Anuário #02 - São Luís, 2004
Busca 



 


Cinzas do Carnaval na Casa das Minas
A Luta Corporal
Fortuna crítica
Ferreira Gullar: ler / dialogar & ver além! (I)
Editorial

Edição 74

Cinzas do Carnaval na Casa das Minas

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Índice Texto Anterior Próximo Texto 

Um carnaval feito por divindades chamadas Tobossi, jovens mensageiras da alegria, desapareceu com o tempo deixando saudades no terreiro mais antigo do Maranhão

Por: Cesar Teixeira

Havia antigamente na Casa das Minas – o mais tradicional ter-reiro jeje-fon do Maranhão –, as festas das Tobossi, que coincidia com os períodos carnavalesco, junino e natalino. Eram divindades infantis, ou meninas, que ali baixavam nas vodunci-gonjaí, ou filhas-de-santo que passaram por todos os graus de iniciação.

Desde 1967, entretanto, as sinhazinhas, como também eram chamadas essas divindades, não descem no Querebentã (casa-grande), onde, durante o período de Carnaval, ofereciam comidas aos visitantes, recebiam presentes e divertiam-se.

MEDO DE FOFÃO

As filhas-de-santo que residiam fora passavam cerca de 15 dias na casa, para preparar as comidas e ornamentar o terreiro. No domingo de Carnaval se dava o tambor de entrudo, quando os voduns mais velhos desciam durante o dia para brincar, jogando água e perfume nas pessoas.

Como não gostavam do entrudo, as Tobossi só chegavam à noite, quando os voduns já tinham partido, ou na madrugada de segunda-feira. Aí então começava a sua festa, com grande alarido.

“Essas meninas mantêm uma alegria constante no decorrer das danças dessa festa do Carnaval, mas sem que, mesmo humanizadas, desçam a exageros, a excessos...”, comenta o etnólogo maranhense Nunes Pereira (1).

Alegres, mas comportadas, as meninas brincavam com bonecas e pequenas louças, dançavam e atiravam pó-de-arroz e confete nos outros. Pareciam realmente crianças normais, e tinham medo dos fofões, mascarados e bêbados que eventualmente adentravam a Casa das Minas.

Na terça-feira à tarde dançavam na sala e, na manhã de quarta-feira, em volta das árvores e plantas sagradas do quintal, onde se encontrava uma mesa com travessas de acarajé, que era distribuído aos visitantes.

COMILANÇA

As Tobossi usavam saias coloridas, panos-da-costa listrados, mantas bordadas com miçangas, colares e pulseiras de búzios, ou dalsas, entre outros adereços. Na cabeça, um lenço amarrado em trouxa, feito rodilha.

Incorporadas em suas gonjaí, elas normalmente dormiam em esteiras e acordavam muito cedo, tomando banho após o café. Ao contrário dos voduns, que não se alimentam (embora lhes sejam oferecidas comidas rituais), as meninas comiam, além de serem responsáveis pela “integridade” das frutas e iguarias guardadas no peji, quarto de objetos sagrados.

Os alimentos (carga) eram servidos durante o Arrambã – quitanda ou bancada cerimonial – na quarta-feira de cinzas, quando o terreiro é fechado anualmente antes da Quaresma, ocasião em que os voduns se despedem para descansar, retornando somente no sábado de Aleluia.

Eram basicamente pipocas, azogrí (milho torrado, socado e misturado com açúcar), doces de frutas em calda, feijão, coco manso e babaçu torrados, além de bebidas como o aluá (fermentada com milho, gengibre e mel), licores, gengibirra, entre outras coisas.

As sinhazinhas, é claro, intrometiam-se nesse ritual de divindades velhas, ajudando na distribuição dos quitutes e bebidas, expressando-se numa linguagem desconhecida, que nem as filhas da casa podiam identificar.

PURAS CINZAS

Na verdade, receber Tobossi era um privilégio reservado às vodunci submetidas à feitoria de gonjaí, que se constitui o último grau de preparação das filhas-de-santo. Somente as vodunci-gonjaí poderiam depois se tornar mãe, ou chefe da Casa das Minas.

Conforme registra o antropólogo Sérgio Ferretti (2), as filhas atuais dizem que as Tobossi eram crianças puras:

“Tinham mais afinidade com o corpo e permitiam uma ligação mais direta do que os voduns, que são adultos. Não tinham falhas e não se irritavam. Seu papel no culto era só brincadeiras. Eram espíritos mais perfeitos e mais elevados.”

As Tobossi possuiam nomes próprios, assim como os voduns, e eram ligadas a cada filha-de-santo. O Querebentã é habitado por famílias ancestrais de voduns – Davice, Quevioçô e Dambirá, existindo ainda a Savaluno, protegida de Zomadonu, patriarca da casa.

Mãe Andresa, falecida em 1954 (teria nascido em 1855), era da família Dambirá e carregava o vodum Poliboji. A Tobossi que recebia durante as grandes festas anuais chamava-se Açoabebe. Em Dona Manoca, da família Davice, baixava Trotobe, e assim por diante.

Cada gonjaí recebia apenas uma Tobossi. As feitorias de iniciação eram chamadas “barcos”, sendo provável que a última deu-se em 1914. Depois da morte de Dona Manoca em 1967, as filhas-de-santo decidiram não mais fazer as festas das sinhazinhas, pois restaram poucas gonjaí. A última, Dona Medúsia, faleceu em dezembro de 1977.

Na Casa das Minas ficou um silêncio de cinzas, perfume se esvaindo, riso infantil no fundo da memória e uma pergunta: será que as meninas voltam? Um mistério que se afunda nas jarras que garantem a purificação na porta do peji. A sede de saber vem da rua.

As mais antigas diziam, quando era concedida permissão para alguém entrar ali, em paz e com o coração limpo:

“Eu quero beber água; minha garganta está em tuas mãos”.

Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Copyright 2005 Jornal Pequeno. Todos os direitos reservados
Email: info@guesaerrante.com.br