Anuário #03 - São Luís, 2005
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Galeria de anônimos ilustres
Eugenio de Freitas
Sedução
CHAGAS VAL: O código do vento ou manual do viajante solitário (I)
Editorial

Edição 95

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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A minha vida de hippie
Não diz respeito a ninguém
Meus cabelos longos, encaracolados
Só me fazem bem.
Minhas calças desbotadas e arregaçadas
É para me sentir livre, meu bem...
Preconceitos bobos não me atingem não
Vivo a minha vida não de opiniões
E vocês caretas que estão de fora
Vivam sua vida, vivam o amor
Não a minha história
Porque no mundo em que vivo
Ninguém te dá bola
Você leva o fora
(Charla S. Magalhães)



São seis horinhas da tarde e a bela São Luís se vai preparando, em seu Traje de luzes, para esposar a noite e coroar-se de estrelas. A rua do Passeio, neste átimo, é toda uma sinestesia de olhares e risos empáticos: conhecidos que se cumprimentam, professores e alunos que se reencontram, namorados que passam de mãos dadas... Crianças e jovens que saem das escolas... É o povão que se dirige às paradas dos ônibus. Na Deodoro, camelôs demontam suas bancas, anunciando o final da jornada. O churrasquinho começa a exalar.... E os garis, já a postos, vão toucando a boca da noite no colorido dos seus uniformes. Vozes, em burburinho, se vão tonalizando, na magia urbana do ocaso. E ela, ela está ali... (no batente). Na calçada, naquele vão de porta, no correr do muro rosa, que margeia a rua, no seu confluir para a Deodoro, ela atende uma clientela toda feita, quase sempre, de jovens. Junto dela, o companheiro Paulo (Paulo César de Oliveira, mineiro, 42, com quem vive há 17 anos e com quem tem duas filhas). Sua voz (dela) é uma das tantas a se misturar, na polifonia do instante: “Meu amor, já está na hora de ir buscar a nossa bonequinha”... Ele, esposo solícito e pai dedicado (ela o atesta), interrompe o arabesco da peça e sai, para retornar, minutos depois, com uma linda menina de 14 anos – a bonequinha, que atende pelo nome da mãe... Agora é um amigo, também hippie, que, indo/voltando para casa, cumprimenta o casal. Dois dedos de prosa e... “Ciao, Paulo! Ciao Charla!

É ela! É ela sim! Vejam: o saco à tiracolo, os brincos pendentes, os variados colares sobre a camiseta, a calça meia-perna, artesanalmente estampada (antes ela usava saias, discretamente rodadas, coloridas e com entremeios de renda; tiara, penduricalhos nos cabelos, lembram?), a sandália cearense... E aqueles cabelos. Olhem os cabelos!! – já estão prateando, percebem? Mas ainda naturalmente cacheados, soltos, despenteados, como há 33 anos! É ela. É ela, sim...

Quem não se lembra da garota hippie, aqui chegada, na Ilha Rebelde, no início dos anos 70? Semblante enigmático, como que evocativo de alvoradas e de por-de-sóis já distantes... Toda ela transpirando o humano, o supremo ideal. Quem não se lembra? (De início era na rua Grande que ela armava sua banca. A partir de 82, passou a marcar ponto na rua do Passeio). Tinha, então, 19 anos e estava grávida. E nós, transeuntes aqui das artérias centrais, fomos acompanhando, en passant, o desenvolver daquela sua primeira gestação. O ventre crescendo, mais tarde o bebezinho já carregado ao colo... Ela sumia, reaparecia, nova gravidez sucedia... O certo é que, entre nós, ela se fez mãe, pela primeira vez (1971) – e por mais outras cinco, posto que “tive seis filhos, cinco mulheres e um homem, todos maranhenses”, ela diz, explicando a seguir:

“Nesta minha vida de andanças, engravidei seis vezes e assumi todas. Nunca fiz um aborto, até porque isso vai contra a filosofia hippie que abracei. E quando chegava o tempo de dar meus filhos à luz, eu podia estar onde estivesse, voltava pra cá. Queria que essa minha boa hora acontecesse aqui, nesta Cidade que tanto amo e onde acho o melhor lugar do mundo para se nascer e viver. Aqui é a minha Ilha do Amor, minha Bela Adormecida, o lugar onde encontrei acolhimento, e paz!”

