Anuário #03 - São Luís, 2005
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Ninguém quer ser negro
MANOEL SANTOS NETO: A BUSCA DE UMA ESCRITURA
Editorial

Edição 82

Ninguém quer ser negro

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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O que podemos esperar de uma sociedade fundada sobre a aventura e não sobre o trabalho, fundada na caça fatal ao índio, na escravidão do negro e na degradação da mulher?
Carl Degler, em 'Nem preto nem branco': escravidão e relações raciais no Brasil e nos EUA


Na primeira metade do século XX, surgiram, em São Luís, dois romances sobre o negro maranhense: um, de Astolfo Marques (1876-1918), A nova aurora; outro, de Nascimento Moraes (1882-1958), Vencidos e degenerados, publicado em 1915. Astolfo Marques fixou a transição da Monarquia para a República, e tentou compor o retrato de um dia-a-dia aviltante nos lares e fazendas conspurcados pelo cativeiro, de uma guerrilha cruel travada por gente desesperada. Nascimento Moraes pretendeu retratar o ocaso do cativeiro, com a recordação das caravelas que partiram e dos sofrimentos das mães escravas de Cabo Verde, de Guiné, de Angola, de Moçambique, de tantos mares, de tantas terras tão distantes.

Pelos livros dos dois autores maranhenses, confirma-se que, na sociedade brasileira, recentemente saída da escravidão, o ideal era ser branco. Disso é testemunho o que diz o escritor Lima Barreto (1881-1922), que era mestiço, no capítulo IX de seu romance Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, publicado em 1919. Ali, pode-se ler, pela boca de Gonzaga de Sá: “A mais estúpida mania dos brasileiros, a mais estúpida e lorpa, é a aristocracia. Abre aí um jornaleco, desses de bonecos, e logo dás com uns clichés muito negros ... Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!”.

Entre os romances do século XIX que abordam o assunto do negro e as questões raciais no Brasil, talvez o mais conhecido seja O mulato, de Aluísio Azevedo que, apesar de publicado pela primeira vez, em 1881, ainda conta com um vasto público leitor no país. O personagem central do romance é um mestiço, um jovem chamado Raimundo José da Silva, descendente de uma escrava e de um fazendeiro branco do Maranhão. Desconhecendo sua origem, Raimundo recebe uma educação esmerada na Universidade de Coimbra, em Portugal. Quando o romance começa, ele está voltando a São Luís, para encerrar seus negócios, preparando-se para a mudança definitiva para o Rio de Janeiro.

Quando pede a mão de sua prima, branca, em casamento, porém, sua descendência lhe é revelada e impedem-no de desposar a moça. Ao descobrir sua origem escrava, o Dr. Raimundo da Silva, já na condição de distinto advogado, compreende “a frieza de certas famílias a quem visitava; a brusca interrupção de conversas no momento em que se aproximava, a reticência daqueles com quem falava sobre seu passado; a reserva e o cuidado daqueles que discutiam, em sua presença, questões de raça ou sangue”.

O preconceito racial – comprova-o Josué Montello ainda mais contundentemente do que Aluísio Azevedo – no Maranhão chegou às raias do patético e do ridículo ao mesmo tempo. O escritor Manoel Caetano Bandeira de Mello revela, em um de seus livros, que em São Luís se examinavam com olhos perscrutadores os cabelos de gente de fora para ver se tinham casta, isto é, certo encaracolado, ainda que disfarçável, denunciador de ascendência negra. Da cor da pele nem se fala. Havia interpelações deste tipo: “Como é que o senhor vem falar comigo desse jeito, se o senhor é quase da minha cor?” E logo se juntava o braço ao do interlocutor para avaliar a cor da pele de ambos ...

Dunshee de Abranches aponta em sua obra os graves preconceitos e baixos costumes que subsistiram na vida social do Maranhão, herança nefasta dos tempos coloniais. O escritor Nascimento Moraes, com o livro Vencidos e degenerados, também denuncia o exacerbado preconceito antinegro na sociedade maranhense. Ele mostra que houve uma tentativa de escamotear a brutalidade e a estupidez da escravidão e também de dissimular o preconceito racial que sucedeu ao fim do cativeiro. Ilustres intelectuais passaram a glorificar a miscigenação, na imprensa de São Luís, como suposta prova de harmonia racial no Brasil.

Manoel Caetano Bandeira de Mello, num de seus artigos, tentou se corrigir. Escreve ele: “Não há dúvida que a rede, a cama, o chão de amor, muito contribuíram para apagar ódios através da mestiçagem. Todavia não fazem esquecer a crueldade dos castigos e a discriminação imposta aos negros e a seus descendentes”.

Uma conseqüência do preconceito antinegro é que há uma enorme quantidade de classificações raciais no país. A “ideologia do embranquecimento” assumida por negros e brancos tem feito com que as pessoas negras afastem de diversas formas a referência histórica de suas origens africanas. O Brasil já teve até um presidente da República mestiço, mas não se fala sobre isso. No começo do século XX, com a morte de Afonso Pena, o vice, Nilo Peçanha, assumiu o cargo e cumpriu pouco mais de um ano de mandato, até novembro de 1910. Era mestiço e tratou de esconder a sua origem sempre que pôde. A sua biografia oficial, escrita por um parente, Celso Peçanha, tem 172 páginas e não faz uma única menção à ascendência negra do ex-presidente.

