Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
(ou santo de casa faz milagre sim, ainda que fora)
Por: Zema Ribeiro*Pregoeiro é o nome dado ao ambulante que vende seus produtos pelas ruas, gritando-os, e geralmente fazendo rimas; muito comuns em São Luís, são eles laranjeiros, verdureiros, garrafeiros, doceiros, peixeiros, entre outros. Pregoeiros é o resultado de um trabalho feito ainda nos anos oitenta, pelos compositores Antonio Vieira e Lopes Bogéa, verdadeiros memorialistas da cultura popular maranhense, que reúne, em livro e disco, vários pregões (o canto dos pregoeiros). O trabalho foi posteriormente reeditado em cd, com o acréscimo de algumas faixas sobre “brincadeiras de crianças”, a maioria já esquecidas, em tempos de vídeo-games e internet.
Pregoeiros do Samba Maranhense é o nome do show apresentado pelos compositores Antonio Vieira e Cesar Teixeira entre os dias 29/01 e 01/02 passados, com participações especiais de Rita Ribeiro, Teresa Cristina e Célia Maria, no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Faço questão de frisar que estes senhores foram escolhidos para representar o Estado dentro do projeto Brasil de Todos os Sambas, que procura traçar um paralelo entre os diversos sotaques que este gênero musical adquiriu nas mais diversas regiões do país. As apresentações seguem até o dia 15 de fevereiro. Além do Maranhão, via Cesar e Vieira, por lá passou a Bahia, com Riachão e Roque Carvalho; e passarão São Paulo, com Germano Mathias e Quinteto em Preto e Branco, e Minas Gerais, com Paulo César Pinheiro, Sérgio Santos e Amélia Rabello.
ANTONIO VIEIRA“O Maranhão é um Estado riquíssimo em termos musicais; não só em se tratando de samba. Digo sempre às gerações mais novas que nós, maranhenses, não precisamos copiar, nem devemos, nada a ninguém”, opina um sábio Antonio Vieira que, do alto de seus oitenta e três anos, experimenta, agora, com mais força, o sabor do reconhecimento nacional, que se iniciou em 1997, com as gravações de Rita Ribeiro para Tem quem queira e Cocada, em seu disco de estréia, prolongou-se em 2001, com a gravação ao vivo de O Samba é Bom, seu primeiro disco solo, produzido por Zeca Baleiro – declaradamente um fã – e agora toma novo fôlego com a inclusão de duas composições suas – Banho cheiroso e Tem quem queira – na trilha sonora de Da cor do pecado, novela global, além de uma aparição dele na mesma.
“O segredo de um músico que vai se apresentar fora de seu estado natal é o repertório: não adianta chegar lá e copiar os músicos locais, que o povo não se agrada; acredito que por isso, sempre que temos oportunidade, trazemos bons resultados e impressões”, diz Vieira, a quem repertório não falta: ano passado, ele teve trezentas e trinta e sete músicas suas registradas em dezoito cd’s, numa parceria entre a Companhia Vale do Rio Doce e a AMARTE (Associação de Apoio à Música e à Arte do Maranhão).
CESAR TEIXEIRAAutor dos versos juninos mais assobiados no Maranhão em todos os tempos – “Mamãe, eu vi Boi da Lua dançar no planeta do Brasil!”, da toada Boi da Lua – Cesar é um competentíssimo compositor de samba; não deve, em termos de qualidade (e quantidade), nada a nomes como Paulinho da Viola, Cartola, Monarco e Nélson Cavaquinho, apenas para citar alguns por ele admirados. Homem de várias facetas – porém sem perder a ideologia – Cesar finalizou recentemente os trabalhos de Shopping Brazil, seu primeiro registro fonográfico.
Gravado e regravado por diversos nomes de alcance nacional, a exemplo de Papete, Dércio Marques, Rita Ribeiro, Chico Maranhão, Célia Maria, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Fátima Passarinho e Cláudio Lima, entre outros. Somente agora trabalhando com música e outras formas de expressão artística desde 1969, ele conseguiu reunir um punhado de canções de sua inesgotável lavoura – sem entressafra – musical, num belo disco, sincero e despretensioso (e talvez por isso tão belo) que reúne, não em torno de seu nome, mas da arte coletiva que sempre defendeu (sentimento acentuado com a criação do Laborarte – Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, em 1972), ícones da cultura popular do Estado, como Dona Elza, da dança do Caroço de Tutóia; Dona Teté, do Cacuriá mais famoso do mundo; Mestre Felipe, do Tambor de Crioula, e o companheiro pregoeiro Antonio Vieira.
ANÁLISE E PLANOSEm 2000 (e com reedição no ano seguinte), Cesar Teixeira e Antonio Vieira já haviam subido juntos ao palco. O show Papel de Seda fazia um apanhado mínimo de seus vastos repertórios e mostrava algo além do lado sambista de ambos. Merecidamente reconhecidos pela grandeza de seus talentos e obras, representaram bravamente seu Estado natal nesse acontecimento ímpar, que já acabou por abrir portas, não só para eles, mas para outros artistas maranhenses, a exemplo de Célia Maria, que se apresentou nas quatro noites de show, interpretando A pedra rolou, do repertório de Vieira, despertando interesse de produtores cariocas.
Segundo Celson Mendes, violonista que acompanhou os pregoeiros nessa jornada, ao lado de verdadeiros monstros sagrados da música popular, os maranhenses tiveram uma receptividade bastante calorosa, em quatro shows com o teatro sempre lotado, nível de produção altíssimo. Informou-nos ainda que os ingressos foram esgotados antecipadamente. “Gustavo Pacheco foi o primeiro contato; ele já havia estado no Maranhão e se encantou com a obra de Vieira e, através dele, buscou conhecer outros nomes da música maranhense. Ao lado de Alexandre Pimentel, promoveu esse circuito sambista, nesse projeto grandioso”, disse-nos Celson.
Conterrânea dos pregoeiros, Rita Ribeiro apresentou-se durante as quatro noites, juntamente com a carioca Teresa Cristina, cantando somente sambistas maranhenses: Mestre Orfila, de Cristóvão Alô Brasil, Na cabecinha da Dora, Cocada e Tem quem queira, de Antonio Vieira, Colher de chá, de Patativa e Sapo já foi na Lua, de Cesar Teixeira, entre outras.
Os espetáculos apresentados – não só pelos maranhenses – durante o Brasil de Todos os Sambas – foram devidamente registrados. E, com o término do ciclo de apresentações, se iniciará uma discussão sobre a possibilidade do lançamento deste material em disco e vídeo.
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