Anuário #02 - São Luís, 2004
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Cinzas do Carnaval na Casa das Minas
A Luta Corporal
Fortuna crítica
Ferreira Gullar: ler / dialogar & ver além! (I)
Editorial

Edição 74

A Luta Corporal

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Um livro-marco e permamente

Quando apareceu em 1954 A Luta Corporal provocou ruidosa celeuma nos arraiais da crítica e da estética nacional.

Ferreira Gullar introduzia em nossa arte poética um frisson noveau. De um lado, a poesia estava fatigada de certos cacoetes do Modernismo. De outro, a geração de 45, que se empenhara na restauração de preocupações formais, lutando pela volta a uma espécie de ancien regime poético, academizava ainda mais o seu gosto.

A voz de Gullar, nesse ambiente e nessa atmosfera, era discrepante – e abria rumos para novas e ousadas experiências de expressão, que os concretistas e neoconcretistas levariam a inusitadas paragens.

Mas Gullar não era apenas mais um inventor de formas insólitas, ou um enamorado da palavra pela palavra, ou um anárquico desmantelador do verbo, ou um desintegrador do verso ou do idioma. Era um homem feito de paixão e fúria – como já se disse dele, a propósito deste livro marcante, que agora surge em 3ª edição – em busca de adequados meios de comunicação por onde escoassem suas emoções então convulsas, perturbadoras e perturbantes.

Nesses poemas, Gullar violentava maneiras tradicionais ou convencionais do fazer poético, investia o seu capital lírico no poema em prosa – tão parcamente cultivado entre nós – ou no delírio surrealista. Ocasião em que nem sempre se valia da palavra nobre (muito em moda por aquele tempo), mas de explosivo teor escatológico. Utilizava-se desses recursos todos para que os poemas fixassem, “além do desespero que exprimem, uma afirmação da vida que luta contra paredes asfixiantes, em busca do dia claro, aqui fora”, conforme ele mesmo diria, em severa autocrítica, quando se sentiu obrigado a fazer um balanço relativamente a essa fase – ou face – de sua poesia.

Mas não se pense que o valor de A Luta Corporal decorra só do fato de ter sido, em determinada hora, um livro-marco de nova etapa de nossas letras. Não. É isso – e muitos mais. É, antes de mais nada, obra de permanente viço, em que o poeta esplende em cada poema, em cada momento de sua invenção. Um livro feito das muitas dores do homem. Do homem enclausurado dos nossos dias. Pois, como o próprio autor já proclamou, o dia claro ainda não surgiu.

— Mário da Silva Brito —

Há duas maneiras de justificar a publicação de um texto: porque ele é em si relevante ou porque ele é um elo de um conjunto de textos relevantes. Este é um texto que goza das duas características anteriores: é um nó, um momento, um tempo, um elo extremamente representativo da obra de um dos nossos grandes criadores contemporâneos; e é, de per si, a expressão de um certo modo de criação a que mentes literárias muito altas não raramente se voltam. Para quem acompanha a produção literária de Ferreira Gullar, A Luta Corporal foi um trânsito tão rico de ultrapassagem e impasses que a sua superação como que pareceu recuo ou abdicação. A verdade, porém, não fora essa, a verdade era este texto: só isso era já bastante para justificar que ele não ficasse inédito – o que ocorre, felizmente, agora, com este livro, que leva, ademais, uma nota prefacial do próprio poeta e mestre de pensamento: estamos numa terceira via textual, paridora e parturiente de tudo ou quase.

“E parado fica o sol mortal, sobre a página do engendramento”: eis uma citação que define este Crime na flora ou ordem e progresso: como a realidade objetiva e subjetiva pode ser pelo que a porta interpsiquicamente, a saber a palavra, manipulada, melhor, “capitulada” pela cabeça pensante (racional, irracional, alucinada, caótica, mística, lúcida, alienada, perquiridora, buscadora, criadora ab nihilo), essa mesma cabeça – à feição de algumas outras que a antecederam há séculos ou décadas ou conviventes – cria outra realidade, que para ela pode passar a ser a primeira ou a só realidade: o texto é a realidade, não apenas como cosa mentale, à Da Vinci, mas também, como cosa reale. Se é assim, a “outra” cosa reale passa a ser imponderável, um “sol mortal” qualquer, quer dizer, perecível, efêmero, que não prossegue seu curso já inútil, pois o que importa é a página, “a página do engendramento.”

Foi sempre bom que, na luta com o real, houvesse esses interlúdios demiúrgicos na vida dos grandes poetas, assim como sempre é útil que na evolução da literatura ocorram esses pequenos grandes milagres de beleza irracional, engendrados por vocações racionais, para tentarem explicar capsularmente a grande aventura do uso do mais rico instrumento de humanização do homem, seja, a palavra, a fala, a linguagem, o texto, a língua, uma língua: aqui, a busca vai tão longe que se esboça, por vezes, a metalíngua, aquela que por definição é a só do poeta e que, por isso, nos emociona e comove, mas não nos diz o que quer – caso queira dizer algo. Este é um texto encantatório e mágico, com atributos de gozo e impotência, que quase diz tudo e nada diz, senão a beleza do próprio verbo: “E parado fica o sol mortal, sobre a página do engendramento.”

— Antonio Houaiss —

Rio, 14 de abril de 1986

Este texto foi escrito há trinta anos. Ocorreu num período de crise, quando tive a impressão de que não mais escreveria poesia. Foi o desfecho de A Luta Corporal: era minha obsessão fazer uma poesia que não fosse apenas um discurso sobre a realidade mas, ela mesma, uma realidade. E por quê? Porque o discurso implicava injetar no poema conceitos anteriores à experiência presente que desejava expressar; injetava nele o passado, a velhice. No poema Roçzeiral (abril, 1953) tentei o salto mortal: explodir a sintaxe e as palavras, e me julguei encurralado. Teria sentido continuar a escrever com os destroços da linguagem? O poema seguinte é a expressão desse impasse. O outro, que a ele se segue, é um adeus à poesia:

finda o meu
sol
pueril
o ilícito
sol
da lepra acesa da pele


Cinco meses depois escrevo o derradeiro poema de A Luta Corporal, em que procuro falar com a linguagem destroçada de Roçzeiral. Dou por finda minha carreira de poeta.

Foi em dezembro desse ano que comecei a escrever Crime na Flora, num caderno sem pauta, feito por mim mesmo e amarrado com barbante. Não era um poema, era outra coisa. Seria um conto, uma novela? Não me fiz essas perguntas: era um texto de desenvolvimento imprevisível, que permitia explorar uma dimensão fascinante da linguagem. Estendeu-se por vários cadernos e vários anos. Um dia, cessou. Guardei-o. Tempos depois reli-o, expurguei o que me pareceu excessivo, datilografei-o, e guardei-o de novo. Ao longo desses trinta anos, mais de uma vez fui tentado a publicá-lo. Mas desistia: sentia-o distante de mim. Ano passado, porém, ao atender a uma solicitação de José Olympio, incluí-o entre meus títulos inéditos. Foi decidida sua publicação.”

(In Crime na Flora, Ferreira Gullar, pp vi,vii)

Em Na Vertigem do Dia (1980) e Barulhos (1987), os “barulhos da rua” e o “universo das coisas silenciosas” seguem a particularizar o diálogo fundamental da poesia de Gullar – diálogo que talvez constitua a mais ampla questão da poesia moderna. No primeiro livro, destaca-se um poema que pode ser visto como uma verdadeira suma poética da trajetória gullariana:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?


(INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de Literatura Brasileira: Ferreira Gullar. São Paulo, n. 6, 1998, p.103-104)

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