Anuário #03 - São Luís, 2005
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Editorial
No banquete, a ceia de Pão Maligno com Miolo de Rosas

Edição 94

No banquete, a ceia de Pão Maligno com Miolo de Rosas

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Nauro Machado
Nauro Machado
Gênio poético por vocação e por ofício, seus poemas longos lembram as sinfonias de Beethoven, Listz e Wagner. Neles há sempre um primeiro movimento, sob a forma de introdução, que percorre ininterrupta, obstinada e obsessivamente por dezenas de páginas e percute, no segundo e último movimentos, de maneira cada vez mais lírica. É um momento determinante de virtuosismo. O artista se propõe, nessa parte, esgotar todos os seus trunfos de mestre, permitindo-se usar ilimitadamente a fortuna de conquistas e recursos poéticos que as civilizações legaram àqueles raros eleitos que, no sacrifício de leitura, estudo e vivência, conseguiram herdar. E acrescenta-lhes novas variações.

No caso específico de Pão Maligno com Miolo de Rosas, no primeiro movimento, o poeta Nauro Machado, desde as primeiras estrofes, como um maestro solene, procura executar as escalas e acordes mais refinados. A duração desse continuum tem seqüência e desfecho imprevisíveis.

Estamos em que via de leitura? Impossível estabelecer em números redondos. Porque um poeta, quando atinge o grau de maturidade a que chegou Nauro Machado, trafega pelo trânsito da estética com o poder de abolir, modificar ou alterar os sinais convencionais do discurso poético. Então, é perigoso trafegar emparelhado com ele, se você não descobre como ele mani-pula esses sinais, códigos ou cânones poéticos.

Mas o poeta, ainda assim, não é um príncipe, nem um rei, senão um vassalo, um vassalo do poema, da linguagem, a que presta reverências.

Deste ponto de vista, em Pão Ma-ligno com Miolo de Rosas, o tema, São Luís e os assuntos que o poeta Nauro Machado aborda, como as injustiças sociais, a transitoriedade e a precariedade do que nasce, pende e perece, a arte dos medíocres, a corrupção, a miséria, a fome, os artistas eleitos não são, senão, em princípio, pretextos para que o escritor demonstre todo o seu potencial criativo. Ou seja, em Pão Maligno com Miolo de Rosas, Nauro Machado faz com que o texto conte a sua própria história, tornando-se aí a outra, suspeitamente o enredo, secundária. Mas é um processo simultâneo e de complementariedade.

Não que não tenham importância os fatos que ele relata. Muito pelo contrário, os fatos só têm importância porque constituem a memória viva, pulsante, palpitante da cidade de São Luís. O poeta aqui, neste poema vindi-cativo, é ele mesmo e é a própria cidade. Ele é, portanto, porta-voz, o que confere ao texto como um todo o caráter de autobiografia de Nauro Machado no contexto da Cidade-Ilha, hoje. Assim, Pão Maligno com Miolo de Rosas não é um poema sobre ontem, mas é isto e muito mais, porque tem a dimensão de um passado presentificado, já que é fruto de um monólogo interior. Neste estágio da criação literária, a poesia atinge o patamar do delírio ou transe deflagrado pela descontinuidade do que está armazenado no fluxo da memória. O que nela flui, emerge atemporalmente, do ponto de vista cronológico.

Antes de tudo, Pão Maligno com Miolo de Rosas é, em seu primeiro movimento, uma aula de estética ou de conhecimento de criação literária. Por esse ângulo, Nauro Machado é um monstro sagrado do corpus poético. Uma aula aos poetas. Não falamos de uma aula de poesia (porque não se dá aula de poesia), mas de estética, de poema, em que o maestro demonstra como se constrói e desconstrói o legado estético e o aprimora dando-lhe contemporaneidade. Ele dá exemplo de como, através de recursos e efeitos especiais, um poeta pode manipular, violar, transgredir, ousar, para sair dos lugares comuns. Em outras palavras, ele cria variações, outras versões, inventa estratégia, pois pretende driblar a expectativa do leitor que espera o lance do jogo convencional, para surpreendê-lo no deslance final.

