Anuário #02 - São Luís, 2004
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Maconha & Folclore(I)
A Cachaça do Santo(VI)
Editorial

Edição 72

Maconha & Folclore(I)

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Cesar Teixeira

A interpretação dos mitos populares também passa pela análise do uso de ervas, como a maconha, utilizada na indústria e na medicina, cujos efeitos alucinógenos, para o escritor Erasmo Dias, explicaria os mistérios e visões das sagas litorâneas pelos pescadores, como na lenda maranhense do Touro Encantado na ilha dos Lençóis

Tal como ocorreu com a Cachaça – a “aguardente da terra” que se constitui uma das costelas da história do Brasil –, a Maconha possui também uma importância exemplar na tipificação do folclore, ou, como muitos preferem, da Cultura Popular e suas manifestações.

É a planta do cânhamo (cannabis sativa), também conhecida no Maranhão como diamba, liamba ou riamba, termos originários do africano trazido para cá durante a colonização. A palavra Maconha, especificamente, deriva de ma’kaña, do Quimbundo, língua do grupo Banto falada em Angola.

ORIGENS E USOS

Um receituário chinês de seis mil anos, o Pen Ts’oo Ching, já trazia sugestões de uso da planta no tratamento de asma, cólicas menstruais e inflamações da pele. No norte da China Central teriam sido encontrados resíduos de cânhamo em uma cerâmica datada da mesma época.

Suas qualidades terapêuticas foram difundidas na Índia – onde, por volta de 1.000 a.C. era utilizada para “libertar a mente das coisas mundanas” –, além do Oriente Médio e Egito. Os gregos dela serviam-se para a cura de problemas intestinais e dor de ouvido, entre outras enfermidades.

A Maconha, cujas fibras resistentes também foram utilizadas pelos romanos na confecção de cordas e velas de navios, chegou à Europa em fins do século XVIII através da navegação mercantil, atingindo o norte da África e espalhando-se pelas Américas, com o tráfico de escravos.

Tanto era a sua importância têxtil, que George Washington importou sementes da Europa, no tempo em que as carroças dos desbravadores do Oeste americano eram cobertas com lonas de fibras de cânhamo, também matéria-prima das velas e cordas dos portugueses, espanhóis, franceses e holandeses que invadiram a América Latina.

Não é exagero dizer que o Brasil foi colonizado com a ajuda da diamba. Para garantir a produção desses materiais de navegação, as sementes foram espalhadas por vários países onde passavam os exploradores. O uso medicinal da planta era, da mesma forma, prática comum no Novo Mundo.

A “erva santa” integrou a farmacopéia moderna nos EUA para o tratamento da asma, da dor e do estresse, sendo comercializada em forma de chás por grandes laboratórios como Parke Davis, Eli Lilly e Squibb até 1937, quando foi proibida por lei federal.

Nos anos 70, o Delta-9 THC (Tetrahidrocanabinol), princípio ativo da Maconha, foi sintetizado e obteve o reconhecimento da OMS, sendo autorizado em casos especiais, sob forma de cápsulas, no alívio dos efeitos indesejáveis da quimioterapia do câncer e da Aids.

CABEÇAS FEITAS

A erva foi usada no séc.XIX como psicotrópico por artistas e boêmios das grandes metrópoles ocidentais, de Montmartre à rua do Ouvidor, embora há muito consumida por imigrantes asiáticos no Velho Mundo e africanos. No Brasil, incluem-se os grupos indígenas.

Proibida na condição de droga, mas também marcada pela discriminação contra as etnias que dela faziam uso por costume ou ritual, a Maconha iria ocupar nos anos 60 lugar de honra, no auge dos protestos estudantis e do movimento hippie. Os festivais de rock e o seu uso pelos soldados americanos no Vietnã marcaram o pico de sua difusão.

Baudelaire e Rimbaud juntam-se a Hendrix e Joplin, rompem a cerca da história e passeiam pelas aldeias tupis e quilombolas. Hoje, a licenciosidade e a repressão em torno da Maconha alcançam dimensões psico-sociais diferenciadas.

Abandonando, porém, as questões morais em torno da “erva maldita”, exploraremos aqui o aspecto sócio-cultural, tão bem percebido pelo escritor Erasmo Dias num pequeno ensaio publicado na Revista Maranhense de Cultura (1).