Em uma pesquisa feita no ano de 1963, os 100 habitantes de uma vila de pescadores do Nordeste usaram 40 termos nas autodeclarações de cor. No Censo de 1980, os pesquisadores do IBGE receberam, pela primeira vez, a incumbência de pedir a cada cidadão que declarasse a sua cor. Entre os não-brancos, foram anotadas nada menos de 136 maneiras de escamotear a origem negra. Algumas delas: morena moscatel, amarela queimada, morena clara, morena escura, azul, morena da cor de jambo, baiano, cafu, acastanhado, cobre, sarará, café, branca queimada, miscigenação mista, morena bem chegada, puxa para branca, queimada de praia, turva e verde, marrom, sapecada e roxa. Fala-se também em “morena da cor do desejo”, “morena da cor do pecado” etc.

Isso demonstra a dominação cultural a que foram submetidos os negros, desde os tempos da escravidão. Ainda hoje, comprovadamente, o brasileiro foge de sua verdade étnica, procurando situar-se o mais perto possível do modelo tido como superior, que é o branco. No Censo do IBGE de 1990, apenas 5% se declararam negros, 56% se disseram brancos e 39% informaram que são “pardos”.

“Um brasileiro é designado preto, negro, moreno, mulato, crioulo, pardo, mestiço, cabra – ou qualquer outro eufemismo; e o que todo o mundo compreende imediatamente, sem possibilidade de dúvidas, é que se trata de um homem-de-cor, isto é, aquele assim chamado descende de escravos africanos. Trata-se, portanto, de um negro, não importa a gradação da cor da sua pele”, afirma Abdias do Nascimento que, em um de seus livros, O genocídio do negro brasileiro, comprova que existiu e existe uma trama para embranquecer a população brasileira.

Num de seus mais veementes discursos no Congresso Nacional, na condição de deputado pelo Rio de Janeiro, Abdias do Nascimento denunciou que na época em que as teses darwinistas alimentavam a mais crua teorização da supremacia européia, o Brasil se empenhou freneticamente em se tornar um país branco. A classe política dominante trouxe o imigrante europeu, segundo o Decreto-lei nº 7.967, de 1945, para “preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia”.

Por idênticas razões, um decreto de 28 de junho de 1890 concedia livre entrada no Brasil a todos os indivíduos aptos para o trabalho, “excetuados os indígenas da Ásia ou da África”. O imigrante europeu veio para um fim muito bem explicitado nas palavras de Joaquim Nabuco: “Esse admirável movimento imigratório não concorre apenas para aumentar rapidamente, em nosso país, o coeficiente da massa ariana pura; mas, também, cruzando-se e recruzando-se com a população mestiça, contribui para elevar, com igual rapidez, o teor ariano do nosso sangue”.

Daí por que a idéia da democracia racial, ainda tão sedimentada na cultura brasileira, tem sofrido tantos golpes. Em pleno século XXI, os negros ainda são barrados na escalada ao topo da pirâmide social. Saem perdendo na disputa por um emprego e ganham menos do que os brancos. Resumindo: a democracia racial foi e continua sendo apenas um embuste, uma espécie de marketing que promove a alienação de negros e mestiços, enquanto garante a continuidade de privilégios herdados do racismo colonial.

Muito a propósito disto, a leitura de testamentos e de jornais da época revela um surpreendente retrato de homens e mulheres do período da escravidão. Assim como agora, em pleno século XXI, um pai de família tenta assegurar o futuro dos filhos garantindo o estudo numa boa faculdade, nos séculos XVII, XVIII e XIX a melhor herança era humana: negros. O grande dote que um noivo recebia no casamento eram recursos para se tornar sócio do comércio escravagista. Podia comprar 20 negros, quem sabe 30, e começar uma vida nova. Viúvas também aplicavam suas economias nesses empreendimentos, recebendo sua parte em espécie.

(NETO, Manoel. O Negro no Maranhão. São Luís: Clara Comunicação e Editora Ltda. 2004, p.73-79)

O AUTOR

O AUTOR

Manoel Santos Neto, maranhense de São Luís, nasceu a 23 de julho de 1963. Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Maranhão, jornalista e escritor de profunda vinculação social, foi um dos fundadores do Centro de Cultura Negra do Maranhão (1979), editor do jornal Akomabu (de agosto de 1986 a junho de 1988) e co-autor de trabalhos de pesquisa em parceria com a professora Maria do Rosário Carvalho Santos, entre os quais o livro Boboromina, sobre as casas de culto afro do Maranhão; vencedor do concurso literário da Secretaria de Cultura do Estado (Secma), editado pelo Sioge (Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado), no ano de 1989.

Trabalhou como repórter e redator de diversos periódicos, entre os quais o Jornal de Hoje, Diário do Norte, Jornal Carajás e Atos e Fatos. Foi chefe de Reportagem e editor de Política do jornal O Estado do Maranhão, onde trabalhou de maio de 1988 a janeiro de 2001, e integrou a equipe fundadora do jornal Folha do Maranhão (de junho de 2001 a março de 2002). Atualmente, dedica-se ao jornalismo e à literatura e trabalha como repórter da Editoria de Política do Jornal Pequeno.
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