Anuário #01 - São Luís, 2003
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Antroponáutica (II)

Edição 45

Antroponáutica (II)

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Raimundo Fontenele:

(Zero em tradição acadêmica & prodigalidade em tornar novo)

Alberico Carneiro


Raimundo Fontenele é o nome literário de Rai-mundo Nonato Fontene-le, que nasceu em Pedrei-ras, MA, no dia 28 de agosto de 1948. Passou a adolescência em São Luís, no internato do Seminário de Santo Antônio. Hippie nos anos 60, militante de esquerda nos anos 70.

Raimundo Fontenele é o típico poeta pé-na-estrada, pois após a adolescência, já casado, viajou pelo Brasil. Esteve em Curitiba, onde foi um dos fundadores e editores da revista de literatura e arte Outras Palavras. De 1980 a 1996, residia em Porto Alegre-RS. Na capital gaúcha, exerceu intensa atividade literária, tendo publicado crítica e artigos em revistas e jornais, inclusive ganhou prêmios literários. De volta ao Maranhão, passou a residir no município de São Domingos, onde atualmente é diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal.

Filho de José Ribamar Fontenele e Joana Oliveira Fontenele, o poeta foi um dos integrantes do Movimento Antroponáutica, em 1972.

Raimundo Fontenele, dentre os poetas do movimento Antroponáutica, é quem mantém, desde os textos iniciais, maior unidade e coerência. Paradoxalmente, porque de início até os dias atuais, a sua obra poética é aquela que detém quase que radical incoerência, embora apresente concisão. Mas é uma incoerência em relação aos critérios acadêmicos sobre o que seja literariedade ou essência do poético para as literaturas oficiais e para os autores didáticos que as privilegiam, infelizmente.

Construindo um discurso poético quase que radicalmente desfamiliarizado, sem contramoldes, Raimundo Fontenele é da linhagem de poucos eleitos ou assinalados da confraria dos malditos, desses raros poetas que preferem articular o discurso poético a partir do texto experimental. Nesse particular, ele tem vínculo com alguns poetas que ousaram arremeter pelo desvio do convencional, poetas insubmissos, irreverentes como Mário de Sá-Carneiro, Cesário Verde, Florbela Espanca, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont.

névoa
a névoa que encobre a flor da cidade
seringa sem fim
rio que corre em seu fio de prumo

deixo saltar a vida da infância
que se esconde entre punhos de rede
e missais acabados

abre-amargo o véu do desespero
do menino feroz
sonâmbulo entre ladeiras

flor primeira
garra febril de alumínio
margens mudas do rio

Rio Mearim sonho verde ao inverso
no fundo do quintal canta e dança ao sereno
o tigre de olhos lívidos e de patas amigas

leva-me rio
banha-me água clara
para lá das penumbras
lava-me água clara

as bacias os pratos
a louca possuída
que gritava na noite
grades grades grades
aquele céu confuso
esterco e miragem
(pp.16-17)


Obras literárias de Raimundo Fontenele

POESIA: Chegada Temporal, Editora Mensageiro da Fé, Salvador-BA, 1970; Às Mãos do Dia, Editora São José, São Luís-MA, 1972; Presença, Editora Beija Flor, Curitiba-PR, 1980; Pelos Caminhos pelos Cabelos, Edição do autor, Porto Alegre-RS, 1982; A Colheita do Mundo, Editora Seriema, Salvador-BA, 1986; Venenos, Editora Alcance, Porto Alegre-RS, 1994.

POESIA DO GÊNERO INFANTIL: O Brinquedo Bêbado, Editora Solivros, Porto Alegre- RS, 1995.

PROSA: Olho por olho, Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; De Cara Suja, Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; Do Oiapoque ao Chuí, Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; O Grande Culpado, Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; Quanto Vale sua Vida, Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997.

ANTOLOGIAS: Antologia Poética do Movimento Antroponáutica, Departamento de Cultura, São Luís-MA, 1972; Hora de Guarnicê (Poesia Nova do Maranhão) – FUNC-MA - São Luís-MA, 1975; Arame (poesia) – Pólo Cultural Ltda – Curitiba-PR, 1978; Antologia do Concurso Mário Quintana de Poesia – tchê!, Editora Porto Alegre, 1987 e A Poesia Maranhense do Século XX , Org. escritor Assis Brasil, SIOGE/IMAGO-Rio de Janeiro, 1994.

Margens

1


O pequeno animal, não nascido
para coisas absurdas.


Fome de todas as cores: a originalidade.
O demônio pinta com palavras
as crateras da lua, as ruas
por onde se desce.


Vais passar uma noite de cão.
Vais sentar sobre o formigueiro.
Vais te enrolar em palavras e novelos.

2

O vento a velocidade a pêra
enchem-me de náusea
a boca do estômago

a pêra o vento a velocidade
à boca do estômago
náusea pêra vento
à toda velocidade: ah, as pêras
do Ferreira

3

Vida de artista e prostituta
Vida de artista ou marginal
Vida de verdade é tudo igual

4

Então vida é só isso?
Uma pedra no meio do caminho?
O barco azul, os passarinhos do Quintana,
migalhas, migalhas, migalhas?
Deus no pasto?
O diabo no inferno?
O homem na enxada enterrando vítimas?
Vida é menos que isso: a barata na sala,
o temor do vizinho, um barulho estúpido,
o gole de vinho?
Nadas, coisinhas, titicas
vida vida vida
(pp. 15-18)

Salmo 1 (Aos sedentos)

Ela é minha cabra e pastora;
com seus dentes me alimento.
A uma pastagem de carne e luz
ela me conduz, com suas veredas.
(p. 20)

Salmo 8 (Aos sensuais)

Deus nos deu olhos para ver, ouvidos para ouvir
e para tudo o mais nos deu as outras coisas
ardentes e sexuais.
(p. 27)

Uma possibilidade em mil

E tu, mulher, esperas paciente
que esse monstro, ou lobo mau, o homem
te cubra e te descubra com sorrisos.
(p. 38)

(Fontenele, Raimundo. Marginais. Editora Pericumã, São Luís-MA, 2001)
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