Data de Publicação: 29 de novembro de 2005

Antônio AíltonA viagem do poeta Antonio Aílton, ainda que pareça, não constitui um processo solitário. Muito pelo contrário, ele cria vínculos intertextuais com algumas parcerias que vai formando pelos caminhos da leitura.
No discurso poético de Antonio Aílton estão as pegadas e os rastros das pessoas com as quais ele tem os seus encontros secretos, discretos e clandestinos.
Antonio Aílton não é de muitos amigos, mas tem alguns e dos bons. Lendo-o, atentamente, ao dialogarmos com ele através da linguagem de seus textos, ao tornarmo-nos co-autores, ele acaba por nos revelar quem são esses amigos com os quais priva com tanta intimidade e bem-querença.
Então, a partir daí, ele dá a charada e os enigmas e nós tentamos decifrá-los. Não é um exercício fácil, porque seus amigos não são pessoas comuns. Por que? Porque são pessoas que estiveram no labirinto do texto e conheceram o emaranhamento de falsas entradas e saídas d’As Habitações do Minotauro. Porém, após decifrarem seus códigos, criaram as senhas de suas próprias saídas e escaparam.
Podemos arriscar algumas revelações, pois ele convive com artistas excepcionais como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Ferreira Gullar, Nauro Machado, James Joyce, T. S. Eliot, E. E. Cummings, dentre outros.
Sem dúvida, priva da intimidade de escritores como Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, Poe, Rilke, Allan Ginsberg e raros outros.
Mas, de onde ele tira a energia de sua poética, além e apesar dessa fortuna proveniente da química, dessa he-rança conquistada após imenso e profundo sacrifício de leituras e releituras? Das experiências e vivências que agrega a sua própria existência, como resultado de lutas e sofrimentos, amor e desamor, alegria, tragédia, morte e superação.
Sim, Antonio Aílton, a princípio, parece ser um poeta só, solo, que veio do nada. Entende-se o porquê da suspeita. Seus amigos são tão excêntricos, especiais e excepcionais, que suas obras não podem ser lidas nem vistas senão como exceções à regra.
Os poetas de gênio ou engenho sempre foram assim. Nós, particular-mente, inscrevemos Antonio Aílton na categoria dos rebelados, mal/ditos e irreverentes. Quiçá mantenha esse orbe que conduz em sua órbita, para que possamos repetir, nos últimos 20 anos de poemas produzidos no Maranhão, Antonio Aílton é uma voz à parte, dife-rente, singularíssima. E porque causa tanto estranhamento, vale a pena lê-lo pelo direito e pelo avesso. Melhor estudá-lo, para não corrermos o risco dos costumeiros equívocos dos que só conhecem os trilhos da tradição herdada. Não percebem que certos poetas, a partir de determinada parte do caminho, descem do trem ou fazem com que este desencarrilhe e seguem outro caminho completamente diferente do convencional. Como andarilhos que se perderam de propósito, para se encontrarem, abrem picadas semânticas no asfalto e fazem trilhas com os próprios pés sangrando, como o faz Antonio Aílton.
No Poema-Fato ou Fenômeno quem se anuncia querer sair do labirinto? Nesse texto pleno de alegoria e símbolos, Antonio Aílton faz com que a própria Linguagem se apresente como protagonista n’As Habitações do Minotauro e diga a que veio,
a mala está pronta
a máscara
a maquiagem
a peruca para o carnaval
dois brincos
soutien
espelho...
abram a porta: estou pronta
e penteada
A Linguagem cifrada ou velada propõe, com seus vários olhares, o ousado, o irônico, o dissimulado, o oblíquo, fazer a leitura do mundo através da via do simulacro ou da mimésis.
No poema Engodot?, as filigranas do minimalismo à Beckett arremetem à atmosfera metamórfica do Crime na Flora, de Ferreira Gullar. Alguém está Esperando Godot ou o engodo. É um belo momento de altíssima poesia. Um poema belamente elaborado. E por que não dizer uma obra-prima? Lendo este poema nos sentimos mais próximos dos deuses e temos uma irresistível vontade de exclamar, Habemus poe-tam! neste vasto mar onde raros são os sobreviventes do naufrágio no texto. Sem dúvida, Engodot? é um poemaço.
O MitoO imaginário da Antiguidade grega criou o Minotauro:
O rei Minos pede um favor ao deus Posêidon. O deus dá-lhe um touro branco que fez surgir do mar. Em retribuição, o rei deveria sacrificar o touro em oferenda ao deus Posêidon, mas o animal era tão belo, que Minos resolveu poupá-lo. Por vingança, Posêidon fez com que a rainha Pasífae se apaixonasse pelo touro.
Louca de vontade de unir-se ao animal, ela pede ajuda a Dédalo, famoso escultor cretense, que fabrica uma vaca de estrutura de madeira e coberta de couro, onde a rainha se esconde.
O touro branco, atraído pela aparência, se une em cópula com ela. Daí nasceu o Minotauro com a parte superior em formato de touro e a inferior, de homem.
Envergonhado, Minos faz com que Dédalo construa um palácio-prisão, o Labirinto de Creta, para encerrar o monstro.