Ainda no segundo movimento, que vai da página 36 e vai-se fechando lá pela página 70, o poeta permanece ainda em fase de purgação, num clima tenso. Percebe-se que o pessimismo vai-se abrandando, mas a sátira, a ironia, a descrença na vida mantêm a mesma tensão da parte precedente. No entanto, é também um instante de bela e trágica poesia, de virtuosismo, em que Nauro Machado se excele no apogeu de excepcional força verbal. É um ponto enfático de grande fluxo barroco-conceptista, cujas bases são os paralelismos deflagrados por antíteses, paradoxos e ambigüidades. É como se o poeta fizesse uma releitura, dentro do espírito paródico, da atmosfera que insuflou a poesia satírica de Gregório de Matos, na Bahia, no século XVII, sufocado pela vida provinciana ou paroquiana de então. Não estranhemos, porque tudo que é eterno é moderno.

O terceiro movimento é de amor, paixão e compaixão ou catarse. Cessa a sátira mordaz e irrompe a poesia lírica em sua plenitude.

Se o poeta é hermético ou não, isso não é pergunta que se faça. Deus é hermético? A Bíblia é hermética? Deus e a Bíblia continuam a seduzir a curiosidade das civilizações, ou não?

Nós poderíamos cogitar, Nauro deveria escrever assim ou assado? Mas como? A poesia dele é que decide isso. Ela se impõe e exaure o cidadão Nauro Diniz Machado, à medida que cria nele o poeta Nauro Machado. O cidadão não interfere. A poesia manobra, envolve-o e o torna escravo por 24 horas conse-cutivas.

Sedutora, irresistível, espécie de Medusa, petrifica o cidadão em Esfinge com seu enigma, o poema.

Ela exige que o simples cidadão permita que o poeta viva nele com suas extravagâncias de príncipe ou rei, um nababesco da linguagem e de vida luxuriante. Por isso, suga o cidadão em que o poeta se incorpora ou encarna como inquilino voraz, transformando-o num vassalo ou escravo dela e do poeta, que só recebe, pelo que faz, o prazer de viver e morrer como cigarra. Ela impõe pompa nas circunstâncias vitais mais adversas. Prazer, no máximo sofrimento. Martírio, no orgasmo.

Em Nauro Machado não é ele, mas a própria poesia que se escreve e dá as cartas e pelo poeta dialoga com inúmeros escritores e textos.

Um poeta em potencial é assim. É aquele que pode, de entre a Rua dos Afogados e a dos Prazeres, entre a Praça Deodoro e a João Lisboa, entre a Madre Deus, Portinho, Desterro e Praia Grande, ultrapassar todas as fronteiras e barreiras de franças equinociais (um grande e retumbante equívoco) e extrapolar portugais e franças e espanhas e itálias e europas, e Américas, superando-se a si mesmo e a muitos e vendo e vendo-se sempre além, projetado para um futuro em que viverão poucos sobreviventes ao labirinto dos enigmas da linguagem.

Essencialmente Pão Maligno com Miolo de Rosas poderia ser classificada como uma obra NeoBarroca ou Pós-Moderna, se fosse possível enquadrá-la em algum parâmetro. Na impossibilidade, não vamos rotular o poema, senão ratificar que tudo quanto é belo é eterno e tudo quanto é eterno permanece eternamente moderno.

O Cavalgamento e as Aliterações

Estes dois recursos formais são definitivos na construção de longos poemas, pois possibilitam ao poeta quebrar qualquer monotonia no encadeamento rítmico dos versos, pois as ali-terações somadas a cavalgamentos impõem e deflagram mobilidade, dinâmica, energia ao andamento dos versos, resultando numa leitura ágil, ininterrupta e agradável.

As aliterações constroem o encadeamento harmônico, melódico, através da proximidade de fonemas de sons idênticos ou da mesma família fonológica, em seqüência,

Ó pombos nos castrados
crespúsculos do Carmo,
(op.cit., p.38)

porque meu nome com n,
esta letra atroz, sedenta:
náufrago, nau, nauta, nênia,
nascido em nada, nem tal-
(op. cit., p.59)


O cavalgamento ou enjambement põe o ritmo, na passagem de um verso para o outro, em cavalgada ou disparada vertiginosa, de desfecho acelerado, ininterrupto e imprevisível. Do francês, enjambement (anjamb’mã), segundo Aurélio Buarque de Holanda, dicionário homônimo, p.532, Processo poético de pôr no verso seguinte uma ou mais palavras que completam o sentido do verso anterior.

