Anuário #02 - São Luís, 2004
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Cinzas do Carnaval na Casa das Minas
A Luta Corporal
Fortuna crítica
Ferreira Gullar: ler / dialogar & ver além! (I)
Editorial

Edição 74

Fortuna crítica

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Opiniões sobre Poema Sujo

Poema Sujo é certamente a poesia de maior fôlego que Ferreira Gullar escreveu até hoje.


Ninguém no Brasil ignora que Ferreira Gullar é um dos maiores homens do nosso País. Sua inteligência é algo de extraordinário. Seu talento poético é de alta categoria e sua coragem cívica é admirável. Não há ninguém entre nós, que não lhe deva um estímulo, um encorajamento, uma esperança. E agora, ele nos manda esse Poema Sujo que é, na verdade, muito mais que uma obra subjetivamente concebida: é a encarnação da saudade daquele que está, infelizmente, longe de nós, geograficamente, e tão perto de nós como está perto dele, na imaginação do poeta, o Brasil que lhe inspirou esses versos. Poema Sujo mereceria ser chamado Poema nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos “sujos” e, portanto, sinceros. Só nos resta sentir com Ferreira Gullar – fraternalmente.

— Otto Maria Carpeaux —

Gullar é o último grande poeta brasileiro. O Poema Sujo é o mais importante poema escrito no Brasil nos últimos dez anos, pelo menos. E não só no Brasil.

— Vinicius de Moraes —

Poema Sujo condensa toda a experiência de poesia e de vida de Ferreira Gullar. É uma explosão catártica em que o homem se desvenda através de libérrimos modos de dizer artísticos. É uma tempestade de versos que desnuda uma rica personalidade humana. Sua mensagem não é só do poeta. É nossa também, por transferência lírica. Gullar fala a linguagem tocante que a poesia brasileira, há bom tempo, vinha reclamando, fatigada que estava dos muitos experimentalismos que provou.

— Mário da Silva Brito —

Biografia

Ferreira Gullar é o nome literário do cidadão José Riba-mar Ferreira, que nasceu na Rua dos Prazeres, 497, em São Luís, Maranhão, Brasil, no dia 10 de setembro de 1930. Poeta, ensaísta, crítico, dramaturgo e jornalista, transfere-se para o Rio de Janeiro, em 1951. Sua obra literária marco, A Luta Corporal, foi publicada aos 24 anos de idade. Participou da resistência à ditadura militar, que se instaurou, no Brasil, em 1964. Foi perseguido, processado, preso e sofreu exílio, em Buenos Aires, na Argentina. O retorno do poeta ao Brasil é precedido pela publicação do Poema Sujo, em 1976, obra de fôlego e de grande repercussão.

Poeta de vanguarda, participou dos movimentos concretista e neoconcretista, dos quais foi teórico. Mas logo rompeu com esse tipo de sincretismo, em função da poesia de cunho social, mas sempre preocupado por uma linguagem poética inovadora e compromissada com a inesgotável busca do enternecimento.

OBRAS LITERÁRIAS

• POESIA


Um pouco acima do chão, edição do autor, São Luís, 1949. – A Luta Corporal, edição do autor, Rio, 1954; 2ª edição, 1966; 3ª edição, 1975. – Poemas, Edições Espaço, Rio, 1958. – O Vil Metal, 1954/1960. – João Boa-Morte, cabra marcado pra morrer (cordel), CPC-UNE, Rio, 1962. – Quem matou Aparecida (cordel), CPC-UNE, Rio, 1962. – Por você, por mim, Edição SPED, Rio, 1968. – Dentro da noite veloz, Edição Civilização Brasileira, Rio, 1975. – Na Vertigem do Dia, 1975/1980. - Poema Sujo, Edição Civilização Brasileira, Rio, 1976; 2ª edição, 1977; 3ª edição, 1977; 4ª edição, 1979; 5ª edição, 1983. – La Lucha Corporal y otros incendios, Centro Simón Bolívar, Caracas, Venezuela, 1977. – Antologia Poética, Edição Summos, São Paulo, 1977; 2ª edição, 1977, 3ª edição, 1979; 4ª edição, 1983. – Hombre Comum, Calicanto Editorial, Buenos Aires, 1979. – Poesias, Universidad de Cuenca, Equador, 1982. – Antologia Poética (em disco, na voz do autor e música de Egberto Gismonti), Som Livre, Rio, 1979.

• ENSAIOS

Teoria do não-objeto, Edição SDJB, Rio, 1959. – Cultura Posta em Questão,1ª edição, Editora Universitária, Rio, 1964; 2ª edição, Editora Civilização Brasileira, Rio, 1965. – Vanguarda e Subdesenvolvimento, Editora Civilização Brasileira, Rio, 1969; 2ª edição, 1979. – Uma Luz do Chão, Editora Avenir, Rio, 1978. – Sobre Arte, Editora Avenir – Palavra e Imagem, São Paulo, 1982.

• TEATRO

Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come,(com Oduvaldo Vianna Filho), Editora Civilização Brasileira, Rio, 1966.–A Saída? Onde Fica a Saída? (com A. C. Fontoura e Armando Costa), Coleção Espetáculo, Grupo Opinião, Rio, 1967. – Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória (com Dias Gomes), Edição Civilização Brasileira, Rio, 1968. – Um Rubi no Umbigo, Editora Civilização Brasileira, Rio, 1979.

(bOSI, Alfredo. Ferreira Gullar. São Paulo: Global Editoria e Distribuidora Ltda., p.149-150)

Opiniões sobre Poema Sujo

Há muitos e muitos anos não acontece, no Brasil, em termos de poesia, nada tão importante como este poema de Ferreira Gullar. Nas trevas em que foi atirada a cultura brasileira, este poema é como os instantes luminosos, que esplendem de raro em raro e se fixam, como as estrelas, que morreram há séculos, permanecem brilhando no céu. A carga poética, aqui, atinge, realmente, o excepcional e o único, conservando, com a sua beleza suprema, a força de comunicação que a coloca ao alcance de todos e que a torna patrimônio de um povo. O poder de evocar, que reconstitui e dá vida onírica à paisagem da infância e da adolescência, repassa todas as páginas e soa como longínqua, cálida e suave música – aquilo que só os grandes poetas sabem transmitir. Testemunho de uma época, este poema será lido, comovidamente, pelos nossos netos.

— Nelson Werneck Sodré —

No exílio, o poeta Gullar começou a escrever uma canção e acabou reconstruindo, pedra a pedra, cheiro a cheiro, sua cidade de São Luís. Num quarto de Buenos Aires reergueu, feito um operário dotado de repente de um poder milagroso, a cidade inteira: O homem está na cidade / como uma coisa está em outra / e a cidade está no homem / que está em outra cidade.

Disse o poeta Eliot que uma grande e nova obra de arte que se cria afeta, imediatamente, todas as obras de arte que a precederam: obriga uma literatura a se reorganizar ao seu redor. Este Poema Sujo vai durante algum tempo revolver, como um sismo, a poesia brasileira, até que ela se recomponha numa serenidade nova e mais rica.

— Antonio Callado —
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