Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Shopping Brazil
O lixo é nosso!Por: Cesar Teixeira
Não é à toa que este disco se chama Shopping Brazil. Em março de 2002, ao ouvir um grupo de jovens tocando latas, recordei uma música que fiz no início dos anos 70, quando os lixões já invadiam São Luís. Remendei os trapos. Vi a sustância daquele ritmo no pirão afro-brasileiro. As latas denunciam com brilho a dor globalizada. Então incluí o dialeto no CD, despretensioso para a exigência do mercado.
Trata-se de simples registro (biodegradável), parto artesanal de fundo de garagem, dedicado aos guerrilheiros da nossa música, que nos criaram raízes: Bibi Silva, Sapinho, Zé Garapé, Cristóvão “Alô Brasil”, Laurentino, Dilú Melo, João do Vale, Dona Elza, Leonardo, Caboclinho, Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Dona Teté, Mestre Felipe... É pouco espaço para tanto vodum.
Daí o parangolé universal do som negro, branco, tupi num cofo só: baião, modinha, choro, tambor-de-crioula, xote, samba, boi-de-zabumba e coco. De quebra, ladainha em latim, swing, hip-hop, beethoven, lampião e waldick. O quê que há?
No mais, a metamorfose do lixo (exceto o do açougue cultural) em música pelas lentes que vêem o homem e outros bichos partilharem o direito de viver com dignidade. Dignidade no lixo? O quê que tem? Lixão no Brasil é shopping para milhões de excluídos. Nada de petróleo: “O lixo é nosso!” – grito não nacionalista que sobrou para reciclar a alma e a fome, longe do zero.
Depois dos sapos (engolidos), antas e záccaros habituais no sanatório fonográfico, dilacerando os pulmões e o saco, renovei a convicção de que a música não pode ser condenada ao pôquer das vaidades. É substância livre vazando do coração, que não cabe num descartável CD, fácil de ser encontrado em qualquer lixão do país.
Reciclem tudo e divirtam-se.
(Texto do encarte do CD Shopping Brazil)
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