Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Há cinqüenta anos estou nascendo e hoje antes que a morte me proíba de recenascer as manhãs, quero ver a chorar outra vez pela primeira vez e sentir o gosto da vida, pela primeira vez, como um doce leite materno e outra primeira vez escutar as palavras e aprendê-las, os gestos e copiá-los, ser coberto pelo manto da ternura e manipulado pelas mãos da ciência para que viva.
E viva para que seja um homem, e seja um homem para que sofra e saiba, e sofra e saiba para que pense e pense para que multiplique em mim a vida humana.
Agora que já foi protegido
o indefeso, que ninguém cuide
excessivamente dele. Deixai que a vida
se encarregue disso. Soltai-o que já anda
e pois saberá (deverá) achar
o (s) caminho (s) com e sem volta,
as avenidas e os becos do ser,
a vereda da noite que amanhece
e o atalho da manhã que anoitece.
Deixai que aprenda o gesto irmão
e o palavrão,
o carinho
e o grito,
a dádiva
e a recusa,
o uso da faca
e o como se lhe escapa,
a ótima intenção
e a contrafação,
a ternura da mão
e a espessa paixão,
o sim e o não.
(Trecho de Breve Memorial do Longo Tempo, de Bandeira Tribuzi, obra lançada quando o poeta completou 50 anos)- Próximo texto:
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