Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
É sempre surpreendente constatar que alguns raros e geniais artistas, en-tre os quais estão compositores mu-sicais, poetas, artistas plásticos, têm a coragem e o desassombro de ousar ler, ver e dialogar além de seu próprio tempo. Fazendo assim, estão também dando continuidade ao encadeamento e emparelhamento com aqueles raros artistas de outras épocas pretéritas que, independentes dos seus contemporâneos, viveram para além de seu tempo cronológico, formando esse elo entre os poucos sobreviventes de inovadores ou criadores, no vasto mar da linguagem verbal.
Criar novos caminhos é tarefa de desbravadores e pioneiros, portanto daqueles que vieram ao mundo para exercer o difícil ofício de mudar, preferindo, portanto, ao contrário de manterem-se no trilho, desviar o curso da estrada, fazendo uma nova picada, por onde ninguém caminhou ainda.
É muito fácil acomodar-se com o estatuto estético estabelecido como clássico, honrando a tradição das convenções acadêmicas e universitárias transpostas aos livros didáticos como verdades absolutas ou irrefutáveis.
Ferreira Gullar, o poeta escolhido para ser estudado a partir desta edição, é desse quilate. Obras de sua autoria como A Luta Corporal, 1954; Poema Sujo, 1976 e Crime na Flora, 1986, conferem aos apaixonados pelas Literaturas Maranhense e Brasileira, em geral, a oportunidade de privarem com textos divisórios de águas, porque estabelecem os territórios e delimitam fronteiras do antes e do depois de Ferreira Gullar.
Não há dúvidas sobre o fato de que, como se não houvesse outras obras instigantes do poeta em questão, como O Vil Metal, Dentro da Noite Veloz e Na Vertigem do Dia, bastariam as três anteriormente citadas ou apenas uma das três, para justificar a sabedoria popular, Águas passadas não movem moinho! Por quê? Porque, através de obras literárias como A Luta Corporal, Poema Sujo e Crime na Flora, Ferreira Gullar, de uma maneira definitiva, desconstrói o discurso poético convencional e cria um novo texto, a partir dos destroços da linguagem verbal. Em outras palavras, ele de fato explode a metrificação e a versificação, a sintaxe, a palavra, a ortografia e a pontuação, ao mesmo tempo em que funda um novo tipo de texto, segundo o qual ritmo, palavra, fonética, ortografia, sintaxe e pontuação têm antes a ver com aquele momento dos dados imediatos do consciente, em que o discurso poético está em trânsito pela vertiginosidade do fluxo da memória, de onde aflora o inconsciente coletivo, através de seu porta-voz, o poeta, livre do cidadão que o hospeda.
Oportuno é o texto do poeta e compositor musical Cesar Teixeira sobre um mito do carnaval maranhense, cuja originalidade surpreenderá, sem dúvida, aos leitores, pelo tom poético que ele imprime a tema tão pitoresco, que agrega todos os matizes do pretexto literário, Cinzas do Carnaval das Minas, uma revisitação à Casa das Minas, de Nunes Pereira, numa releitura que dá verossimilhança aos casos de incorporação de espíritos na época momesca.
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