Viram como ela se expressa e se comunica bem? Apesar de não ter estudado tanto... “Só estudei quando era pequena, no primário. No entanto, aprendi a gostar de ler, desde menina, e leio muito, leio bem. O que aprendi de mais importante na vida, que é viver, isso aprendi com o tempo, que é o melhor mestre” – ela diz.

Gente, estamos falando com Charla (!!) – diferente, não? Esse foi o nome cuidadosa e carinhosamente escolhido para ela, pelo pai, já falecido há quarenta e um anos. Um nome especial para uma criatura muito especial: Charla Silva Magalhães, belenense do Pará, nascida em 10 de maio de 1952 e convivente conosco por todos estes anos (33), como artesã de rua, na confecção de bijuterias alternativas. Conhecê-la, assim, mais de perto, acreditem, é um grande prazer, até mesmo um privilégio. Sensível, inteligente, a cada momento ela nos surpreende com um dom oculto, um toque de sabedoria... Agora mesmo está se revelando, por acaso, sem a menor intenção, poeta, compositora de músicas, cantora de voz afinada e de gestual expressivo... (Abrindo um parênteses. Neste momento, num rasgo de mútua empatia, ela está recebendo aqui o nosso afetuoso abraço. É que somos contemporâneas e ela é familiar aos nossos olhos, desde que começou a aparecer por aqui... (A propósito – e agora, um parênteses dento do outro; não se usa, mas é o jeito – ela nos faz recordar que, a primeira vez em que nos encontramos, foi por ocasião de uma festa da Aliança Francesa, realizada na Biblioteca Pública, para eleição da Miss aliance. Acabamos lembrando... Realmente. A iniciativa fora de André Prudhomme, então diretor da Casa e o ano era 1976. Ou 77? Ficamos encarregada de angariar uns prêmios, junto ao comércio local, para sorteios e brindes, nessa festa. E os hippies da rua Grande, comerciantes informais, doaram pulseiras de níquel, com nome gravado na chapa, então na moda, e uns colares bonitos, do mesmo material, para a mais bela noite – então aluna da Aliança, hoje jornalista da TVE – MA. Bom, esse hippies, dois rapazes e uma moça – ela, a dita cuja – marcaram presença, mesmo, no evento...) Sabe como é: foi pintando a emoção e o nosso abraço acabou sendo inevitável. Tomamos a liberdade de colocar, neste abraço, o abraço de toda a Cidade. Afinal, amor com amor se paga...)

Mas, deixemos que ala abra, para nós, o seu livro de vida e nos convide, espontaneamente, a ler, pelo menos algumas páginas... Ela faz suas restrições. Não quer, por exemplo, credenciar suas raízes, sua procedência hereditária. Respeitemo-la, que limita a informar: “Sou filha de uma família de políticos. Meu pai, eleito pelo voto popular, ia tomar posse, substituindo o prefeito de determinado lugar. (??) Desculpe, mas não posso declinar o nome dele nem de ninguém dos meus familiares. Por favor, fale só de mim, não envolva a minha família, pra não haver constrangimentos. Eu sou a ovelha negra, o problema da família, como eles diziam, mas eu nunca levei problema pra eles e não vai ser agora que iria constrangê-los com minha identificação. Eu não tenho raízes. Eu quis esquecer tudo. Quando eu saí de casa, foi pra romper com família, sociedade burguesa, sistema capitalista e com esse poder desumano, injusto, corrupto e assassino”. (?!) Pausa para reflexão.

