Anuário #01 - São Luís, 2003
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Antroponáutica(III)

Edição 46

Antroponáutica(III)

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Chagas Val: Rio Longá

(entre a Madalena de Proust & o Trenó de Orson Wells para retornar & tornar novo)

VISÃO CRÍTICA


Os textos de Chagas Val, particularmente os de suas duas obras-mestras, Floração das Águas, SI-OGE, 1992 e Anatomia do Escasso Cotidiano, Lithograf, 1998, por algumas características estéticas peculiaríssimas e por apresentarem maior grau de unidade e densidade, o co-irmanam àqueles, cujo estatuto poético é o eterno retorno.

Andamento, estrutura de poemas com versos longos, a espacialização sem fronteiras, o campo visual priorizado lembram os poemas sinfônicos que, pela polifonia, procuram resgatar o sentimento de origem e busca de identidade, bem como obras literárias, cujo trânsito se dá ao nível da alegoria e fabulação.Neste sentido, Chagas Val pertence a uma família de alguns poucos eleitos, possuídos por aquela santa loucura e obsessão do belo, no domínio da arte de resgatar a memória da aldeia, dando-lhe dimensão universal. Entre eles, nominaria o tcheco Bredich Smetana, o finlandês Jean Sibelius, o holandês Van Gogh, o russo Tolstói, o francês Marcel Proust, o norte-americano Orson Wells, o colombiano García Márquez, o brasileiro, mineiro Guimarães Rosa e o antilhano de St. Lucia, Derek Walcott, seres humanos que entenderam tão bem o verdadeiro sentido da busca de uma identidade, através do resgate do tempo perdido, essa revalorização das coisas, pessoas e gestos habituais do cotidiano. Num simples brinquedo da infância, na rua da casa em que se morou, na quitanda, no mar que banha a cidade, nos utensílios domésticos, no rio da aldeia ou, quem sabe, até num simples ‘esquecido’ ou num ‘bolinho de madalena com chá’, alguém se reencontrará consigo mesmo, através de um odor ou sabor, visão, toque ou som que de repente e depois de tanto tempo impressione os sentidos ou um dos sentidos e evoque algo perdido no tempo da memória ou na dispensa do coração.

Entre os dados excepcionais peculiares ao texto poético de Chagas Val está a opção pela radical recusa à técnica do verso metrificado.

Chagas Val, a partir do rio de sua aldeia natal, em Estreito, o Longá (palavra derivada de longo, alongar, lugar ) captura os enunciados de seu projeto rítmico. Longá é o nome que ele adotará, inclusive, como ícone dos versos longos que atravessam o mesmo rio que atravessa quase todos os seus poemas, ao mesmo tempo que atravessa todos os rios anônimos do mundo, particularmente nos livros Floração das Águas, 1992; Estado Provisório da Água, 1993 e,em especial, Anatomia do Escasso Cotidiano, 1998. Sim, essa vertiginosidade do rio que perpassa em seus poemas, rio que ele atravessa e registra em imagem, numa poesia densa, humana, intensa, vigorosa, autobiográfica e que ele transfere a versos longos, é também a vertiginosidade e voragem do rio no tempo, agindo sobre a exigüidade da vida que, sendo comum e universal, transfere a poesia do poeta Chagas Val a esse patamar de universalização.

Ao optar por uma poética que privilegia as percepções, ele concretiza a comunhão entre o signo verbal e a vertigem que é deflagrada por alguns recursos imagéticos como aliterações, a ruptura brusca ou abrupta com a sintaxe convencional, conseguindo, com a desconexão das palavras de suas posições acadêmicas e a criação de neologismos, chegar a um discurso poético em que o mais é pretexto para os recursos da metalinguagem.

Outro veículo especial do trânsito poético livre e de mão-única de Chagas Val é a manipulação exemplar do recurso estético chamado enjambement, que consiste em pôr no verso seguinte uma ou mais palavras que completem o sentido do verso anterior. Em português, esse galicismo é substituído por cavalgamento, palavra cujo significado bem reproduz a intenção que o poeta pretende desencadear nos sentidos e impressões do leitor, ao dar andamento de cavalgada ao texto.

A esses elementos fundadores e particularizadores da estética dos poemas de Chagas Val se somam a violação proposital da pontuação, a sinestesia, a hipérbole e a onomatopéia frásica.

