e da própria natureza humana. (Poetas somos todos em suma, uns por serem loucos, poucos por serem pluma e outros por coisa alguma).
A poesia não é propriedade é proprietária da musicalidade e da beleza da palavra. E, via de regra, não é regida, a priori, por regra nenhuma e está à disposição de quantos quiserem e souberem dela fazer uso, quer para o deleite do povo, como para rigorosa análise dos críticos. Poeta erudito, poeta modernista, poeta surrealista, poeta popular... não importa o estilo, o que importa é poetar.
(Francisco Tribuzi)DeliriumVomitando nuvens no dia de chuva
atropelo sonhos dos jardins de ócio
no fel da fantasia falsa da uva
criatura expulsa, réu do mau negócio
Arrepios dissonantes de tantas noites vãs
tecendo as trevas do abandono
apagando os sóis telúricos das manhãs
incendiando a noite irreal, no sono
tanto mar defronte e tanta brisa
eu turvando a vida do lado de dentro
com a alma solta o corpo agoniza
distorcendo o mundo no perdido centro
Ó pesado álcool que me aprisiona
ao submundo mudo dos precipícios
na cadeia escura e cruel da zona
onde bebo e como todos os hospícios
Onde Deus que me levantasse
desse chão de cuspe medo e solidão
e me arrependesse e me atirasse
desse mundo alheio para outro chão
Onde sonhos sóbrios me arrematassem
das trevas trêmulas da desilusão
e num rio límpido me lavassem
e me devolvessem pleno, salvo e são
para o raiar de um novo dia
feito do pão puro da poesia!
(Do livro inédito Tempoema)- Próximo texto:
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