“Tive meus motivos para me isolar desse poder podre, do qual corri léguas: meu pai foi assassinado por ele, na época da ditadura militar (1964). E isso me criou em mim essa rebeldia. Eu decidi: Vou buscar uma vida a qual não desperte nem cobiça nem inveja, mas repúdio. Ora, meu pai não fora assassinado por cobiça e por inveja?” Silêncio.

“Ainda me lembro. Naquele ano, eu tinha ido passar as férias com meu pai – que era separado de minha mãe, desde os meus cinco anos. Eu morava com meus avós paternos, pois minha mãe abandonara o nosso lar. Meu pai, muito comprometido, amoroso, dedicado, se responsabilizou por mim... Muito sensível, educado, respeitador, sério e honesto, meu pai era um homem de bem. Me dava uma boa pensão, me pagava colégio, me dava presentes, me cercava de todos os cuidados. Eu o amava tanto, que naquelas férias não quis mais voltar para a casa de meus avós; quis ficar morando com ele. E aí é que fui surpreendida pela tragédia. Uma noite, véspera da posse do meu pai, ele trabalhando até tarde, no escritório, ao lado da sala da nossa casa, uns pistoleiros mataram ele a bala, à traição. O tiro era para ter sido na cabeça; mas eles não conseguiram entrar no escritório, e abriram um rombo na fechadura e chamaram por ele do lado de fora. Ele foi se aproximando da porta e eles meteram bala. Eu pressenti algo anormal e saí do meu quarto, como desesperada. Encontrei meu pai ajoelhado, sangrando, com as mãos segurando o ventre, já quase agonizando... Ele tinha 33 anos. Ainda me disse: Minha filha, me mataram! E eu perguntei: Papai, foi de bala ou de punhal? Porque eu já tinha visto tudo aquilo num sonho, como numa revelação. Uma noite, acordei sobressaltada e corri pra ele, apreensiva. Contei tudo. Só que, no sonho, ele tinha sido morto a punhal. Ele me tranqüilizou, dizendo: Papai não tem inimigos; fique calma, minha filha, foi só um sonho, um sonho bobo, volte a dormir tranqüila. Depois, foi a carta anônima, dizendo que ele fosse embora e desistisse de tomar posse, senão ia morrer. Ele não levou a sério. Interpretou como se fosse uma brincadeira, porque achava mesmo que não tinha inimigos. E ainda sucedeu de eu ir, com minhas primas, fazer compras, e encontrar o prefeito que meu pai iria substituir, comprando balas. Ele ainda brincou comigo: Oi, baianinha, como vai? Eu então perguntei para que eram aquelas duas caixas de bala e ele me disse: Isso aqui é pra uma caçada que vou fazer com teu pai. Achei tudo muito esquisito, porque meu pai não tinha caçada programada naqueles dias... Então adverti: tenha cuidado papai! Mas ele e minha madrasta não desconfiaram de nada. Envolvidos com os preparatórios da posse, estavam longe de imaginar a fatalidade. Impossível esquecer aquela noite inesquecível, da qual ainda guardo todas as impressões. As últimas palavras do meu pai... Aquelas que só eu ouvi e que foram ditas só para mim e pela última vez, naquele momento de agonia, antes que toda a casa despertasse. Palavras que vão ficar sempre aqui, no meu coração. Na minha vida, meu pai é insubstituível. A saudade que ele me deixou é uma dor secreta, sempre viva aqui na minha alma. Ele foi a pessoa que mais me entendeu, protegeu e me deu carinho neste mundo. Aquela noite, portanto, mudou o meu destino. Revoltada, eu passei a desacreditar de tudo, principalmente das pessoas, até dos amigos. Meu pai não fora assassinado por pessoas que se diziam amigas? Ainda tentei, por dois anos, viver com minha família, agora do lado materno, que foram me resgatar, depois que meu pai morreu. Meus avós, meus tios... Não deu certo; fui incompreendida, maltratada... Eu tinha sido criada por meu pai e por meus avós paternos, numa educação exemplar. Eles eram católicos. Eu me batizei, fiz Primeira Comunhão, aprendi o Rosário, a devoção a Nossa Senhora... E meus avós maternos eram protestantes ranzinzas, adventistas, cheios de preconceitos e de proibições. Dá pra imaginar o choque? A contradição? Não me aceitaram com o meu jeito católico de adorar a Deus. Não me deixaram assistir à missa de 7º dia do meu pai... Quando minha madrasta buzinou na porta me chamando pra Missa, trazendo um vestido preto para eu usar, por luto do meu pai, minha avó paterna arrancou o vestido de mim e rasgou, dizendo que aquilo era coisa do demônio... Eu olhei pra minha madrasta e disse: Mãezinha! Meu tio me deu um tapa na cara, dizendo: essa p... não é tua mãe; tua mãe é a minha irmã. Eu não podia mais ir à Missa, não podia mais ser eu. E tantas outras incompreensões e grosserias que não caberiam num livro. Não agüentei e botei o pé na estrada. Eu tinha treze anos quando saí de casa, pra nunca mais voltar. No começo, foi difícil. Sofri muito, passei por momentos que nem quero recordar. Até, que três anos depois, me encontrei com os hippies e aí é que tudo mudou e foi maravilhoso. Eles me acolheram, me deram uma filosofia de vida – liberdade, paz e amor – tudo o que eu precisava (Mas eu soube limitar minha liberdade, fui aprendendo com o tempo). Entre os hippies, encontrei verdadeira amizade. Foram eles que deram o amor que minha família materna me negou. Eles que ensinaram a trabalhar, ganhar minha vida com dignidade... Sou verdadeiramente muito grata a eles e tenho muito orgulho de ser hippie. Claro, minha família tentou impedir, coloraram detetives atrás de mim, eu tinha que me disfarçar, cobrir o rosto nos ônibus, com uma revista, fazer que estava lendo, quando viajava... Um dia, fui abordada pelo juizado de menor, quando passava em Codó, aqui no Maranhão. E foi aí que falei sério pra eles: não adianta; me deixem viver como eu quero! Minha cabeça me pede total liberdade.

