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Edição 73

Torvelinho

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Ricardo Netto

Lenços bordados úmidos de colírio. Isabel veste preto de uma elegância maçante. Graúna presa em gaiolas de imateriais riquezas. Cada um vive suas prisões: trabalho, identidades e ideologias. Lábios de Isabel no tédio de um discreto bocejo. Sob o luto seios rijos róseos de Isabel. Céu é Isabel nua e libações de gala em seus seios. Sorver algum vinho do tempo em que empresa não tinha alma. Vômito com essa lengalenga do manager nesse mercado de ladrões. Toda palavra dita é lodo engodo. Uma máscara em cada olhar. Cada um se vende pela fine$$e. Coleiras digitais e cordéis invisíveis nesse automatismo asséptico do trabalho morto. Delirar a vida insuportável dessa cidadania execrável neste cemitério cotidiano sobre o qual vergamos e caminhamos. Respiro a cada passo no tropeçar nos fios do cadarço do sapato gasto. Inocência e asco em alma crua que desliza pelas misérias e incongruências deste câncer de mundo que corrói tudo exalando enxofre. Sensação de náusea a cada segundo. Olhar de Isabel de opaco brilho. Vertigem do mundo das luzes que sempre esteve agonizando. Visão turva pela bruma dos fogos-fátuos de cada ser que desaparece no vazio de sua existência. Tudo se tornou tão imaterial. Sento na escada invadindo a morada do mendigo. Sua pele pedaços de papelão. Piolhos, ratos e baratas se confraternizam com sangue e migalhas do ser que dorme o sono do desalento. Excrementos bóiam nos vagalhões da história de um conforto que chafurda no pântano. Tempo carregado negro nublado. Acariciar de uma mão macia pelos fios do cabelo. Abraçar de um afeto meu em Isabel. Antes que mais uma catástrofe banal aconteça rolar na grama da velha praça ouvindo a sinfonia do coaxar dos sapos e do cricri dos grilos. Volver à terra e se fundir nela.

Ricardo Netto, Gripe, n.3, p. 4
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