Anuário #02 - São Luís, 2004
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'A música que eu mesmo toco eu tenho que dançar'
Cesar Teixeira - Shopping Brazil
Shopping Brazil - Verbo & vida, poeta!
Fragmentos da Arte
Shopping Brazil

Edição 70

Shopping Brazil - Verbo & vida, poeta!

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Por: Joãozinho Ribeiro*


Maduro fruto. Para alguns fãs mais exigentes, já quase fora de estação, nascido como uma canção gerada das entranhas profundas do poeta. Para o próprio, no tempo certo; para nosotros, tempo em que o verbo se faz disco, em forma de CD; o verso soprado, como o sopro no barro na versão bíblica, vai dando vida à obra musical, definitivamente registrada para as gerações presentes e futuras.

Falo deste tão esperado/inesperado presente humano, antes de qualquer outro substantivo, que é o primeiro CD do compositor, poeta, jornalista e parceiro de copo e de alma – CESAR TEIXEIRA. Com maiúsculas, sem nenhuma concessão. Gestado entre dezembro/2002 e abril/2003, nos Studios Phocus (São Luís-Ma), tal qual parto prematuro, com todas as desistências, insistências e resistências possíveis – que o digam a paciente parteira/produtora Tatiana Ramos e a teimosa turma do Laborarte, leia-se: Nélson Brito e Rosa Reis – principais responsáveis por esse prodigioso resultado cultural.

Vida e arte dialogam permanentemente em cada faixa, onde os clássicos do cancioneiro de CESAR e outros novos frutos musicais adicionados (Flor do Mal, Bandeira de Aço, Ray-Ban, Mutuca, Xaveco...) parecem assumir a forma de paisagens emolduradas pelos competentes arranjos do próprio autor, transformados em vivo documento sonoro, para o deleite dos nossos leigos e ávidos ouvidos. Somente Flor do Mal não leva sua assinatura, reservada sob medida para a batuta do maestro João Pedro Borges.

São muitos os sujeitos desta honrada história, cada qual contribuindo com pedaços de si, que ora se apresentam como vozes emprestadas para coros celestiais; ora são mãos desenhando em outros coros comunhões de ritmos, em que a diversidade cultural é elevada a múltiplas potências. Cordas, sopros e vozes se harmonizando com o suor percussivo dos tambores de muitas Áfricas, de tantas Américas, de heranças ancestrais materializadas em melodias profanas e religiosas, em oração que deixa de ser latina para universalizar-se numa celebração de todos os povos.

SHOPPING BRAZIL é o nome da coisa, da rosa, que pranteia a nação com as devidas denúncias sociais de um país em que os compromissos de muitos artistas não têm ido além do cometimento de canções em saraus de mecenas desprovidos de quaisquer responsabilidades com o futuro dos meninos e meninas – filhos da pátria e da outra. Traduzidos nos primeiros versos da faixa que dá nome ao pródigo rebento:

O quê que tem, se eu como na lata?
O quê que há? Eu já nasci sem gravata.
O quê que tem, se eu tiro o som da lata?
O quê que há? A fome é autodidata.


Nele, o poeta não abdica de sonhar o sonho coletivo e convocar para a função as vozes e batuques de outros santos, próximos e caros: São Vieira, São Felipe, Santas Teté e Elza, misturando parangolés e caroços com toques de caixas e maracás, como a confirmar o próprio nascedouro no território afrocultural do Beco das Minas. Assim, vai semeando melodias generosas na terra adubada dos nossos corações aflitos, por meio deste sincero sincretismo humano, como se ouve e se recita nos versos de Mutuca:

Será que a suçuarana
já pulou o meu cercado?
Será que foi o Doutor,
que deu o remédio errado?
Ou foi sucuri que comeu
o meu boizinho enfeitado?


SHOPPING BRAZIL acende suas luzes como a estrela da vida inteira, de cujo brilho já nos falava o poeta Bandeira, rimando, como TEIXEIRA, pelos becos e ladeiras de uma Cidade em construção, feita de mariposas espreitando nas janelas, de mãos camponesas plantando cruzes no campo, de cercas cercando o homem, de mulheres amadas com a fúria e a paixão de arlequins e pierrôs despudoradamente insanos, como em Bandeira de Aço:

Se ela soubesse da areia que eu como,
ela nem perguntava.
Se ela soubesse do pó da sereia,
ela nem se zangava.
Vento na cumeeira
nem dizia palavra, palavra, palavra.


Ou, em Met(amor)fose:

Nem Kafka se metamorfoseou
pra ficar como eu estou.
Nem África, nem verso de Rimbaud,
me fez tão escravo e traficante
desse estranho amor


Ave, Cesar! Difícil mesmo é explicitar essa lavoura musical com a qual nos brinda, neste banquete sonoro chamado SHOPPING BRAZIL, feito safra supridora de toda a fome artística da sequiosa Humanidade. A nós, simples amigos mortais, resta-nos a certeza de saber-te companheiro inseparável desta viagem terrena, digno cidadão da vida e da arte, poeta único, que por muitos abris ainda prosseguirá nos recompensando com a força do teu talento criador, por meio da poesia que emana das tuas canções. Brasileiramente exposta nesta sublime estrofe de Namorada do Cangaço:

Eu quero mesmo é andar pelo mato
ouvindo as cantigas de rádio,
beijar teu retrato
e voltar pra casa todo fim de ano
cantando um bolero de Waldick Soriano


Que assim seja, meu caro e estimado capiroto!
(*) poeta/compositor
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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