Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Por: Cesar Teixeira
Amarrado num tronco e crivado de flechas, São Sebastião é festejado em todo o Maranhão, onde é identificado com Oxóssi nos terreiros iorubas. Ele, porém, não foi morto a flechadas, e sim a pauladas, por ordem de Diocleciano, em 20 de janeiro de 288 d.C., aos 38 anos. Na Casa das Minas, porém, o dia do santo é 19, consagrado a Azonce, a quem está ligado.
Recende ainda o cheiro das pa-lhinhas de Reis, mas a cidade já vive os festejos de São Sebas-tião, que também vira Oxóssi no Maranhão. Nas igrejas, terreiros, sítios e casas que devem promessa são feitas homenagens ao santo martirizado durante o Império Romano, que perseguia cristãos tal como se caçam, hoje, cães portadores de cólera nas ruas.
Mas a sociedade moderna continua politeísta, e seus deuses integram o panteão capitalista: o FMI, a Microsoft, a OPEP, a Internet, Walt Street etc. Os justos ainda são torturados e mortos, antes de serem adorados, como se deu no séc. III com São Sebastião, defensor nas guerras, fome e epidemias.
CENAS DE MARTÍRIOSão Sebastião teria nascido em Milão, na Itália, conforme relatos de Santo Ambrósio e Santo Agostinho, mas há a versão de que nasceu em Narbone, na Gália, em 250 d.C., tendo ingressado na carreira militar aos 19 anos. Impressionado com a bravura do jovem soldado, o imperador Diocleciano o nomeou chefe da primeira corte pretoriana.
O tirano, porém, sente-se traído quando descobre que São Sebastião propagava a fé cristã em Roma e o condena à morte. Diante da guarda, o santo foi despido, amarrado a um tronco e atingido por flechas, sendo abandonado para morrer. Por milagre, resiste aos ferimentos.
Irene, viúva de Castulo, também martirizado, vai ao local para remover e sepultar o corpo de São Sebastião. Encontra-o ainda vivo e o esconde em sua casa. Restabelecido, o santo retoma sua luta e apresenta-se ao imperador, censurando-o pelas injustiças contra os cristãos e pedindo que deixe de persegui-los.
Alheio ao discurso, Diocleciano ordena a sua execução por bastonamento e golpes de bolas de chumbo em 20 de janeiro de 288 d.C., aos 38 anos. Para evitar que fosse venerado pelos cristãos, o cadáver é jogado na Cloaca Máxima, esgoto público de Roma.
O corpo de São Sebastião é encontrado por Santa Luciana, para quem apareceu em sonho pedindo-lhe que o sepultasse junto às catacumbas da Via Appia.
OKÊ, MEU SANTO!Dizem os cronistas que, durante a batalha triunfal contra os franceses que invadiram o Rio de Janeiro, São Sebastião foi visto lutando ao lado dos portugueses, índios e mamelucos. Coincidentemente, era o dia 20 de janeiro de 1567.
Essa aura guerreira, no sincretismo religioso, o identificaria com o deus ioruba da caça e das florestas, Oxóssi, como ocorre no Rio, no Maranhão e na cidade de Porto Alegre. “Okê!” é a sua saudação, e o grito que o anuncia parece o latido de um cachorro.
O mesmo orixá, no entanto, é São Jorge em Recife e na Bahia, onde Nina Rodrigues, em estudo pioneiro, o encontra assentado no terreiro de Menininha do Gantois. Em Cuba, alguns santeros têm Oshó-Oshi ou Oshosé como São Alberto.
No Maranhão, os festejos de São Sebastião destacam-se nos municípios de maior incidência afro-brasileira: São Luís, Codó, Pedreiras, Caxias, Bacabal, Viana, São Bento, Cururupu, entre outros. A liturgia concentra-se, sobretudo, no tambor de mina e na umbanda.
É grande o legado daomeano e ioruba para a religiosidade local, destacando-se a Casa das Minas e a Casa de Nagô. Na crença jeje-nagô em São Luís foi ainda inserido o ritual do candomblé, adotado pela Casa Fanti-Ashanti a partir de 1976, onde se festeja Oxóssi, também conhecido por Odé.
