O que podemos esperar de uma sociedade fundada sobre a aventura e não sobre o trabalho, fundada na caça fatal ao índio, na escravidão do negro e na degradação da mulher? Carl Degler, em ‘Nem preto nem branco’: escravidão e relações raciais no Brasil e nos EUA

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Na primeira metade do século XX, surgiram, em São Luís, dois romances sobre o negro maranhense: um, de Astolfo Marques (1876-1918), A nova aurora; outro, de Nascimento Moraes (1882-1958), Vencidos e degenerados, publicado em 1915.

Astolfo Marques fixou a transição da Monarquia para a República, e tentou compor o retrato de um dia-a-dia aviltante nos lares e fazendas conspurcados pelo cativeiro, de uma guerrilha cruel travada por gente desesperada.

Nascimento Moraes pretendeu retratar o ocaso do cativeiro, com a recordação das caravelas que partiram e dos sofrimentos das mães escravas de Cabo Verde, de Guiné, de Angola, de Moçambique, de tantos mares, de tantas terras tão distantes.

Pelos livros dos dois autores maranhenses, confirma-se que, na sociedade brasileira, recentemente saída da escravidão, o ideal era ser branco. Disso é testemunho o que diz o escritor Lima Barreto (1881-1922), que era mestiço, no capítulo IX de seu romance Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, publicado em 1919.

Ali, pode-se ler, pela boca de Gonzaga de Sá: “A mais estúpida mania dos brasileiros, a mais estúpida e lorpa, é a aristocracia. Abre aí um jornaleco, desses de bonecos, e logo dás com uns clichés muito negros … Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!”.

Entre os romances do século XIX que abordam o assunto do negro e as questões raciais no Brasil, talvez o mais conhecido seja O mulato, de Aluísio Azevedo que, apesar de publicado pela primeira vez, em 1881, ainda conta com um vasto público leitor no país.

O personagem central do romance é um mestiço, um jovem chamado Raimundo José da Silva, descendente de uma escrava e de um fazendeiro branco do Maranhão.

Desconhecendo sua origem, Raimundo recebe uma educação esmerada na Universidade de Coimbra, em Portugal. Quando o romance começa, ele está voltando a São Luís, para encerrar seus negócios, preparando-se para a mudança definitiva para o Rio de Janeiro.

Quando pede a mão de sua prima, branca, em casamento, porém, sua descendência lhe é revelada e impedem-no de desposar a moça. Ao descobrir sua origem escrava, o Dr. Raimundo da Silva, já na condição de distinto advogado, compreende “a frieza de certas famílias a quem visitava; a brusca interrupção de conversas no momento em que se aproximava, a reticência daqueles com quem falava sobre seu passado; a reserva e o cuidado daqueles que discutiam, em sua presença, questões de raça ou sangue”.

O preconceito racial – comprova-o Josué Montello ainda mais contundentemente do que Aluísio Azevedo – no Maranhão chegou às raias do patético e do ridículo ao mesmo tempo.

O escritor Manoel Caetano Bandeira de Mello revela, em um de seus livros, que em São Luís se examinavam com olhos perscrutadores os cabelos de gente de fora para ver se tinham casta, isto é, certo encaracolado, ainda que disfarçável, denunciador de ascendência negra.

Da cor da pele nem se fala. Havia interpelações deste tipo: “Como é que o senhor vem falar comigo desse jeito, se o senhor é quase da minha cor?” E logo se juntava o braço ao do interlocutor para avaliar a cor da pele de ambos …

Dunshee de Abranches aponta em sua obra os graves preconceitos e baixos costumes que subsistiram na vida social do Maranhão, herança nefasta dos tempos coloniais.

O escritor Nascimento Moraes, com o livro Vencidos e degenerados, também denuncia o exacerbado preconceito antinegro na sociedade maranhense.

Ele mostra que houve uma tentativa de escamotear a brutalidade e a estupidez da escravidão e também de dissimular o preconceito racial que sucedeu ao fim do cativeiro. Ilustres intelectuais passaram a glorificar a miscigenação, na imprensa de São Luís, como suposta prova de harmonia racial no Brasil.