Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Luis Augusto Cassas
(Uma Releitura da Babel Social & Das Contradições do Caos da Aldeia Global)
Por: Alberico Carneiro
Visão CríticaA poesia de Luis Augusto Cas-sas busca fazer a leitura das contradições da rotatividade da civilização humana da modernidade, preconizada por McLuhan na monumental obra polêmica As Galáxias de Gutenberg, que há trinta anos diagnosticava a globalização, a partir da profética revelação sobre o que viria depois que a imagem da televisão violasse a privacidade de todos os lares, atravessando paredes, portas e janelas, até então consideradas hermeticamente fechadas e inexpugnáveis. Puro equívoco do poeta norte-americano Charles Sandiburg, que, numa bela manhã de ressaca da vida e do mundo, ao ser cobrado judicialmente, declarou só poderem invadir a sua casa, os raios do sol, da lua e a chuva. Ledo engano gostoso, sonho só permitido aos poetas. Mas McLuhan veio depois e disse pragmática e cartesianamente: Os globos me põem de cabeça tonta. Quando penso que estou em determinado lugar, já trocaram as fronteiras.
A poesia de Cassas reflete essa consciência crítica de que foram violadas todas as fronteiras e invadidos todos os territórios. Resta aos poetas criarem essa cidade utópica, essa utopia internacional na busca de uma linguagem única. Cassas articula um discurso poético, cuja linguagem inusitada incorpora barbarismos ou estrangeirismos os mais emergentes, porque somente em circulação extra-oficial ou extra-dicionários, mas que, na prática, já constam de cardápios, da linguagem de televisão, dos mostruários de lojas, das listas telefônicas, dos nomes de estabelecimentos comerciais. Em outras palavras, traduz a linguagem da era da tecnologia, da automatização, do supersônico, da cibernética, do transplante de coração, da informática, da internet, da clonagem. Uma poesia que reflete, portanto, uma consciência sobre a Aldeia Global como realidade irreversível e incontroversível, no momento em que reacontece a Torre de Babel, o que se justifica pela mistura de línguas que possibilitam os falares mesclados, acoplados, justapostos e aglutinados. Eis um dos méritos mais conseqüentes da poesia de Cassas, que hoje se cerca de comentários críticos que incluem opiniões, dentre outros, de Carlos Drummond de Andrade, Fábio Lucas, Assis Brasil, Fausto Cunha, Jorge Tufic, Armindo Trevisan, Affonso Romano de Sant’Anna, Moacyr Scliar, Josué Montello, Lêdo Ivo, Leila Miccolis, Oswaldino Marques, Moacyr Félix, Franklin de Oliveira, Gilberto Mendonça Teles, Antonio Houaiss, Nelson Werneck Sodré, Wilson Alvarenga Borges, José Chagas, Stella Leonardos, Fernando Py, Lya Luft, José Louzeiro, Hildelberto Barbosa Filho, Foed Castro Chama e Ivan Junqueiro. Qual a razão dessa crítica? O texto de Cassas apresenta dois elementos essenciais e indispensáveis para que se tenha um poeta maduro: uma mensagem nova e uma estética diferente do trivial. Assim, ele nos põe diante de um texto novo sobre a arte da criação do próprio texto e um conteúdo até então inédito no Brasil.
Biografia do escritorLuís Augusto Cassas é o nome li-terário de Luís Augusto Cassas de Araújo, que nasceu no dia 2 de março de 1953, em São Luís, Maranhão, Brasil. Filho do Sr. Araújo Neto, desembargador, e da Sra. Miriam Cassas de Araújo. Fez os estudos preliminares no Liceu Maranhense e formou-se em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Militou aproximadamente treze anos na imprensa local. Em 1981, recebeu o Prêmio Nacional de Jornalismo Bastos Tigre, com uma reportagem sobre Alcântara. O concurso foi promovido pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Governo Alemão, Bayer, Secretaria de Cultura de São Paulo. Ganhou bolsa de estudo na Alemanha. Em 1972, participou de um dos movimentos literários mais conseqüentes da história da Literatura Maranhense, que culminou com a publicação da Antologia Poética do Movimento Antroponáutica.
