Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Valdelino Cécio: Entre um Menipo & um Brás Cubas às avessas & a máscara de um Pierrô encoberto
Por: Alberico Carneiro
Visão CríticaUm único poema pode imortalizar um poeta e impri-mir nos corações das pessoas, que o lêem, uma insubstituível lembrança de beleza. Se o texto deste oferece material tão rico que enseje uma exploração de análise literária que resulte em fortuna crítica, a fatura revelará os elementos essenciais de uma obra poética madura, capaz de representar um ícone ou arquétipo, do ponto de vista estético e semântico. Estará instaurada aí a novidade no campo da linguagem literária. A autenticidade da obra de arte em questão só será resgatada, à medida que público e crítica se manifestarem formando como que uma unanimidade de posição, ainda que a obra em si nem precisasse do aval deste ou daquele para ser o que é. Tal obra de arte é capaz de sobreviver para além do tempo em que foi escrita, tomando por base a criação literária.
Criado, provavelmente em 1972, época em que foi publicado, Poema do Morto na Morte do Dia, de Valdelino Cécio, trazendo epígrafe de Jimi Hendrix (...) nós vamos construir algo para preencher o vazio (...), despertará no espírito do leitor e da crítica uma curiosidade sobre os signos verbais que o poema acrescenta ao universo da poesia maranhense dos anos 70. É um poema aparentemente simples, mas sutil e discretamente estranho, pelas marcas de sua elaboração, em se tratando de um poema escrito quando o poeta tinha 20 anos de idade. O primeiro verso de todas as estrofes é sempre o mesmo, o morto, como um mote que, com o segundo verso emparelhado, em estrofe, forma um dístico, que é simultaneamente apenas um verso heptassílabo: o morto/homem infeliz, que, desdobrado, resulta em o morto, homem infeliz, ou seja, uma base com um termo fundamental e um aposto que fecha o paradoxo. Na realidade, o poeta lembra, também, durante o enterro, de alguém que esteve “morto” durante a vida, cuja verdadeira existência só foi possível revelar-se e conhecer-se, após a morte física do mesmo, que vivo simulou uma ficcional existência paralela, completamente diferente da que, de fato, viveu.
Poema despojado de etiquetas, propositalmente escrito sem uma letra maiúscula, sem vírgulas, sem qualquer outra pontuação, nele o poeta conseguiu falar para todos sobre a insignificância, a provisoriedade e a precariedade da nossa rápida trajetória pelo Planeta Terra, daí por que o discurso poético é construído a partir de uma base, o morto e de um aposto, que é reiterado em todas as estrofes. São interrogações, sem mesmo necessidade de pontos-de-interrogação que Valdelino Cécio continua a nos propor, após a morte física, numa alegoria tão belamente construída sobre a tragédia do ser no ermo de sua mais pungente solidão, que tem de ser camuflada pela mais pesada máscara.
O curioso é que o poeta mantém, do começo ao fim do poema, rimas em ia, com alternância e intercalação de uma estrofe para rima quase sempre dissonante como: passado/vantagem/passava/novidade/nova idade/jornal; morto/novo; que ria/queria; indigência/conhecia.
Um outro dado particular do poema é o tom litânico que resulta do efeito provocado pela persistência da repetição rítmica monocórdia, para, propositalmente, poder significar com maior verossimilhança aquilo a que se propõe. E por que o tom litânico? Para expressar, simbolicamente, a vida horizontal, convencional e medíocre do senhor sem nome.
Também o poeta, de uma maneira inovadora, usa na estrutura do texto a técnica do flash-back, com uma inflexão que induz a uma digressão inicial. A história sobre a vida do morto se passa no fluxo da memória do narrador, simultaneamente ao enterro do mesmo, daí a comprovação de que o poeta se valeu da técnica do tempo mental e, não, do cronológico. A partir desse gancho, despiste ou pretexto, o poeta conta a vida insólita ou excêntrica de alguém que viveu solitariamente, tipo Brás Cubas às avessas, já que não diz nada, sendo um anti-herói completamente neutro e que só teve vida real após a morte, porque destituído de qualquer vontade de revelar-se.
