Anuário #02 - São Luís, 2004
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Poetas do Grupo Gripe
GRIPE: A poesia pede passagem aos abacaxis do Trânsito da Linguagem (I)
Flor do Mal
Breve histórico

Edição 71

Poetas do Grupo Gripe

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Marília Oliveira

MuTanTe


Invento rimas, viro o disco, sou eu aqui e ali. Camaleão por ofício, mudo de cor e de vício, quebro regras, conserto roupas. Visto uma calça rota, meu tênis todo rasgado de tanto procurar inspiração pros meus dias.Vasculho o lixo e só encontro os vermes nos maiores banquetes da cidade. Ali, disfarçado, estão de terno e gravata, mas já não podem se livrar da podridão em que habitam. Risco ruas com o meu solado de borracha, tomo um gole de cachaça, fumo um cigarro comprado a retalho e parto pro mundo. Sou poeta, mas ninguém sabe. Nunca escrevi livro, meus trocados mal pagam a passagem de ônibus da São Benedito. Comida vejo de vez em quando, tenho mesmo fome de palavra. Moro num quarto abandonado no centro da cidade. Paredes ruindo e baratas rondando, quando durmo, durmo lá. Leio muito, leio o mundo e as pessoas, por isso sou mutante.Vou do deslumbre à indignação sem conseguir explicação para o que sinto. É que sou um poeta seco como um galho de árvore que já morreu. Outro dia tirei cópias de uns poemas meus e deixei no balcão de um bar. Não, não tenho e-mail, telefone nem endereço fixo. Assino Poeta MuTanTe, neste mundo errante buscando resposta às minhas inquietações. Perdi os originais junto com a identidade. Agora sim, sou ninguém. Indago o nada. E sei que nada me basta.

(jornal Gripe, n.05, p.3)

Os textos que os jo-vens poetas do fanzine Gripe assinam têm características bem peculiares. Eles não chegaram ao impasse da linguagem, porque são unânimes em não ter por essencial haver chegado a alguma ou a algum tipo de linguagem definida ou qualquer coisa semelhante. O certo é que têm um consenso quanto ao caminho: bem definido ou bem indefinido ou não definido. Em outras palavras, evitam palmilhar pela senda do óbvio.

Na realidade, eles não estão preocupados em estabelecer se o que escrevem é poesia ou outra coisa. Não se dizem escritores, nem ao contrário. De fato, não é essencial para eles, no momento, contextualizações, definições, marcas registradas. Isto está evidente nos próprios textos que assinam. O que há em comum, também, entre eles, além da camaradagem e amizade, é a necessidade de escrever. Mas são incisivos quanto a não identidade estilística. Essa unanimidade tem base naquele princípio funk, Faça você mesmo! Daí conclui-se que Gripe, segundo eles, não é um jornal, mas um fanzine ou publicação independente tipo revista de fãs ou pequeno magazine, em torno da qual se aglutinam pessoas que se identificam ou afinam por alguma razão, o que não quer dizer necessariamente por identidade de dicção poética, porém de busca de uma poética, quem sabe, em seu estado puro.

Ricardo Netto, por exemplo, confessa que desejou fazer algo diferente do convencional. Em 2001, criou o fanzine Iacut, no qual publicava seus poemas e de alguns amigos. E foi o Iacut que possibilitou a aproximação, por simpatia, dos jovens poetas que criaram o Gripe.

Em 2003, Reuben ousou um fanzine solo, o Bola na Trave, com poemas exclusivamente seus, mas que ficou no primeiro número com tiragem de 50 exemplares.

Na realidade, o drama existencial é outro dado comum aos jovens que se reúnem para publicar o fanzine Gripe, com edição em oito páginas, tiragem de 200 exemplares, custeada pelo próprio grupo. Embora de periodicidade irregular, digitado e xerocopiado, o jornal já está no 6o número e seus editores pretendem transformá-lo em revista, prática que dependerá de patrocinadores.

