Anuário #02 - São Luís, 2004
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Poetas do Grupo Gripe
GRIPE: A poesia pede passagem aos abacaxis do Trânsito da Linguagem (I)
Flor do Mal
Breve histórico

Edição 71

Flor do Mal

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Flor do Mal

(Letra e música: Cesar Teixeira)


A flor do mal me quer para me desfolhar,
o amor que eu tenho em mim do coração roubar
e receber do mundo moeda de cego,
que sempre me deram e que eu sempre nego
e pego procurando pela flor do mal.
Eu te amo bananeira lá no fundo do quintal.

Eu quero a flor do mal para te perfumar,
porque eu só tenho em mim espinhos para dar.
Depois morrer na sombra da caranguejeira,
deixando de herança o mal da vida inteira.
A bananeira não tem flor, mas tem no chão
bananas para os macacos que mataram Lampião.

A flor do mal me quer, eu a quero também,
só pra saber o gosto que a morte tem.
E, quando os espíritos voltarem da guerra,
encherei os olhos com a mais suja terra
e ferrarei a mula rumo a Portugal.
Eu e a minha bananeira, duas bandeiras do mal.

Ray-Ban
(Letra e música: Cesar Teixeira)


Tire os seus óculos escuros
e acenda toda a natureza.
Pra me entender, pra me entender,
você tem mesmo é que lamber
o prato vazio sobre a mesa.

Ponha os seus óculos escuros,
não esconda a sua vaidade.
Pra me enxergar, pra me enxergar,
você tem mesmo é que apagar
as luzes da sociedade.

Já vendi chiclete no Cine Rialto,
puxei canivete e ralei no asfalto,
peguei uma cana até de manhã.
Na Ponta d’Areia eu vendi protetor,
dei uma de cego na igreja, doutor,
no dia do eclipse eu vendi meu Ray-Ban.

Met(amor)fose
(Letra e música: Cesar Teixeira)


Nem Kafka se metamorfoseou
pra ficar assim como eu estou.
Nem África, nem verso de Rimbaud,
me fez tão escravo e traficante
desse estranho amor.

Só sei que estou morando na filosofia,
mas antes do incêndio de Alexandria
quero sair do elevador.

Só sei que estou no barco ébrio dos aflitos.
Que nem Pessoa eu finjo que este amor maldito,
que deveras sinto, é amor.

Nem Kafka, nem pra ficar, nem África.
Estranho amor.

Shopping Brazil
(Letra e música: Cesar Teixeira)


O quê que tem, se eu como na lata?
O quê que há? Eu já nasci sem gravata.
O quê que tem, se eu tiro o som da lata?
O quê que há? A fome é autodidata.

Tiro da lata de lixo o meu título de cidadão.
Meu dedo pelo sapato furado espia a Nação.
Meto a mão no bolso
e o troco não dá pra embriagar.

Morro e não peço socorro,
debaixo da ponte é meu lar, doce lar.

Entro no shopping do lixo e me vejo na televisão.
A minha dor é artista, e essa conta eu não pago mais, não.
Meto a mão no bolso
e o troco não dá pra embriagar.

Morro e não peço socorro,
debaixo da ponte é meu lar, doce lar.
Breque:
O quê que tem, se eu como na lata?
O quê que há, o quê que há?

Cachorros, porcos, ratos, urubus, baratas,
no lixão Brazil a dor consome.
Por quê? Porque a fome é autodidata.
O quê que há? O lixo é nosso,
pega a lata e come! O lixo é nosso!
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