Este recurso estético é abundantemente usado por Nauro Machado. Conferir na travessia do poema em questão, observando-se que ele cria vários tipos novos de cavalgamento, usando o recurso no corte da sílaba da translinea-ção silábica,

Já escravo de quem serviu, e é
mestre do chão em mim, meu verbo
(op.cit., p.11)

balançando no trapézio
a ser do enforcado a corda,
neste verbo que em mim pesa
o pão-poema que o engorda,
(op.cit., p.13)

já o teu nome em mim se iguala
tão só, e apenas, no som mi-
sericordioso da fala
(op.cit., p.24)

ó pombas nos castrados
crepúsculos do Carmo,
ó incorruptível tasca
dos bêbedos sem máscara
(op.cit., p.38)

ó estação para os próximos
e parados relógios
ó costumes, ó mores
dos velozes velórios,
(op.cit., p.43)


Enfim, as estrofes da página 36 até as da página 47 se constroem à base de cavalgamentos, o que ocorre ao longo de quase todo o poema.

As Rimas

Outro aspecto de destaque na estética de Nauro Machado são as rimas que, neste Pão Maligno com Miolo de Rosas, atingem um momento de ápice.

Meticuloso, excêntrico, exclusivista, personalíssimo, no tocante às rimas, Nauro Machado não tem parâmetros de comparação no panorama universal.

Estamos falando de rimas raras, exóticas, luxuriantes, polifônicas, assonantes e/ou dissonantes, bizarras e rascantes em que François Villon, Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, Mário de Sá-Carneiro, Manuel Bandeira, Maranhão Sobrinho, dentre poucos outros, foram mestres.

Observem-se as rimas a partir da estrofe nº 2, em que o poeta rima vermes/serviu, e é; servo/verbo.

A riqueza de rimas diferentes do convencional neste poema de Nauro Machado, por si só, merece um estudo de tese de mestrado ou doutorado. Pelo espaço restrito, exemplificamos, sem citar número de estrofes:

Tapa/marca; sobra/topa; vaca/garrafa; hidrófobo/óbulo; pecados/mais; carne/parto; quatro/fato; página/pálpebra; neutra/uretra; trapézio/pese; incompetente/sempre; vida/dívida; óbice/código; fétido/édito; rícino/visse; óleo/olhe; ascese/s; crime/hímen; remorso/enfim só; possuído/posso e do; estive/lívida; rua/uva; roupa/boca; peso/pêsames; milho/trigo; nome/som mi-; esse/pés-(sego); castrados/tasca; Carmo/máscara; próximo/ó mores; relógios/velórios; hemorróida/ mói da (no verso seguinte); n/nênia; sedenta/tal-(vez); mendiguei as/ceias; mendiguei-as/ ei-las, eis.

O poeta Nauro Machado, através do poema Pão Maligno com Miolo de Rosas, depois de anos sucessivos de caminhadas pelas ruas e praças, becos e ruelas, ladeiras e bairros do centro histórico de São Luís, faz uma outra viagem, a mental. O poeta reconstitui pelo descontínuo trânsito do fluxo da memória todos esses périplos, que incluem tanto incursões beneditinas ou franciscanas, quanto à flaneur, goliardos ou clérigos vagantes. Proustianamente, ele está em busca do tempo perdido, pois para ele, como para Proust, um coisa recente evoca outra, às vezes tão remota, que se confunde com a própria infância do cidadão Nauro Diniz Machado,


[...]
E andando por esses becos,
correndo por essas ruas,
com meus lábios já secos,
difamando sóis e luas,

luas-cheias, cheias-luas,
quarto-crescente em minguantes
de insones becos e ruas
para bêbedos mirantes,

onde estão as dragas da infância,
sem porto agora para elas,
que se foram na distância
das frustradas caravelas?

Morta agora em minha vida,
onde me está a mocidade,
para sempre além perdida
nesse porto de saudade?

Cheirando a infância e vagina,
a água da chuva nas grelhas
dessa cidade menina
apesar das chuvas velhas,

que vão cobrindo os mirantes
e soterrando os beirais,
como o abraço dos amantes
afogados nos seus cais,
[...]

