Data de Publicação: 29 de novembro de 2005

Velhos Moleques: Agostinho Reis, Antonio Vieira, Lopes Bogéa e Cristóvão Colombo - 1986 Atiçando as brasas mornas da fábula, pensei: “Nhô Cristo” não terá problemas para entrar no Céu, haja vista uma vida quase sem pecados, fora o lobby dos amigos e as rezas que se seguiram ao seu falecimento em agosto de 1998. Se o velho porteiro São Pedro não sabia da sua chegada, não foi por falta de samba, mas falha dos Correios:
Mandei um telegrama
para o dono lá do Céu
pedindo a ele para não molhar
o meu chapéu.
Choveu, choveu, choveu,
o telegrama ele não recebeu.
Esse recorte de um samba inédito de Cristovam Colombo dá conta de uma linguagem poético-musical apreendida no universo empírico do cotidiano e das tradições populares, cuja decodificação resulta numa arte utilitária, para o bem de todos e a felicidade geral dos catecúmenos de botequim.
Se não teve dificuldade para entrar na quadra de samba celestial, o mesmo não se pode dizer com relação à Turma do Quinto, mesmo esta sendo filha da mãe, a “Madre de Deus”.
Lembro que, certa vez, meados dos anos 70, Cristóvão foi barrado na porta da Associação dos Moradores do bairro, onde se realizava uma eleição para a diretoria da escola de samba, com direito a feijoada. Embora tenha sido um dos fundadores do bloco, ele não havia pago a “jóia” do mês (tributo obrigatório para os sócios) e foi impedido de votar – e comer.
O compositor saiu dali cabisbaixo e com os olhos marejados. Fomos para a calçada da Base do Gordo, que vendia uma batida de maracujá feita com álcool Tubarão. Puxei o cavaquinho, provoquei, e ali mesmo ele improvisou um samba temperado:
Decepção
foi o que eu passei,
houve uma eleição
na Madre-Deus
e eu não votei.
Sucediam-se os repentes que retornavam ao refrão acima, no qual taquei os dois últimos versos. Foi chegando gente com pandeiro, tamborim-de-mão, peixe frito, e logo se formou a batucada. A intolerância da escola virou mote e as lágrimas do voto proibido diluíram-se nos copos de batida e cachaça. Graças à inadimplência de Cristóvão, entramos pela noite, que não tem porteiro.
Numa outra oportunidade, início dos anos 80, fui com Cristóvão assistir a um ensaio da Turma do Quinto em sua nova sede ao lado do Cemitério do Gavião, mas, sem ingressos, não nos deixaram entrar – num flagrante desrespeito ao fundador da escola e principal compositor da Madre de Deus, sem falar que o samba ali ensaiado era de minha autoria.
Um dos prepostos da diretoria tentou consertar, mas decidimos terminar o grogue na quitanda de Balalaica, ali perto.
INDÚSTRIA DO ENREDOAté hoje, me culpo pelos sambas que fiz para a Turma do Quinto levar à passarela, sabendo do perigo que representava o carnaval de enredo para as brincadeiras tradicionais de São Luís, já que advogava a liberdade do tempo em que todos podiam cantar suas músicas na rua.
“O samba-enredo acabou com a alegria do compositor”, definiu ‘Alô Brasil’ durante entrevista que me concedeu por ocasião do Projeto Pixinguinha, em abril de 1986. E com razão. A indústria do enredo, a partir de 1975, levou à marginalização os grandes sambistas da Madre de Deus, com a infiltração de oportunistas na direção da escola, que não reconheciam a importância dos compositores da velha guarda, tratados como figuras folclóricas. No máximo, desfilavam na ala de compositores.
Cansei de alertar, na época, que esses artistas deveriam ter cadeira especial na Turma do Quinto e ser reverenciados através da sua participação (remunerada) numa programação musical com calendário estratégico para o ano inteiro. Isso não só daria credibilidade à escola, quanto contribuiria na tarefa de captação de recursos.
Entre outras coisas, a sede poderia ser útil a projetos de educação comunitária e oficinas artísticas para jovens do bairro. Houve uma boa experiência neste sentido, na década de 80, quando o teatrólogo Tácito Borralho e a socióloga Carmem Lúcia Vargas, através da Funarte e da Prefeitura de São Luís, criaram o Projeto Fazendo Arte, que durou quatro anos. Um diretor do Quinto, em vez de retomar a idéia, tentou fazer do espaço um bingo.
Os cartolas abominavam trabalhos sociais. Iam para a Madre de Deus no carnaval, utilizando a escola de samba para fazer média com políticos conservadores em benefício próprio, após fazerem a cabeça das lideranças do bairro, transformadas em buchas do canhão administrativo. Terminada a folia, sumiam, deixando para trás o lixo alegórico e contas para pagar.
Lembro com pesar de um morador da Madre de Deus que, sendo “presidente da escola”, ficou com a corda no pescoço e quase vende a própria casa para quitar uma dívida de tecidos que herdou no antigo Armazém Abreu.