O escritor André Peyronie, referindo-se ao mito em questão, destaca sua importância para a literatura:
Será a partir do século XIX que a besta infame, mais do que só imaginar, fará sistematicamente pensar. As condições particulares de sua procriação, sua natureza de monstro, sua relação com o Labirinto e seu assassinato por Teseu tornam-se referências e importantes instrumentos de pesquisas literárias de vanguarda. (...) Muito menos feio do que se acreditava, e em breve a própria definição da beleza moderna deverá passar por ele. Pois, no centro do Labirinto, na hora do enfrentamento, Teseu vê de repente elevar-se no outro sua imagem invertida ou distorcida. E terá de reconhecê-la e fazer com que se torne favorável a ele, ao perder o encanto narcísico tão emblemático de romantismo. Pois, não se destrói uma imagem e jamais se mata um Minotauro. Quando muito pode-se sacrificá-lo, ou seja, transformá-lo, ou ainda fazer com que ele nos realize. p.650 (1)
Tanto o narrador do Potomac, de J. Cocteau (1913-1939) refere-se a ele como ‘lindo monstro’, quanto o texto de A. Fraigneau, Le point de vue du Minotaure (O ponto de vista do Minotauro) ilustram bem a mudança de perspectiva. O Minotauro é belo. Parece-se com Teseu, não passa de um reflexo deste no disco de ouro. Ele não mata suas vítimas. Ele as possui em ‘circunstâncias patéticas’ e ‘as satisfaz’. Depois da subida de Teseu, ele abandona suas presas e aceita passar por morto. (...) então, (...) o Minotauro nada mais é que uma forma tomada por Teseu desde que entrara no Labirinto.
Também no Teseu, de Gide (1946), o narrador descobre que ‘o monstro era belo’., p.648 (2)
Daí para os dias atuais o mito do Minotauro passou a ser uma espécie de símbolo da modernidade, como um correspondente alegórico da luta do escritor que opta por inovações no campo da criação literária, na tentativa de encontrar novos caminhos ou saídas do labirinto do texto. Espécie de minotauro aprisionado em sua própria habitação, o escritor terá de escapar conduzido pelos fios de uma nova linguagem.
Picasso, Dali, Magritta, Rivera são exemplos de pintores que deram relevância a esse mito.
Picasso, em sua Minotauromaquia apresenta 150 gravuras, que compõem sua Suíte Vollard, sobre o tema. Faz parte dessa coleção O Minotauro e a égua diante da gruta (1936).
Ainda segundo André Peyronie, em Qui n’a pas son Minotaure? (Quem não tem seu minotauro?), de Margarithy Yourcenar (1963): Teseu não percebe que está no interior de si próprio e que as vozes familiares que escuta são a expressão de suas muitas fraquezas e múltiplos egoísmos. Não sabe reconhecer em si mesmo o Minotauro. Depois de vencida a prova, ele declara que a besta era invisível e que não há como provar o combate.
Em Seduction of the Minotaur (A Sedução do Minotauro), de Anais Nin (1961) a narradora (…) compreende que não há mais necessidade de fugir dele, e sim assumi-lo e explorá-lo. (...) Ele é, na verdade, a sua parte que ela não aceita. Observa-se que a figura do Minotauro tornou-se suficientemente autônoma para simbolizar a conquista da própria consciência, quer se trate de uma mulher ou de um homem., p. 649 (3). O nosso lado minotauro é a conquista e aceitação da identidade ambígua do monstro e do humano que co-abitam em todos nós, simultaneamente.
Jorge Luiz Borges no conto La Casa de Asterion, do Aleph (1949), intui que o Minotauro fala, enquanto aguarda aquele que virá para vencê-lo e matá-lo, finalmente tirando-o do sufoco da vida sitiada. E Teseu diz a Ariadne que o Minotauro nem sequer se defendeu.
E acrescenta,
(...) Que significa a execução do Minotauro para Teseu, que ignora que aquele que não se defendeu possivelmente seja o criador ‘das estrelas, do sol e da imensa morada?’
E que significa para nós esta experiência ‘monstruosa’ de encerramento no labirinto do texto., p. 649 (4)
BIOGRAFIAAntonio Aílton Santos Silva, maranhense, 31 anos de idade. É poeta e
professor. Como escritor, tem origem nos grupos poéticos e nos reci-
tais das noites ludovicenses, nos quais tem atuação marcante, principalmente naqueles promovidos pelo Departamento de Assuntos Culturais da UFMA. Em termos de produção literária, tem obras publicadas na Safra 90 (Secma, 1996); na Antologia Poética do XV Festival de Poesia Falada do Norte e Nordeste (Universidade Federal de Sergipe, 1996); Na Antologia Breve (Grupo Carranca, 1999); no Concertos no Carnegie Hall, mostra de poesia realizada em homenagem aos 50 anos de lançamento de Um pouco acima do chão, de Ferreira Gullar, feita pelos grupos Curare e Carranca, 1999. Participou também da XIII Antologia Poética Hélio Pinto Ferreira (Fundação Cultural Cassiano Ricardo, São Paulo, 1999. É membro do grupo Curare de Poesia.
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