(p.31-32)


E a evocar os célebres versos pessoanos, subverte-os e deles se apropria, para assinalar uma versão ou variação paródica de acordo com os dias atuais. Nauro Machado dialoga com Fernando Pessoa a partir do mote,

Tudo vale a pena,
se a alma não é pequena.


Adiante se acende em crítica social, quando escancara a verdade sobre a consuetudinária miséria em que vive mergulhada a maioria da população maranhense. O poeta está bem atento para a evolução, na prática, das teorias de Karl Marx, em O Capital,


[...]
No arquipélago sem feto,
o real, que é desse mar,
faz-se ouvir como se em ecos
a se encherem nos meus mares,

vale a pena não, Pessoa,
que tudo não vale a pena
às falas de João Lisboa
e do Odorico de Atenas,
vale a pena não, Pessoa,
que toda alma aqui é pequena,
como a que neste chão ecoa
difamando Maria amena,

vale a pena não, Fernando,
não vale a pena aonde vou,
sem que diga nenhum quando
que a cidade enfim mudou,

[...]
E enquanto alguns comem resto,
enquanto alguns comem sobra,
e ronda e roda mais presto,
e roda e ronda, manopla,

como se em rodas de mó,
como se em roda estertor,
a miséria que sem dó
se infinitiza na dor,

enquanto alguns comem mal,
para não dizer pior,
para não falar de qualquer resto para urinol,
[...]
(p.32-72)


Daqui para frente, as referências toponímicas e onomásticas são cada vez mais constantes. Percebe-se que o poeta tem a finalidade de estabelecer as bases reais de sua análise. Trata-se, efetivamente, não de um poema somente sobre São Luís, mas, principalmente, sobre o povo da Ilha-Cidade em face de suas angústias, problemas e dilemas existenciais:


[...]
tudo sabe dos dois rios,
se do Bacanga ou do Anil,
da fome que em dois pavios
come o esqueleto do cio.

Chorai apenas, águas vindas,
que como a dor não chorais
tanto quanto as coisas findas
e que mortas me doem mais.

Águas do meu pobre Anil,
águas, ó pobre Bacanga:
eu fui um sonho que partiu,
eu fui um sonho – e que ainda sangra!
[...]

(p.74)


Os dois últimos versos da última estrofe arremetem ao Quase, de Mário de Sá-Carneiro.

Essa abertura generosa para o diá-logo com outros poetas distingue no poeta Nauro Machado a sua disposição em revelar suas preferências que, no caso específico de Pão Maligno com Miolo de Rosas, vão de Fernando Pessoa a Rilke.

E sua peregrinação continua, para que se perceba o quanto os problemas e dramas da Cidade-ilha estão enraizados na alma do poeta, como algo telúrico, pungente, que aflora das entranhas,


[...]
Estou sempre disponível,
estou sempre ao léu de mim,
dor de ser, ó terra incrível
Leprosário do Bonfim!

Tenho lepra ou coisa igual?
Uma estrela de Davi,
no campo de Buchenwald?
Por que, matéria, em ti

vivo no verbo em barracos
de famílias vazias?
Antigos mastros, sem barcos,
naufragaram nos meus dias.

No Mercado, que é Central,
meu canto palafitou-se,
ó Gavião de pedra e cal,
cemitério que é tão doce

para meu pai e minha avó,
para Matilde e Torquato,
no alfabeto de chão e pó,
de ervas daninhas, só mato.

Qual o coito que os empedra?
Qual o beijo que os enlaça?
A lembrança, se me medra,
traz meu pai morto, de graça.

– Enfim te levo nos sonhos
e como amigos descemos
à tua morte, onde ponho
os teus braços nos dois remos

para a travessia maior,
onde queimas com frio e febre,
sabendo por fim, de cor,
que toda viagem é breve.
[...]
(p 75-77)


As estrofes que se seguem são como que um resgate daqueles que viveram realmente os tempos áureos da boemia literária maranhense, particularmente ao mentor espiritual de gerações, o escritor Erasmo Dias, o saudoso autor da novela Maria Arcângela que, do bairro de Apicuns, irradiava para adultos e jovens as bases das literaturas universais.


