Anuário #02 - São Luís, 2004
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Canto dos Pregoeiros maranhenses ecoa no Rio de Janeiro
Torvelinho
Freaks em holofotes
Reuben da Cunha
Marília Oliveira
André Grolli
GRIPE: A poesia pede passagem aos abacaxis do TRânSiTo da Linguagem (II)
Filme é tragédia para olhares humanos

Edição 73

GRIPE: A poesia pede passagem aos abacaxis do TRânSiTo da Linguagem (II)

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Alberico Carneiro


Poesia maldita, psicanálise do pesadelo da Al-deia Global, poemas em ordem, processo e progresso, poster, poesia marginal, experimental, alternativa? Os textos do fanzine Gripe não são nem isto nem aquilo, mas um misto de tudo, leitura do barato do mundo atonal ou dodecafônico de hoje, sem excluir nada, nem a mescla escatológica e alucinogenatória do caos do Cosmo, embora o Criador ainda sustenha o Orbe em sua órbita. Refletem, os poemas, os paradoxos e as contradições dos tempos atuais, portanto têm aquele caráter do emergente, do instantâneo, uma linguagem cifrada, telegráfica, cinematográfica, quase por e-mail. Poemas relâmpagos, flashes, fotos em negativo, distribuídos ao longo do discurso poético, embutindo-se em textos em prosa. Pura poesia.

Cremos que os textos se revelam como aqueles poemas tipo cartas anônimas e sem destinatários certos, encontrados em garrafas sem rótulos, boiando como raros sobreviventes no vasto mar. No entanto, ao abrirem-se as rolhas, e beber-se o conteúdo até o gargalo, acaba-se por descobrir que têm destinatário definido: o mundo de hoje, o tempo presente em contínua transição e mutação. São vinhetas, colagens, instantâneos do inconsciente que se fundem nas páginas com as ilustrações, formando um misto de linguagem verbal e não-verbal. Em outras palavras, são poemas geralmente em prosa, que se sobressaem, também, por privilegiarem a plasticidade como dado essencial do projeto gráfico-visual, portanto diferente das propostas convencionais, em que as ilustrações são acessórios. Enfim, uma alegoria dos espíritos inquietantes e turbulentos dos dias atuais, numa linguagem que reproduz um momento que escoa, instável, intangível, que já não pode ser tocado, captado ou capturado, senão fragmentariamente, à medida em que se dissolve, fragiliza e dilui em filigranas.

Atentemos para a poesia desses jovens e o quanto eles estão antenados com o novo, a novidade. Relêem e problematizam o passado histórico do discurso poético atentamente. Eles e nós não vamos perder os supersônicos dos anos três mil que telefonam.

André Grolli é, simultaneamente, um kafkiano, um guimarães-roseano, um gullariano, – forma de ser ele mesmo nos eus que engendra à maneira nonsense, com uma cabeça aberta para as invenções vocabulares, com a consciência do risco e da responsabilidade do discurso ilícito, com seus neologismos e polissemias, com a violação e explosão da sintaxe, da filologia e da pontuação convencionais.

Marília Oliveira apresenta um discurso poético aberto para várias leituras, entre elas Florbela Espanca, Clarice Lispector e James Joyce. A metonímia é um dos seus pontos fortes e definidores dos alcances de uma criação literária que se articula no nível de quem privilegia o jogo sinestésico com sutileza e discrição.

Reuben da Cunha tem uma linguagem picante, mordaz, às vezes ácida, irônica, de um humor que ingressa na sátira. Experimenta o paródico quando relê textos de poetas consagrados como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade com os quais seus textos dialogam às avessas. O ensaio sobre O Artista da Fome, de Kafka, republicado neste Suplemento, dá bem o tom de seus alcances, pelo embasamento cultural.

Ricardo Netto é um poeta multifacetado, de várias leituras, viajante de várias vertentes, que se expressa bem tanto em versos, quanto em prosa, tendo afinidades, inclusive, com Fernando Pessoa e Marcel Proust.
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