Anuário #01 - São Luís, 2003
Busca 

Os Trinta Anos Pós-Antroponáutica

Edição 44

Os Trinta Anos Pós-Antroponáutica

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
Por: Viriato Gaspar

(Da despoetização à valorização do poético no viés do coração)


Em 26 de maio de 1972, há 30 anos, foi lançada, em Noite de Autógrafos, em São Luís do Maranhão, a antolo-gia poética Antroponáutica, que apresenta poemas de poetas até então inéditos, em livros. Eram eles Chagas Val, Luís Augusto Cassas, Raimundo Fontenele, Viriato Gaspar e Valdelino Cécio, este recentemente falecido. Para eles, alguma coisa estava errada, já que a Semana de Arte Moderna havia acontecido, de maneira ruidosa, há 52 anos antes, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo e poucos, à exceção de Nascimento Moraes Filho, Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Oswaldino Marques, Lago Burnett e José Chagas, pouquíssimos outros dela tomaram conhecimento, decorridas cinco décadas. Era como se São Luís vivesse ainda em plena época do soneto parnasiano sem tomar conhecimento sequer da linguagem revolucionária de O Guesa, de Sousândrade.

VIRIATO GASPAR

Viriato Gaspar é o nome literário de Viriato Santos Gaspar, que nasceu em São Luís, no dia 7 de março de 1952. Filho de Clóvis Roxo Gaspar e Sebastiana Santos Gaspar. Fez seus estudos no Liceu Maranhense. Participou do Movimento Antroponáutica. Foi classificado em vários concursos literários, entre eles conquistou prêmios de concursos da Academia Maranhense de Letras, da Prefeitura de São Luís e da Sociedade de Cultura Artística do Maranhão. Em 1970, foi Menção Honrosa no Concurso Antonio Lôbo, da Academia Maranhense de Letras com o livro Portos sem Rumos. No mesmo ano, venceu o prêmio Sousândrade,do Concurso Cidade de São Luís, instituído pela Prefeitura Municipal desta cidade, com o livro Teodisséia. Em 1971, novamente ganhou o mesmo prêmio com 50 Sonetos. Colaborou em vários jornais de São Luís. No final da década de 70, viaja para o Rio de Janeiro e, posteriormente, estabelece-se definitivamente em Brasília, onde vive atualmente. Em livro, estreou em 1984 com a obra Manhã Portátil, a que se seguiram Onipresença, 1986, Lãmina do Grito , 1988, e Sáfara Safra, 1994, obra premiada pelo Plano Editorial do SIOGE. Vários críticos se pronunciaram sobre o poeta. Oswaldino Marques ao comentar textos de autores novos da Literatura Maranhense disse que o poeta “ mais próximo da autonomia de vôo é Viriato Gaspar. Surpreende-se nele inventividade, assenhoreamento formal, linguagem plástica, límpida, a inteligência do metamorfismo da expressão que o dota dos meios de manipulação apurada da palavra.” Lago Burnett: “...um poeta absolutamente senhor de seu instrumental.” Chagas Val, ao referir-se ao livro Manhã Portátil, declarou “ ... um livro forte e denso.” Moacyr Félix, “Com nitidez percebe-se, atrás do seu bem elaborado artesanato, a presença verdadeira de um poeta. Literatura e não literatice.” Wilson Pereira, “ Manhã Portátil já revela a energia criadora do autor, dotado de sopro mágico e de capacidade para articular a linguagem com expressivos recursos estilísticos.”

Percorrendo o caminho vertiginoso por onde Viriato Gaspar manipula a linguagem no texto poético de Sáfara Safra, desaguadouro singular de inúmeras conquistas modernas a que teve acesso, percebe-se que ele tem o descortínio da estrada por onde os bons poetas começam e seguem, ao criar poemas que são paradigmaticamente, pela concisão e maturidade, exemplares.

Se atentarmos para o que disseram Todorov, Pound, T. S. Eliot, na esfera internacional e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, aqui no Brasil, o aspecto paródico ou a recriação é que constitui a grande literatura, ou seja, encontrar uma nova maneira de dizer a mesma coisa já dita de infinitas maneiras. O próprio texto bíblico nos diz que “Não há nada de novo sob a face do Sol.” E Lavoisier, “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” É só aplicar o princípio científico a qualquer forma de arte e, então, chega-se à conclusão de que o que há, em verdade, são geniais arranjos.