[...]
No Apicuns, a glória e o fogo,
desde a manhã já acendidos,
na caldeira em que, sem logro,
fervem dentro de mil vidros,

abecedárias serpentes
e também rãs e lagartos,
de um delírio – que é tremens –
no crânio a fazer-se um parto,

no Apicuns de glória e fado,
no Apicuns se vêem as marcas
de quem, por assinalado,
vendo o céu e aceitando as Parcas,

com efisema e cirrose,
com ódio e amor conjugados,
ajunta, pobre, o que se cose
nos seus sonhos remendados,

na solidão de alvar linha
com que esta ilha lhe costura
a embriaguez de uma vinha:
não do chão, mas das alturas.

Que é do perfume e do sândalo?
Que é das luas e dos sóis,
quando os bêbedos são os vândalos
desta terra sem heróis,

besta-fera, fera-besta,
que o sol não vê, que o sol tapa
com a letra da tua destra
réproba mão, mão de sátrapa,
[...]
(p.80-81)


O roteiro sentimental de Nauro Machado então se desloca dos motivos por onde pré-ambulou, Afogados, Pra-zeres, Deodoro, João Lisboa, Madre Deus, Portinho, Desterro e Praia Grande, para uma homenagem àqueles que o precederam na escritura de poemas longos sobre São Luís. Aqui ele assinala os poetas José Chagas, Bandeira Tribuzi, Chico Maranhão, Raimundo Fontenele e José Maria Nascimento. Mas ressalte-se que essa homenagem se fará sempre com a evocação de lugares marcantes em sua vida e nas daqueles a quem ama,


[...]
Ó Chagas em pesadelos
de sobrados e mirantes,
a esgueirar-se insone pelos
becos da São Luís de antes,

ó saxofone de pássaros,
ó saxofone com asas,
contra a amplidão rasa no
rasga-mortalha que rasgas,
saxofone do José,
saxofone do Francisco,
música de pura fé,
apostando, que é seu risco,

na correnteza sem chagas,
na correnteza da vida,
pela dor de quem paga as
dores da alma, que é a medida

da solidão do poeta,
da solidão que o sustenta
contra a miséria abjeta
desta Ilha mais sedenta.

Como remendo que se use
sobre o que a costura uniu,
por onde andará Tribuzi,
que pela terra sumiu?

Nas ruas de São Luís,
nas ruas do Precipício,
da Palma e também do Giz,
da virtude igual ao vício,

que é do gesto e da sua mão?
que é da sua mão, a quem empresto
o cigarro do pulmão?
Tudo em nada, é belo o resto

de filhos e de sonetos,
na herança dos caminhos,
por espinhos e gravetos
na escuridão dos sozinhos.

Por onde andará a Bandeira
hasteada agora a meio-pau,
como uma estrela que, inteira,
incendiou-se em rosa e sal?

Chico velho, pulso firme,
poeta irmão, em cabaré
para amparar-me no meu ir-me
aonde as águas não dão pé,

Chico velho, muito mais
que a rua toda, e sobretudo
a noite na Viana Vaz
sobre o meu coração mudo,

na farinha da quitanda,
na farinha, tira-gosto
da solidão, que é quem manda,
qual gasolina sem posto,

qual gasolina sem venda,
gasolina interior
para a veia que só se apreenda
pelo álcool que nela é dor.

Chico velho, nos Prazeres,
Chico velho, na Alegria,
Chico velho, orai por eles,
Fontenelle e Zé Maria.
Ó meus cabelos mortos,
ó minhas portas fechadas,
ó anos de ventura aos tortos
sóis de luas naufragadas!
[...]
(p.82-85)


Como o poema se constrói autobiograficamente, neste último Movimento do poema, o poeta intensifica sua emotividade, se emociona e enternece. É o grande momento e salto da poesia de Nauro Machado. É o seu melhor momento, no qual, talvez, ele não se supere nunca mais, porque acreditamos estarmos aqui em estado de graça poética, de epifania. Aqui, estamos simultaneamente com Nauro Machado e com Fernando Pessoa, com Bandeira Tribuzi e com Manuel Bandeira, com Rimbaud, com Ferreira Gullar, com Rilke e com Casemiro de Abreu. Uma overdose de liricidade, em que o homem se desnuda através do poeta que é.


[...]
Terra de oleaginosas,
como choro em teu reverso!
Tirai de mim, se é que possas,
o poeta do seu verso.

Dai-lhe a infância de outrora,
na Praça João Lisboa,
e fazei, para quem chora,
com que a dor não mais lhe doa!

