Anuário #02 - São Luís, 2004
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Edição 73

Marília Oliveira

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Música sobre papel

As mãos tateavam a cama e estranhavam a textura do lençol, cuja aspereza não revelava sua verdadeira cor. sentia calor, mas o frio do medo invadia a alma e preenchia o vazio sem cor. assim passara a vida inteira, tentando dar cor ao que sentia, sem permitir que as coisas e as pessoas lhe impusessem o sentido. preferia o vermelho que invadia as narinas – prenúncio do calor do alimento na língua, que era cólica, fuga, dor maior feminina ou mão encharcada de um líquido denso. quando chovia, tinha certeza de que o cheiro que vinha da janela traduzia a confusão entre o cinza e o marrom. quando ouvia música, o azul penetrava como sol na pele branca.

Lutava por sua independência, mas sabia que precisava das pessoas. quando ficava triste, pedia pra que separassem uma roupa preta, como se quisesse externar sua condição humana e os outros pudessem ver o mundo a sua maneira. sabia que se não existisse, nada mudaria e no mundo tudo correria no mesmo ritmo. ficava com a certeza de que seu poder de concentração era ferramenta fundamental para sentir as coisas do mundo. via cores nas estátuas de rodin e tons de cinza nas telas de frida e no calo. ouviu o vôo da mariposa technicolor de fito paez e sentiu o amarelo, elo entre o fim da tarde e sua noite infinda. estava pronta para, enfim, enxergar o que sentia.

Desatou os nós de um longo véu e abriu os olhos empoeirados de caos. tarde demais, o sol já se punha e, aprisionada num sonho, percebeu que, mais que noite, era abismo e a porta permanecia trancada com a chave que ninguém jamais encontrou.

Quis pintar de azul o céu da boca
A língua era o pincel
E a saliva, tinta fresca


Marília Oliveira, Gripe, n.01, p.06
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