O autor sublinha o fato de o litoral do Maranhão ter sido povoado não só por negros escravos, mas também por “lusônios” vindos das ilhas açorianas, havendo assim influências de um grupo sobre o outro na linguagem e nos costumes, inclusive o uso da diamba, que atiça a imaginação.

Fixa-se o autor no lendário dos Lençóis e no sebastianismo ali derramado pela “gente portuguesa” que por lá aportou nos séculos XVII e XVIII.

A solidão daquela ilha e suas dunas semelhantes a lençóis, “ofereceria, por certo, ao colonizador, de alma sedenta de esperança do Retorno, a visão e a remembrança das areias marroquinas, de Alcácer-Quibir”.

O TOURO E O REI

Após citar a epopéia de Camões, que nomeia o sebastianismo, ou a ânsia de regresso, como “a maravilha fatal da nossa idade”, Erasmo descreve assim a lenda:

“O Príncipe, designação dada a El-Rei D. Sebastião e só usada naquele remoto 500, haveria de encantar nas ardências da areia dos Lençóis, como tombara, aguerrido e destemeroso, em Alcácer-Quibir, e, pelo equinócio de verão, na noite de fogos dedicada pelos cristãos a São João, repontaria, no seu encantamento, na figura mística de um touro negro (...) que, para os entendidos do seu mistério, estava esperando a chegada do homem, jovem e viril, que lhe ferisse a estrela branca na testa, para desencantá-lo e, dos Lençóis subir das águas à Corte de Queluz, com o conseqüente afundamento da cidade-capital, fundada por fidalgo estrangeiro e de nome de santo e Rei, taumaturgo e soberano em terras estrangeiras, nunca na de Portugal.”

Para o escritor, o mito está retido nas diversas camadas sociais e sua estratificação no subconsciente individual ou coletivo. E ressalta “o depoimento dos que viram, nos Lençóis, o lendário do Príncipe, e já em terras de Guimarães, o navio fantástico de João de Una”.

São trabalhadores, homens de bem, que juram ter presenciado esses mistérios e não poderiam ser considerados “debilóides mentais”. Daí o autor enfatizar a importância do elemento negro, que trouxe da África “as sementes do seu cânhamo estupefaciente”, e credenciar à Maconha o estímulo para tais visões.

Assim, o uso da erva por barqueiros e pescadores do noroeste maranhense teria algum efeito alucinatório, e, como back-ground, “as memórias subconscientes das sagas, ouvidas continuadamente e repetidas pela vida em fora, com o polvilho místico das cousas do sobrenatural”.

Erasmo acrescenta que essas representações, ou “alucinações visuais”, do lendário soma a mais bela e perfeita vivência de fatos folclóricos do nosso litoral. Aborda também o espírito associativo gerado nos círculos de fumantes.

Nas praias é costume a utilização de uma cabaça com queimador afunilado feito de folha de Flandres e no bojo certa quantidade de água. Porém, mergulhados “na solidão da faina”, os barqueiros confeccionam o Soró de diamba em papel de embrulho ou retirado de embalagens de cigarros comuns.

Nesses momentos de solidão no mar, diante da aproximação dos lugares lendários, dar-se-ia a eclosão mnemônica: “O pescador, ao se encher do lendário dos fatos sobrenaturais (...) primeiro deslumbra, e a seguir vê claramente, como em exibição cinematográfica, toda a saga imbuída no seu subconsciente”.

O escritor, já enfeitiçado pelo seu próprio texto, arremata:

“E, então, nos Lençóis, ele não ouve só os cantares das açafatas, vindos do fundo do mar, nem se reduz em visão quase surrealista, dos búzios aporcelanados, e das algas coloridas trazidas para a praia pela arrebentação, que são (...) os tesouros e teréns do Príncipe e da sua corte (...). A diamba colabora com a alucinação visual e (...) ele vizualiza o touro negro, escavando e bufando labaredas azuladas...”

Mesmo tropeçando em preciosismos, sem aprofundar a temática, e numa duvidosa referência aos nativos como “a negrada selvagem e semicivilizada”, Erasmo Dias cumpre em seu artigo, publicado em 1974, a missão da estrela guia, que inspira e descobre novos caminhos.

Ele próprio reconhece a necessidade de se ir mais além, num estudo futuro sobre a influência do uso da maconha na história do folclore no noroeste maranhense. “Estudo que há de ser feito com precisão científica para revelar a visualização do rico lendário, que integra o contexto das sagas...”
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