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Um ano sem valdelino!
Antroponáutica(V)

Edição 48

Um ano sem valdelino!

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Joãozinho Ribeiro*

Á época, nada escrevi. O mês de outubro costuma ser traiçoeiro e impiedoso com os poetas. Talvez contemplado pelos vários discursos e artigos, proferidos e editados no Gavião, nas missas e jornais em homenagem a sua memória.

Era domingo, o último do outubro de 2000. Havia passado toda a semana acompanhando, através de visitas diárias e contatos com os familiares, a sua difícil situação clínica. Na última visita, junto com o singular Virgílio, seu estado era crítico. Praticamente nos despedimos, ouvindo músicas de Noel durante a sóbria carona. O compositor e fiel companheiro Chico Saldanha municiava-me de informações, quase de hora em hora, antevendo o inevitável/inadiável desfecho do verso. Porém, foi Ronald Almeida, com seu costumeiro jeitão solidário, quem me fez o comunicado oficial: o poeta, finalmente descansara, após uma semana de batalha sem trégua, num leito da UTI, no hospital da UDI, no Jaracati.

Nos meses que antecederam o encerramento do poema-vida estávamos muito irmanados num projeto de criação do primeiro clube de choro do Estado; já tinha, por sinal, até nome: SCAMBA – Sociedade dos Amigos do Choro e do Samba. Ele, mergulhado nas pesquisas; eu, elaborando o estatuto; nós, formulando alguns planos para o seu funcionamento, por meio de reuniões regadas a cristal, no Canto do Tonico. Sem pretensão de exclusividade, creio ter sido, àquela época, o amigo mais freqüente, com quem discutia os rumos da política cultural do Estado e compartilhava preocupações com a gestão pública da área, angustiado pelo isolamento funcional a que se achava submetido.

Mantivemos durante toda a nossa convivência de copo e de alma uma espécie de respeito mútuo, sempre discutindo com equilíbrio pontos de vista não necessariamente consensuais. Muitas das vezes meu esquerdismo era compensado pelas suas civilizadas e honestas ponderações; por outras, minhas considerações eram acatadas e contempladas pelo seu modesto modo de se expressar risonho: “ganhaste essa, poeta!”.

Em verdade, sua preocupação maior não era a de ganhar o debate a qualquer custo, mas de participar e dar sua contribuição no sentido de enriquece-lo; ainda que na sua posição no final não prevalecesse. Talvez por isso nem a esquerda, nem a direita tenham tido oportunidade de compreendê-lo por inteiro. Votava sempre no Haroldo Sabóia, de quem era admirador confesso; fazia campanha para Roseana e, por duas vezes, convenci-o a votar no Lula.

Cobrava-me de forma gozadora o envolvimento de D. Odyla, sua mãe e colega de trabalho minha, no Ministério da Fazenda, com os “vermelhos”. Tudo por conta de sua ativa participação na 1ª greve dos Técnicos da Receita Federal, em 1987, quando eu era presidente da entidade sindical da categoria. Dizia que tinha “subvertido” a coroa, e que agora ela não queria mais rezar na igreja de São Pantaleão. Coisa carinhosa de poeta/filho gozador. Que o digam Margareth e Lino, suas paixões maiores.

Sempre aberto às discussões, não era de rejeitar um bom debate. E, às vezes, até um bom combate, como no caso da memorável “noite das garrafadas”, no bar do Baixo Leblon, em defesa do provocante Chico Maranhão, com direito a duelo físico e tudo, e uma grande surra num estranho personagem a quem ele denominava caricatamente de Jonh Lenon. Episódio que gostava de narrar, com todos os seus hilários detalhes e coadjuvantes noturnos, dentre eles, Pixixita, Josias Sobrinho e Zezé da Flauta.

Na dimensão que agora deve estar, na campanhia celestial de anjos e capirotos, com certeza pesquisando elementos da cultura local, tentando entender as maldades de Bin Laden e as reações bushteanas para produzir tanta violência. Sobra-me aqui, na breve estação terrena, espaço e tempo para expressar essa saudade que cisma em respingar sobre os meus aposentos, sob a forma de canção, cometida alguns dias após o desfazimento temporário da nossa parceria poética e humana:

A cigarra calou
A cidade assistiu
O inverno chegou
O poeta dormiu:

Passarinho,
Assobiando assim
Muitos versos no meu jardim
Ai saudade, ai de mim...

Primavera virá
Rouxinóis, bentevis
E um poema pedindo bis...


Valdelino Cécio: Poeta, Pesquisador e Administrador Cultural Maranhense

Por: Joila Moraes*


José Valdelino Cécio Soares Dias nasceu em 23 de maio de 1952 e nos deixou, precocemente, em 29 de outubro de 2000. (...)

Conheci Valdelino no início dos anos 70 em um programa de trabalho destinado a universitários, oferecido pela então Fundação MOBRAL que, no Maranhão, tinha a coordenação da professora Filomena Mota. Lá, encontramos, entre outros amigos, Dr. Cândido Oliveira, Florilena Aranha e Raimundo Fontenelle, seu companheiro, também poeta do Movimento Antroponáutica, (...)

Do MOBRAL, foi um passo apenas para a Fundação Cultural do Maranhão (transformada em Instituto Maranhense de Cultura, depois Secretaria de Estado da Cultura e, hoje, outra vez, Fundação). Lá integramos a Assessoria Especial do Departamento de Assuntos Culturais-DAC, dirigida pelo escritor Jomar Moraes. O DAC, que depois teve como diretor o antropólogo Sérgio Ferretti, atuava nas diversas áreas da cultura, integrando as diversas linguagens artísticas, como literatura, música, dança, teatro, artes plásticas e cultura popular.

Foi à cultura popular que tanto eu quanto Valdelino mais nos dedicamos, embora tenhamos permeado os bastidores da administração cultural maranhense, respaldados em nossa experiência e em cursos de pós-graduação em Administração Cultural e Gestão Pública.(...)

Seus rastros: advogado, poeta, pesquisador e administrador cultural. Teve poemas publicados na Antologia do Movimento Poético Antroponáutica e na antologia Esperando a Missa do Galo, na Página Universitária do Jornal Pequeno, na antologia Hora de Guarnicê e no Suplemento Literário do jornal O Estado do Maranhão. Foi co-fundador do Laborarte e do Jornal Ganzola. Como pesquisador, colaborou nos jornais A Ilha e o Jornalzinho de Turismo Maranhense, além de ter participado como co-autor na pesquisa dos livros A Dança do Lê Lê na Cidade de Rosário ( pesquisa, 1977), Tambor de Crioula, Ritual e Espetáculo (pesquisa, 1985) e Memória de Velhos, Contribuição à Memória Oral da Cultura Popular do Maranhão (1990). Co-produziu o disco Pedra de Cantaria, reunindo vários músicos maranhenses.

Na administração da Fundação Cultural do Maranhão, exerceu diversos cargos: Assessor Especial e Diretor do DAC, da antiga Fundação; Diretor do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho; Assessor-Chefe, Coordenador de Ação e Difusão Cultural e Coordenador do Programa de Municipalização da Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão. Ao falecer, estava como Chefe do Fundo Estadual de Cultura da Fundação Cultural do Maranhão e Vice-Presidente da Comissão Maranhense de Folclore.

*Joila Moraes é Pesquisadora e Membro da Comissão Maranhense de Folclore.

(Boletim, 18/dezembro, 2000. Comissão Maranhense do Folclore, p. 9).
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