Hoje, se alguma boa alma quiser fazer uma homenagem aos sambistas da velha guarda da Turma do Quinto terá dificuldades de encontrá-los. Um dos últimos remanescentes do samba autêntico, o compositor Paletó faleceu durante o carnaval deste ano, enquanto a escola desfilava na avenida com o tema “O Quinto é Minha Lei, o Meu Enredo: José Sarney”.
Embalando o sono da Corte, os “bobos” venceram o carnaval, dando um tiro de misericórdia no samba tradicional da Madre de Deus e rasurando mais uma vez a história da escola, que, no fundo, acabou perdendo.
Cristóvão não passou incólume diante das perfídias dos políticos, que, vez por outra, usavam o compositor para alegrar suas farras em troca de pequenos favores. Sarney, assim, tornou-se o único espinho na minha amizade com “Alô Brasil”, que o defendia ferrenhamente. Às vezes, fingia não escutá-lo, para evitar constrangimentos. Não dava samba.
RELAXO ANGELICALÉ difícil reconstituir com palavras um artista tão simples e transparente, mas por isso mesmo quase intangível. O que lhe é sólido reside em sua obra exemplar, recriada diariamente, não como colagem de um lucrativo stand “pós-moderno”, mas como jóia impagável da originalidade, palavra quase proibida no atual dicionário da MPB.
Mesmo fora da alegre indústria musical e se considerando um injustiçado, ele não ambicionava o sucesso, embora não recusasse convites para apresentar-se e estivesse sempre atento àquilo que as celebridades cantavam no rádio. Isso o estimulava a compor.
Foi com espírito e ouvidos aguçados que “Alô Brasil” arquitetou um dos seus raros experimentos com o intertexto melódico, mas também lírico, no samba Araçagi, realizando uma paródia incidental sobre as sete primeiras notas (sons) da música “Copacabana”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, gravada em 1946 por Dick Farney:
Existem praias tão lindas
cheias de luz,
nenhuma tem os encantos
que tu possuis.
(...)
Copacabana,
princesinha do mar... etc
À moda do samba-réplica ou “resposta”, que estimulou a polêmica entre os grandes compositores Noel Rosa e Wilson Batista, do Rio de Janeiro, o sambista maranhense cantou, depois de afinar o gogó com uma branquinha:
Disseram que Copacabana
é a praia mais linda que pode existir.
Juro, e quem disse isso
nunca viu Araçagi,
porque quem conhece essa praia
sabe quanta beleza existe
e também pode provar
que Copacabana junto dela é triste...
A letra do samba de relaxo (como também se diz no Maranhão), gravado em 1986 no Compacto “Os Velhos Moleques”, é um exemplo de regionalismo, ou bairrismo, uma característica dos sambistas populares. Mas aqui a conotação ufanista não se sobrepõe à necessidade que esses autores têm do pertencimento e afirmação do seu espaço sócio-cultural, ameaçado por falsas políticas públicas.
Num outro momento ele sapateia em cima do samba “Se Eu Morrer Amanhã”, de Garcia Jr. e Jorge Martins, gravado em 1961 por Gilberto Alves e Carmen Costa (Se eu morrer amanhã / não levo saudade / Eu fiz o que quis / na minha mocidade / Amei e fui amado / beijei a quem bem quis / Se eu morrer amanhã, de manhã / morrerei feliz, bem feliz!).
O samba “Bandeira da Escola”, de Cristóvão, (gravado em 1999 como Bandeira do Quinto no CD “Alô Brasil”, 1º volume da Série Sabiá/Funcma, pelo intérprete maranhense Gabriel Melônio) revisita a pauta musical e o conteúdo do primeiro verso de “Se Eu Morrer Amanhã”, mas também a expressão “amei e fui amado”:
Se eu morrer amanhã
quero que cubram meu caixão
com a bandeira da escola
que pra mim será satisfação
(...)
Tenho que dizer
que amei e fui amado
desprezei,
também fui desprezado.
De fato, durante o enterro de Cristóvão Colombo lá estava a bandeira azul e branca da Turma do Quinto sobre o seu caixão, como ele tanto desejou. Era a utopia do samba ali substanciada. Como a mulher do seu devaneio, a bandeira da escola enfim se redime diante de um compositor que prema-turamente descobriu o perdão, feito um mestre-sala diante do infinito.
Por essas e outras, coloco a minha mão no fogo se “Alô Brasil” não entrou no Céu. Não por corporativismo de São Pedro – já que o compositor era também porteiro, ou melhor, “agente de portaria” da Secretaria de Infraestrutura do Estado, além de office-boy. É que nos seus últimos dias de vida observei que ele já andava quase levitando, não bebia, fumava e falava pouco, como se ensaiasse para virar anjo.
Não teve outro remédio.
- Próximo texto:
- Ediçao 93 Galeria de anônimos ilustres
- Texto Anterior:
- Ediçao 93 ENGODOT?
- Índice da edição - Ano III