Anuário #02 - São Luís, 2004
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Maconha & Folclore(I)
A Cachaça do Santo(VI)
Editorial

Edição 72

A Cachaça do Santo(VI)

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Cesar Teixeira

Depois do trajeto entre o alambique, a garrafa e a goela, a Abençoada envelhece nos barris da imaginação popular, revelando o gosto, a criatividade e a irreverência dos poetas de cordel e repentistas

A poesia dos trovadores e re-pentistas sai do séc.XIX pela porta das tipografias espalha-das sobretudo pelo Nordeste, sob o foguetório esclerosado da República. Mas o principal aperitivo brasileiro – o Remédio para erisipela, chiado no peito e arca caída – não é proclamado pelos acadêmicos, nem motejado pelos medalhões de 22, que abrasileiravam a cultura européia.

São os cordelistas que emprestam seu voto de fé na Cachaça, popularizada nos folhetos e cantorias com seus variados estilos, ou gêneros, de construção de estrofes. Dentre eles a sextilha, de formação simplificada, como esta de Leandro Gomes de Barros, um dos pioneiros na arte do cordel:

Nasce o filho do ferreiro
Com o martelo e a safa.
O filho do pescador
Traz a linha e a tarrafa.
O filho do cachaceiro
Traz o copo e a garrafa (11)


Ribamar Lopes (12) registra que numa carta enviada ao escritor Barros Alves e publicada por este no livro “Cachaça, cordel e cantador”, o poeta Cícero Vieira da Silva se expressa em estrofes de sete versos, numa sugestiva homenagem à birita.

Eu nasci em 36
Em 50 eu já bebia
Cachaça pura, mas hoje
Deixei a bebedoria
Do vício estou esquecendo
Porque só estou bebendo
Duas garrafas por dia
....................................
Desculpe meu caro Barros
Se lhe fiz alguma ofensa
Cada cabeça é um mundo
Poeta escreve o que pensa
Só pensei em bebedeira
Poeta Cícero Vieira
Cachaceiro de nascença


Há motes (assuntos) sobre a Estricnina que se notabilizaram na literatura de cordel. José Pacheco da Rocha, em 1974, escreve sobre “Dois poetas glosando. Francisco Barra Mansa diz: já bebi não bebo mais. Manoel Torce Bola diz: bebo até lascar o cano. É uma discussão imaginária em décimas, ou desafio, que se reporta aos defeitos e virtudes da aguardente.

BM - Fui um dos apaixonados
no vício da bebedeira
muitas vezes na poeira
dormi de pés espalhados
dando milhões de cuidados
aos que me eram leais
pelas calçadas e cais
exposto a chuva e ao vento
por isso digo e sustento
já bebi não bebo mais
.......................................
TB – Hoje bebe o bacharel
quase toda a majestade
o povo da irmandade
da contrição mais fiel
só não bebe no quartel
recruta nem veterano
porém eu chamo um paisano
quando eu assentar praça
e mando buscar cachaça
bebo até lascar o cano


O “modelo poético” conhecido como ABC, cujas estrofes são iniciadas pelas diferentes letras do alfabeto, é também um pretexto para a exaltação da Generosa, como ocorre no “ABC da Cachaça”, de Apolônio Alves dos Santos, que dá as receitas (aqui escolhidas aleatoriamente):

Da aguardente eu não falo
em dizer não me acanho
pois ela é indispensável
até na hora do banho
um pouco dela compensa
evita qualquer doença
nem resfriado eu apanho
.......................................
Xarope bom para gripe
é aguardente queimada
com dentes de alho roxo
e pimenta machucada
com suco de limão
e folhas de agrião
pra tomar de madrugada


Ainda sobre essa verdadeira dialética em torno da Perigosa, o pedreirense Lopes cita o folheto intitulado “Os estrupícios da cachaça”, do ex-cantador Siqueira de Amorim, segundo ele, um entendido em aguardente, pois fala dela “com intimidade e desenvoltura”.

O viciado em bebida
sempre dela se socorre.
Para o calor, para o frio,
Toma todo dia um porre.
Só vive “matando o bicho”
e esse bicho nunca morre
..........................................
Conheço um velho poeta
que quando se “queima” diz:
– Pra ficar irresponsável
é que eu bebo e peço bis.
A responsabilidade
Deixa o sujeito infeliz
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