No caso Viriato Gaspar, as pegadas e rastros vão-se configurando e redesenhando através das dedicatórias dos poemas. Os nomes escolhidos soam como legítimas epígrafes: O Rastelo (a Ezra Pound); O Zôo (a Paul Éluard); O Selo (a José Saramago); O Escuro (a Mário de Sá-Carneiro); Os Restos Vitais (a Paul Valéry); Postal Vadio (a Jean-Arthur Rimbaud); A Logopéia (a Jules Laforgue); Fremilúnio (a Paul Verlaine); Boca da Noite (a Mário Faustino); O Anjo (a Garcia Lorca); A Porta (a Fernando Pessoa); A Gaze (a Gertrude Stein); O Salto Mortal (a Rainer Maria Rilke); O Carrapato (a John Donne); O Aluno (a Joaquim de Sousândrade); O (S)oco (a T. S. Eliot); O Brasão (a José Paulo Paes); As Tatuagens (a Stéphane Mallarmé); O Em Canto (a Carlos Drummond de Andrade); Hacéldama (a Anderson Braga Horta); Haiku (a Matsuo Bashô); A Gangorra (a Benjamin Moloise); O Pugilato (a Florbela Espanca); A Úlcera do Azul (a José Chagas); A Fomem (a Nauro Machado); A Clave (a Jorge de Lima); A Tempestade (a Cecília Meireles); A Engenharia (a João Cabral de Melo Neto); O Armazém (a Cesário Verde); O Prisma e o Arco-Íris (a Oswaldino Marques); O Trampolim (a Vladimir Maiakóvski); A Pirraça (a Manuel Bandeira); A Ponte (a Rainer Maria Rilke); Matinal (a Lago Burnett) e O Vôo (a Haroldo de Campos).

Sáfara Safra é uma abundante colheita, uma viagem por alguns dos melhores caminhos poéticos da poesia neo-simbolista e moderna universal. A seleção de homenageados é um pretexto para que o poeta possa proceder a uma viagem lúdica por vários laboratórios poéticos.

Referência, reverência via releitura, humildade necessária para, descobrindo a verdadeira tradição poética não acadêmica, saber, a partir de um paideuma (ordenação do conhecimento poético) cada poeta encontrar-se na soma de poetas que leu e assimilou. A poética de Viriato Gaspar tem esse viés.

Postal Vadio

(A Jean-Arthur Rimbaud)


eu quero escancarar as minhas portas
para que entrem nuvens de mendigos
e arrastem pelas minhas veias tortas
os ferros velhos dos verões antigos

eu quero escancarar a minha aorta
para que sangre o vento pelas ruas
e biquem em minha boca as aves mortas
os crespos corpos das mulheres nuas

eu quero arregaçar a minha alma,
deixá-la calcinada na calçada,
até que as minhas mãos saltem das palmas
e mordam o mundo em mar e madrugada,

e jorrem pelos poros dos meus dentes
os rios que bebi nas mãos alheias
e nos meus olhos sujos luas cheias
da mesma insônia antiga dos doentes

eu quero escancarar os meus sapatos,
rasgar meu coração em postas turvas,
deixar entrar em mim todos os gatos
para lamberem o hálito da chuva.
(p.46)

Hacéldama

(a Anderson Braga Horta)


ó árduo território, onde Te lavro,
semente de clarão, luar de fogo,
e onde me jogo todo e turvo o roubo
da noite-escuridão, oh descalabro

da carne a descascar-me em sangue e lava:
o coração é um sapo, em cujo aboio
a alma se perde, dona, mãe, escrava,
cheirando a trigo e recendendo a joio.

ó árduo território do plausível,
noturna obsessão de luas calvas,
aqui Te lavro, Verbo, oh impossível
jaula de vento, canavial das almas.

aqui Te planto, Verbo, neste chão,
agreste como as solas dos sapatos,
para que roas o anzol do coração,
para que cortes com teus dentes gastos

a palma de meus dedos retorcidos,
as lâminas das minhas clarabóias,
e planes pelo mar dos meus sentidos
teu brilho de punhal, sangrentas bóias,

e mordas com teus olhos fulmegantes,
com a luz de tuas trevas pelos flancos,
não só as minhas mãos, mas meus instantes,
e invadas toda a vida, como um cancro.

II

ó carne, lua magra a se espichar
por entre os ossos podres na gamela
do tempo (porto ou pedra?) pó & mar,
vitral de vícios, vulvas amarelas,

raiz de solidão, jaula de vidro,
que a vida é pouca (a vida é sempre pouca)
e só nos restam as mãos, nossos sentidos,
para inventar o sol da nossa boca,

para rachar ao meio o que mais seja,
e o que vier que venha (e sempre mais),
que a vida é curta e a morte brotoeja
por trás de cada instante, cada cais,

a tocaiar-nos solta nas esquinas,
a nos chamar do fundo do salão,
cegueira escancarada nas retinas,
punhal atravessando o coração.

(Sáfara Safra, pp.116-117)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Copyright 2005 Jornal Pequeno. Todos os direitos reservados
Email: info@guesaerrante.com.br