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Freaks em holofotes
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Edição 73

Freaks em holofotes

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Para reverenciar ou rejeitar a obra de Franz Kafka, sempre se faz referência ao que há de biográfico nas mazelas de seus personagens. Aos que o admiram ou aos que o abominam há o argumento comum de que nem toda angústia é ficção, e nem todo desespero é pura criatividade na obra do autor. Em Um Artista da fome, Kafka vai além. Não que não seja sua própria fome ali, mas, para além dela, há o que sua narrativa traz de eterno a fome das (tão em falta) minorias. Não das minorias étnicas ou econômicas (estas muito mais determinadas que construídas), mas das minorias existenciais, dos que exploram o que a vida possui de experimental, cientes das conseqüências da transgressão e dispostos a encará-las.

Na trajetória de um jejuador, narrada da glória ao ocaso dos tempos em que era uma curiosidade rentável ao momento em que desinteressa ao público, Kafka retrata o melancólico papel dos inconformados com a existência banal no pós-industrial: a adulação vampírica ao freak, ao esquisito, ou o descaso, as duas reações possíveis ao incompreensível.

Passados quarenta dias do primeiro jejum narrado, a mera lembrança da comida é nauseante ao artista da fome. Assim nos diz Kafka, e talvez o que deva permanecer desta afirmação seja o vislumbre de que a fome é a natureza daquele homem. E que (na contramão do mundo, que encerra o jejum no quadragésimo dia por conveniências mercantis) não é preciso compreender a natureza de um homem para respeitá-la.

Passada a curiosidade de auditório das

pessoas, para manter a fome como ofício, o jejuador se despede de seu empresário e assina contrato com o circo, feliz por poder agora permanecer faminto indeterminadamente, em sua jaula. Se antes era a falsificação da existência, o show maquiado da fome, agora, longe da fama hipócrita, só há o anonimato por mais visível que estivesse seu novo palco (na passagem para as jaulas dos animais), não havia mais quem se incomodasse com o estranho homem que amava a fome.

Talvez a verdade seja que à arte da fome nunca se dispensou o respeito de uma convivência, nunca se concebeu o artista da fome como realidade possível, e por isso eram necessárias as jaulas, para dar ao público a confortante idéia de que o diferente (ou abominável) não tem espaço que não seja a simulação, a permanente condição de freak consumível, e portanto produzido para ser mesmo consumido, nunca para simplesmente existir.

O artista chega ao fim da vida inadequado à existência comum, sem comida que lhe agradasse e indisposto a comer o que do mundo não lhe pertence. Em certo momento da narrativa o jejuador, na jaula do circo, simplesmente desaparece. Os olhos do público não o enxergam mais, apesar de ele ainda estar lá. Esta talvez seja a penitência maior, constante, aliás, em Kafka: o artista agiu contra o mundo, mas não pôde vencê-lo, com sua não-existência decretada ainda em vida. Mas seus lábios não tocaram o que não quiseram tocar.

Reuben da Cunha, Ensaio publicado no fanzine Gripe, n.0, p. 07
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