Biografia do escritor

Chagas Val é o nome literário de Francisco das Chagas Val, que nasceu no vilarejo Es-treito, no município Buriti dos Lopes, no estado do Piauí, geograficamente no Nordeste do Brasil, no dia 23 de julho de 1943. Filho de Pedro de Sousa Val e Cândida Nunes do Val. Casado com a sra. Maria José Brito Val, tem quatro filhos: Ulysses, Telêmaco, Clarissa e Érico.

Chagas Val chegou ao Maranhão em 1963 e, a partir do mesmo ano, radicou-se em São Luís, onde concluiu o 3º ano do Curso Colegial, no Colégio São Luís. Para sobreviver, teve que lecionar e começou, em 1965, substituindo a professora Terezinha Rego, como professor de Ciências, no Colégio Rosa Castro, onde posteriormente lecionou Português e Francês. Foi professor de Português, na Escola Normal, bem como no Colégio Estadual Castelo Branco. Ressalte-se que os colégios em questão são atualmente extintos. Em 1974, forma-se em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. Tornou-se funcionário da Fundação Cultural do Maranhão, FUNC-MA, depois transformada em Secretaria da Cultura do Maranhão onde, como Agente Cultural, desenvolveu intensa atividade nos Planos Editoriais, nos meios culturais, inclusive como membro de comissões de leitura.

Desde adolescente revelou talento para a literatura, tendo optado pela poesia e pelo conto.

Em 1972, aos 28 anos de idade, participa do Movimento Poético Antopronáutica, ao lado de poetas expressivos como Viriato Gaspar, Luis Augusto Cassas, Raimundo Fontenele e Valdelino Cécio.

Obras do escritor: Chão e Pedra, poesia. Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, SIOGE, São Luís, MA, 1973; Chão Eterno, poesia. Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, SIOGE, São Luís, MA, 1979; Mundo Menino, contos. Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, SIOGE, São Luís, Ma, 1979; Teoria do Naufrágio, poesia. MINC/SECMA, 1987; Floração das Águas, poesia. Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, SIOGE, 1992; Estado Provisório da Água, poesia, Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, SIOGE, São Luís, MA, 1993; Anatomia do Escasso Cotidiano, poesia. LITOGRAF, São Luís, MA, 1998.

Os Arvoredos

Os arvoredos sonham dentro da espessa noite
verdes ao vento que lhes fere os galhos angustiados
as sinuosas sombras cobrem-lhe as flácidas folhas
molhadas pelas claras toalhas do fino orvalho

Os leves dedos dos arvoredos trêmulos atingem
a alada superfície dos brancos espelhos da água
em meio ao profundo sono das árvores feridas
ao enroscar-se em caules adormecidos em pesadelo

Os arvoredos espalham as folhas em pleno espaço
dispersos os iluminados grãos por sobre o solo
e as luzes lhes banham as verdimacias plumagens
ou abrem-se em claras camadas de alvas flores

Os vôos dentro dos arvoredos florescem tensos
e os cantos se alongam em música de instrumentos
de pássaros de verdes e bem-afinados ventos
em finíssimas cordas de tenras folhas ou de violinos
tangidos pelos trêmulos dedos do orvalho ou do luar
(p.15)

As Folhas

As folhas em vivíssima claridade iluminam-se
se desdobram em delicadas partes mais sensíveis
as camadas que se superpõem trêmulas e verdinhas
e as linhas em curvas de vermelhos traços em relevo

As folhas ainda tenras são transparentes e lisas
ou lavadas e se enrolam em delgados e claros tecidos
mas um luar se estende sobre sua leve superfície
e banha-lhe os breves meandros qual espelho refletido
(p. 16)

Van Gogh

Nos campos do luar medram alucinados vegetais,
a mão com pincéis de morte atinge os brancos hospícios,
as cores ferindo a paisagem enlouquecem os finos traços,
flutua na ácida luz uma orelha estranha decepada

A voz ferida entre os girassóis ilumina-se
nos suaves-tensos matizes de amarelo-sangue

Van Gogh planta num quadro os girassóis da morte
as linhas em meio às fundas marcas dos dedos
matizam de sincopados tons a soturna sinfonia,
seus dedos trágicos passeiam sobre a textura da pele

Uma orelha apenas acenderá fúlgidos relâmpagos
no espaço torturado de pinturas sóbrio-atormentadas?
uma orelha, à margem do infinito, fundará incandescente abismo?
(p. 51)

(Val, Chagas. Anatomia do Escasso Cotidiano. Plano Editorial - SECMA, Lithograf, São Luís, MA, 1998)
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