Reuben e Grolli ingressaram juntos no curso de Comunicação Social da UFMA. Ricardo Netto já era veterano. O contato com Marília veio depois. Para André Grolli, o mais importante não é estar fazendo, mas descobrindo a relação da linguagem ou das linguagens com o mundo. Afirma, Gripe é como se fosse um treino e a idéia de grupo passa apenas por se tratar de um conjunto de amigos que escrevem poesias, mas cada um com seu próprio estilo. Portanto, Gripe não é um manifesto, mas uma opção única de jovens editores que desengavetaram seus poemas, salvando-os do anonimato ou ineditismo.

Ricardo Netto, ao falar de suas predileções, dá destaque à literatura, à música e ao cinema. Suas leituras prediletas são Ferreira Gullar, Campos de Carvalho, Fernando Pessoa e Dostoiévski. No momento, está lendo Marcel Proust. Afirma, Gosto de ler escritores que estimulem a vontade de criar.

André Grolli lê e dialoga mais com compositores musicais e, segundo ele, até pouco tempo sua poesia ia por uma via parecida com a quebra das estruturas convencionais de certas músicas que ouvia.

Referindo-se às maneiras de veiculações alternativas de publicações, confessa-se aberto a todas as possibilidades, Se a poesia for boa, vale a pena. É preciso chamar a atenção através de qualquer pretexto. Minha idéia inicial, por exemplo, seria a publicação de poemas digitados, amassados e colocados em recipientes tipo latas de lixo, que seriam colocadas em pontos estratégicos da Universidade.

Reuben da Cunha tinha uma idéia antiga de fazer alguma coisa que se chamasse Gripe. Declara, Gosto de todas as linguagens, mas dou prioridade à literária e à musical, porém o que escrevo não é definitivo. A escrita para mim é uma busca de extravasar a inquietação e, ao mesmo tempo, de estar construindo ou criando algo por necessidade de escrever.

Ricardo Netto, que também participa de um programa musical na Rádio Comunitária Conquista, aos domingos, às quinze horas, diz, Escrevo para mim mesmo, por revolta e angústia.

André Grolli, que é baterista e professor de inglês, confessa que tem na bateria a sua maior paixão e afirma, Eu sou, acima de tudo, um baterista que escreve textos para o Gripe.

Marília Oliveira é design e trabalha em comunicação. Em se tratando de texto, prefere a poesia em prosa, o que é uma peculiaridade não muito comum entre os poetas.

Também achamos que o mais importante não é o rótulo. Se estão escrevendo bem, estão encontrando o caminho. Cada um no seu, em termos de criatividade, mas todos, no entanto, unidos pelos dramas existenciais comuns, que sempre fortalecem a camaradagem e a amizade, na alegria, no riso, na tristeza e na dor, na paixão e no amor pela vida e pela poesia, que é vida, vida em abundância.

Quem escolhe o caminho mais difícil, nunca vai pelo atalho que conduz sempre à glória fácil e fugaz.

em frente ao televisor sentado
um senhor olha a rua ao lado do
lado de dentro da janela aberta

entre garfos de um e outro
garfo de macarrão requentado
entregue noite passada
pelo rapaz desconhecido cujo último
atributo enquanto vivo foi ter sido
atropelado bem perto de sua casa
“do muro mais bem pixado”
do portão mais bem comido
“sem dúvida o melhor fundo”

no canto direito da tela,
um vago verde-vupt
janela azul televisor ligado
acende no ato um senhor, sujeito
que pra não parecer bobo,
olhando prum outro lado,
teve que parar de olhar pra ela.
André Grolli


(Fanzine GRIPE, n.5, p.04)

olhos bambos sobre o
mundo vasto –
eu desastro

em exórdio
(confissão de fé)

no encalço de Bandeira, meu percalço
– eu faço versos como quem ora.

ora vermute ora veneno
tardes nubladas sem moda.
reuben da cunha


(Fanzine GRIPE, n.5, p.05)
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