Ao fingir banalizar ou vulgarizar a arte de contar, fabular, o poeta revela uma consciência plena do que está acontecendo em torno e fora do Maranhão, em termos da arte da criação literária.Está antenado e intui revelar esse conhecimento. Fica explícito que leu, entre outros, Marcel Proust, Machado de Assis, James Joyce e Sartre, para ter, aos 20 anos, o descortínio do que operacionalizou no texto. Sabia para onde sopravam os ventos do futuro, apontando os novos caminhos do discurso poético. Conhecia a teoria do corso ricorso, de Vicco, e intuía que essa repetição do passado no presente e no futuro mais do que nunca deveria ser levada em conta. No poema em questão, despreende-se essa certeza sobre a tendência da poesia da modernidade: estar cada vez mais próxima do discurso da obra romanesca, fundir-se e confundir-se com a narrativa. Assim, o poema renuncia à primeira pessoa ou ao eu-lírico e se expressa através da terceira. O romance, então, passa ao poema, poeticamente, como nos tempos de El Cid, Odisséia, Jerusalém Libertada e dos ciclos arturiano e carolíngio. Exemplos desse desvio ou viés paradoxal e problematicamente contraditório, num contexto macro, são as obras mestras Os Peões e Invenções do Mar, do brasileiro Gerardo Mello Mourão e Omeros, do antilhano caraibenho de St. Lucia, Derek Walcott.
A apresentação de um protagonista depois de morto, cuja existência é lembrada e recontada, a partir do velório e durante o enterro, às avessas do que foi simulado em vida, estabelece conexões com as reflexões de Leopold Bloom, do Ulisses, de James Joyce, que também saiu para ir ao velório de um amigo morto e de cuja vida se lembra, durante uma parte do dia. Essa vida do Morto na Morte do Dia foi falsificada.
Poema do Morto na Morte do Dia(...) nós vamos construir algo para preencher o vazio(...)Jimi Hendrixo morto
a morte
o morto
a poesia
o morto
a sorte
o morto
só ele sabia
o morto
memória eterna
o morto
morreu na folia
o morto
triste passado
o morto
nunca bebia
o morto
grande vantagem
o morto
a carestia
o morto
ainda tão novo
o morto
terra tão fria
o morto
bem que passava
o morto
não parecia
o morto
homem infeliz
o morto
também escrevia
o morto
sala de espera
o morto
sala vazia
o morto
enfim novidade
o morto
artigo do dia
o morto
nova idade
o morto
sempre fingia
o morto
manchete em jornal
o morto
parece que ria
o morto
queria morrer
o morto
barriga vazia
o morto
era um ateu
o morto
que mágoas teria
o morto
caiu na sarjeta
o morto
nunca caía
o morto
não era casado
o morto
não comprometia
o morto
correu e cansou
o morto
pra todos corria
o morto
foi-se pra sempre
o morto
em nada ele cria
o morto
quem paga a conta
o morto
e quem diria
o morto
muita saudade
o morto
quem é sua Maria
o morto
não deixou nada
o morto
talvez se encobria
o morto
conversa fiada
o morto
perdeu moradia
o morto
homem de sorte
o morto
quebrou a bacia
o morto
não tinha amigos
o morto
ganhou a porfia
o morto
poucas palavras
o morto
quanto devia
o morto
bebeu noite inteira
o morto
tinha anemia
o morto
quem sabe o motivo
o morto
pediu outra via
o morto
homem fechado
o morto
não tinha manias
o morto
dinheiro guardado
o morto
nunca gemia
o morto
a vida é assim
o morto
já não mais saía
o morto
roubaram o relógio
o morto
por todos fazia
o morto
morava bem perto
o morto
ninguém conhecia
o morto
ficou na indigência
o morto
final que alivia
o morto
ponto de encontro
o morto
tanta harmonia
o morto
e a verdade
o morto
só ele sabia
o morto
já não importa
o morto
um simples morto
um simples morto
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