Obras Poéticas: República dos Becos, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1981; A Paixão Segundo Alcântara, Roswhita, Kempf Editora, São Paulo, SP, 1985; Rosebud, Massao Ohno Editora, São Paulo, SP, 1990; O Retorno da Aura, Editora Nórdica Ltda, Rio de Janeiro, RJ, 1994; Ópera Barroca, Imago Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1998; O Shopping de Deus & a Alma do Negócio, Imago Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1998; Bhagavad-Brita (A Canção do Beco), Imago Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1999; Deus Mix (Salmos Energéticos de Açaí c/ Guaraná e Cassis), Imago Editora, Rio de Janeiro, RJ, 2001 e O Vampiro da Praia Grande, Imago Editora, Rio de Janeiro, RJ, 2002.
Paralelepípedoos paralelepípedos
das ruas de São Luís
parecem e são
bordados de crochê
feitos a mão
navalhas do belo
pedras da criação
os paralelepípedos
das ruas de São Luís
poetram do chão
ovos barrocos
testemunhas dos destroços
ó paralelepípedos
das ruas de São Luís
granito dos meus ossos
joalheria a céu aberto
diamantes de multidão
os paralelepípedos
das ruas de São Luís
fragmentos de coração
nas ruas de São Luís
os paralelepípedos
têm cara de munição
pesados pombos-sem-asa
arrebentam a solidão
(pp. 59 e 60)Canção do frágilA Antônio Gonçalves Dias
chores meu filho
chores que a vida
é luta renhida
viver é chorar
a vida é combate
que os fortes abate
mas os fracos e os frágeis
só pode exaltar
(p. 217)Canção Ermitã(Breve Meditação sobre a
Lâmina IX do Tarot)a Octavio Paz
1 O homem só
não está só
tem a lua as estrelas as árvores
e os pássaros por companhia
O sol aceso no peito
Aquece-o nas noites de inverno e incompreensão
Marte o guarda dos salteadores
Saturno o protege da conspiração celular
A pedra das estradas é o seu travesseiro
A natureza é o seu livro da cabeceira
O arco-íres o alimenta
O azul o extasia
Sua solidão é maior do que o Himalaia
E o Himalaia cabe em seu coração(Cassas, Luis Augusto. Ópera Barroca. Imago Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1998)2 Na posição de lótus
Ou no metrô de New York
O homem só
Não está só
Na biblioteca do Vaticano
Ou no caminho de Santiago
O homem só
Não está só
Nas mãos vazias o que carrega?
A liberdade?
Tem um sorriso de triunfo nos lábios
O que venceu? A natureza humana?
3 De todos os seres da Criação
o homem só
(parece)
é o único
que não está só
pois ao renunciar a tudo que era seu
o universo deu-lhe em dobro a compreensão do eu
nessa estranha operação matemática
o paradoxo venceu a aritmética
a subtração deu-lhe a audição
a divisão forjou-lhe a multiplicação
nada lhe pesa nos ombros:
nem a dor do Homem
nem o amor do homem
na 5ª Avenida
ouve a conferência das buzinas
como a 9ª de Beethoven
tem passos de sete léguas
mas sua maior viagem é para dentro
a contemplação de qualquer mar
acende-lhe a alegria interior
4 o homem só
não está só
como um pássaro só
em seu ninho
como um ascensorista só
no elevador
como o egoísta só
e sua neurose
como um banqueiro só
e sua apólices
o homem só
está só
como o sol
na amplidão
está só
como o cacto
no deserto
está só
como a Estátua da Liberdade
está só
na paz
como o Cristo
está só
na última Ceia
5 o silêncio e observação das estrelas
têm ensinado
mais ao homem só
do que a tese dos etruturalistas
a conferência dos Sábios de Sião
a Revolução Russa
os programas espaciais da NASA
o surrealismo
a psicanálise
as latas de sopa Campbell
a poesia do Decamerão
as lentes de contacto
Ao buscar o segredo
Da unidade na diversidade
E da diversidade na unidade
Dissolveu em si as polaridades
Tornou-se ímpar a dois
E par da humanidade........................................................................
(pp. 58 a 62)
(Cassas, Luis Augusto. O Retorno da Aura. Editora Nórdica Ltda., Rio de Janeiro, RJ, 1994).- Próximo texto:
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