Assim, São Sebastião sai da Igreja e vai aos terreiros, embora o inverso não seja praxe em relação ao orixá, tão discriminado quanto a sua etnia. Em São Luís, até 1988 os rituais eram controlados pela Polícia, que cobrava taxas de funcionamento dessas casas, prática que fere a igualdade constitucional.
Na Roma antiga, o deus Janus, que dá origem à palavra Janeiro, tinha duas faces: uma que olhava para o futuro e outra para trás. As duas “faces” de São Sebastião miram para o alto.
Porém hoje, a propósito de Diocleciano, ainda há cruzadas contra a “feitiçaria” que utilizam jornais, rádios e canais de TV. Para resistir, o santo vira a pele do avesso, pega o erukerê, o arco e a flecha (ofá), a espingarda e demais apetrechos de caça, incorporando Oxóssi.
O JANTAR DOS CÃESSão Sebastião fora do dia 20 é uma rara exceção que se dá na Casa das Minas, terreiro jeje-fon, onde surpreendemos o santo camuflado entre voduns. Ali, no mês de janeiro, festeja-se um ciclo em torno de Acossi Sakpatá (não se trata de Oxóssi) e seus irmãos – que não descem no querebentã há décadas.
O dia 19 pertence a Azonce, ligado a São Sebastião; no dia 20 festeja-se Acossi, vodun das doenças e remédios, associado a São Lázaro, e, no dia 21, Azili, que é venerado como São Roque. Azonce, ou Agonço, também é rei e não é doente como ou outros, que dançam com as mãos em garra como se tivessem lepra.
Mas a festa de São Sebastião é para Acossi, chefe da família Dambirá, e no seu dia é oferecido um jantar para os cachorros sobre esteiras cobertas por alvas toalhas bordadas. Sete, nove ou treze cães (depende do modo de contar os parentes de Acossi), acompanhados por igual número de crianças.
A saborosa comida, preparada em fogão de lenha e caldeirões, é feita pelas filhas da casa e servidas em pratos de louça: galinha, arroz, torta, macarrão e farofa, além da sobremesa de goiabada. Durante o jantar os voduns entoam cânticos, até que os pratos sejam recolhidos por pagadores de promessa.
Confesso ao leitor, que, pelo fato de ter nascido ao lado da Casa das Minas, ali na rua São Pantaleão, inúmeras vezes levei um pequeno vira-lata chamado Lord para repastar-se no banquete de Acossi. Sendo inevitáveis as brigas caninas durante o jantar, o que causava grande alvoroço, os pratos eram levados para casa.
Enfim, pouco sobrava para o magérrimo cão. Até hoje, no dia de São Sebastião, lembro do fato e me penitencio. Okê, Caboclo!
Lua cheia
Hoje (18) é dia:Pancho Villa é proclamado presidente do México e assume poderes militares e civis (1915).
Fundação da cidade de Lima (1535).
Morre Rudyard Kipling, escritor britânico, Prêmio Nobel de Literatura (1936).
Nascimento do pensador francês Montesquieu (1689).Em 1689, nascia Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu. O pensador elaborou a teoria da separação dos poderes, em que a autoridade política é exercida pelo executivo, legislativo e judiciário. Suas teorias influenciaram o pensamento político moderno. Filósofo político, autor de O Espírito das Leis. Formado em Direito, iniciou sua carreira em Bordeaux. Mudou-se para Paris, onde levou uma vida de dissipações freqüentando as festas dos salões da aristocracia e nobreza parisienses. Em 1721 escreveu Cartas persas, nas quais satiriza a vida mundana da sociedade parisiense. Em pouco tempo (1728) seus escritos e a influência social levaram-no à Academia Francesa. Viajou para a Inglaterra onde permaneceu de 1729 a 1731, uma viagem que reputou muito instrutiva, e após a qual, retornando à França, dedicou-se seriamente ao estudo das ciências políticas. Em 1734 publicou Considérations sur les causes de la grandeur des Romains e de leur décadence (“Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência”), um trabalho considerado uma mostra de inteligência, mas também de certa falta de conhecimentos. Após 14 anos de trabalho, de 1734 a 1748, publicou L’Esprit des lois.
Muitas críticas se levantaram contra seu trabalho, o que o levou a escrever dois anos depois o Defense de l’Esprit des lois, considerado seu trabalho mais brilhante.
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