Ó cotidianidade
que já cansa, demais cansa,
para a continuidade
sequer de uma só esperança!

Nada me mede meu metro,
nada me serve minha alma.
Corôo-me aqui, no cetro
da rua chamada da Palma,

para o insone de escuro cio
entre algas e carrapatos:
dói-me, dor, dói, ó casario
onde desatei os sapatos!
[...]
(p.85-86)


E o poeta, de maneira velada, mas belamente enternecido, se permite falar de amor. Com sutileza e discrição revela que o poema Pão Maligno com Miolo de Rosas foi escrito para a bem-amada, embora essa revelação se faça de maneira ambígua, paradoxal e pessoanamente contraditória.


[...]
Cartas de amor, não as te fiz...
Cartas por mim jamais postas,
são tudo o que quero ou quis
para um mundo sem resposta.

As cartas de amor, no dar-te
estas canções que são de uma
pessoa a ser de duas partes
para a soma de nenhuma,

as cartas de amor são cartas
postadas mudas no além,
no pão que comigo partas
para a boca de ninguém...
[...]

(p.87)


O que se segue, da página 87 até a 95, é um dos mais belos monumentos da poética naureana e também um tributo ao poeta João Cabral de Melo Neto, de Morte e Vida Severina. Só que a leitura, a versão ou variação de Nauro Machado reflete o que pós-modernamente é chamado de releitura às avessas, isto é, quando o poeta subverte o texto-fonte, para obter uma nova e melhor fatura e fortuna poética, pois a Morte Severina de que trata Nauro Machado não é a do lavrador, mas a do próprio cidadão em que se hospeda o poeta, que o vai matando à proporção que se salva, eterniza e eleva. Nauro Machado nos fala de uma Morte Severina do cidadão Nauro Diniz Machado, em proveito da sobrevivência do poeta Nauro Machado, do poema e da poesia criados à imagem e semelhança de quem lhes plasmou sopro de vida. Trata-se de uma morte que acontece no campo metafísico, não no plano biológico. Tal acontece à proporção que homem, poeta, poema e poesia transformam-se numa simbiose de palavra e linguagem, quando kafkianamente se fundem e confundem de tal maneira, que o primeiro perde a sua identidade, assimilada no e pelo outro ou vice-versa. Porque, nesta via de leitura, nem o poeta não é mais ele mesmo, senão no que se desintegra ao engendrar-se no texto, camuflando-se nos signos verbais in eterno,


[...]
Tirar o muito do pouco,
até torná-lo em seu excesso,
como ao caroço o que é seu oco,
como ao que é ruim seu péssimo,

é subtrair de uma jazida,
do abaixo do mais fundo,
o muito que tem a vida
para o pouco que é do mundo.

Se a verdade de uma vida,
diabetes sem açúcar,
antecipa a cova lívida
a cavar-se em nossa culpa.

Se a verdade de uma vida
escrita acima, é sua queda,
é como a soma acrescida
à proporção da sua perda,

a palavra só se mede
pelo sonho em seu tamanho,
apesar do que se perde,
por querê-la maior ganho.

E ao perdê-la para o pouco
acrescido como muito,
a palavra no seu todo
desenovela um defunto,
esse máximo do ausente
pelo mínimo absoluto,
a fazer-se do carente,
como primazia do último.
[...]
(p.91-92)


Nauro Machado
Nauro Machado
O poeta, então, fecha o poema em tom profético e apocalíptico. Ele tem a consciência plena de que foi um dos poucos a decifrar o enigma da Esfinge e os vários olhares da Medusa. Sim, às vésperas dos setenta anos de idade, o cidadão Nauro Diniz Machado pode comemorar por antecipação o fato de ter chegado lá, de ter lido além das palavras, com mérito. O poeta tem plena consciência de que há algo de acréscimo à vida precária e provisória de um simples mortal, no caso específico dele, os inéditos.


[...]
Se a terra tem por acorde
o som de eterno Maestro,
na hora da minha morte,
comigo só, sem empréstimos,

que as frases da minha morte,
se por acaso eu as fizer,
não se repitam no Norte,
não se ouçam num Sul qualquer.

Que se as não façam de póstumas
quando eu for de mim meus restos,
numa boca sem respostas,
embora feita de acréscimos.
[...]
(p.94-95)
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