Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Por: Frederico MachadoÉ de espantar que um filme como 21 Gramas seja distribuído por um grande estúdio americano e que esteja condicionado a passar nos multiplexes do mundo. O filme, apesar de ser uma produção americana, é dirigido por um mexicano, tem atores conhecidos mais por filmes independentes, tem fotografia granulada e é uma forte tragédia desenvolvida com esmero e talento, porém carregado em dramaticidade e dor, tão pouco comum para o público acostumado a ver somente fábulas como Matrix, Harry Porter e O senhor dos Anéis.
21 Gramas, sob o ponto de vista cinematográfico, é um grande filme, mas sentimos que poderia render ainda mais. Apesar dos talentos envolvidos, e do próprio material potente, o filme se perde em algum maneirismo, próprio de quem sabe que tem talento, mas não sabe como usá-lo.
Com uma montagem fragmentada, suportando uma estrutura não linear, que oferece bons momentos de dramaticidade, porém também na primeira meia hora, confusão e, na meia hora final, lentidão, o filme é um quebra-cabeça e conta uma trágica história de vingança.

21 Gramas narra as complexas relações entre três pessoas: Paul (Sean Penn), um professor de matemática com uma doença cardíaca que coloca sua vida em risco; Jack (Benicio del Toro), um ex-presidiário que usa a religião como o alicerce para sua completa regeneração; e, por fim, Christina (Naomi Watts), uma dona-de-casa que perde toda a família num acidente e cai em velhos vícios e atitudes. Jogando com os fatos, narrados pelo bom e melodramático roteiro, o jovem diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, que já nos havia oferecido o poderoso e melhor, Amores Brutos consegue seu intento com direção segura, privilegiando sempre seus personagens, através do ótimo elenco. Sean Penn, como o doente cardíaco, ao receber o coração do marido de Christina, vai atrás dela e parte para a vingança. Ele tem grandes momentos dramáticos e prova que é um dos melhores e mais sérios atores de sua geração (Em Sobre Meninos e Lobos, exibido recentemente, Sean Penn já havia provado isso). Benicio Del Toro, um dos rostos mais expressivos que o cinema apresentou recentemente, está perfeito no papel do ex-presidiário que atropela o marido e as filhas de Christina. Mas é Naomi Watts que tem o personagem mais difícil. É um tour de force no papel de uma personagem sofrida, angustiada, cheia de dor.

O interessante no filme é o aspecto religioso com relação à perda, ao perdão e à crença. Sentimos que, apesar de todo maneirismo, próprio de quem assistiu a muito seriado de TV, além do filme Pulp Fiction (hoje referência a todo jovem diretor que queira fazer um filme “moderno”), há traços fortes do cinema do polonês Kristof Kielovski na história. Seja em planos, como a atriz mergulhada na piscina azul (traços de A Liberdade é Azul), seja na própria história ou ainda em símbolos e no pessimismo religioso, em frases ditas como verdades pelos personagens – Não sei se Deus existe ou não, o que eu sei é que devemos continuar vivendo. Como nos filmes de Kielowski, não há salvação. O fatalismo é certo. Tudo é regido pelo acaso. Com relação ao cinema de Kielowski, há ainda a densidade, a aridez e a força poética própria do cinema europeu, na película.
21 Gramas é um filme que merece ser assistido. Apesar de todo o contorcionismo narrativo, temos um diretor que pensa cinema, que faz cinema para gente adulta, que tenta dizer que o coração não é só uma bomba que pulsa, mas, acima de tudo, é um órgão gerador de vida, seja ela cheia de alegria e de paz, ou ainda, como Iñárritu acredita, cheia de ódio, de dor e fatalidade.
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