“Como hippie, andei pelo Brasil todo, sempre de mochila nas costas, exercendo o meu trabalho com muita dignidade, vendendo o meu artesanato na rua... Passei grande parte deste meu modo anticonvencional de viver, morando em hotel, comendo em restaurante... Não tive a cultura da casa individualizada, doméstica, familiar (agora é que moro numa casa, alugada, na rua da Viração, esquina com a rua da Alegria, mas ainda dependemos muito dos restaurantes. Comida em casa, só quando o meu marido, que é mineiro e sabe cozinhar, prepara as refeições). Aqui em São Luís, morei três anos no hotel Globo, na rua Grande (Não existe mais), oito no Colonial, e outros tantos em outros hotéis aqui do Centro Histórico”. Pausa.

“Quero ressaltar que nós, hippies, éramos um grupo muito unido. Ser hippie, pra nós, era muito diferente de hoje. O hippie daquele tempo era puro e verdadeiro, fiel aos princípios abraçados. Hoje, fico triste, de saber que tudo mudou: é notório que há violências, roubos, falta de princípios, entre os que se dizem hippies. No nosso tempo de juventude, fomos incompreendidos, mal interpretados, considerados subversivos e até terroristas. Mas não éramos nada disso. Rebeldes e até revoltados, sim, mas violentos, malfeitores, irresponsáveis, isso não. Só queríamos viver livres, desligados do sistema. Não éramos pessoas más nem vagabundos. No entanto, éramos discriminados, sofríamos preconceito. Por sermos diferentes, despertávamos curiosidade e até mesmo suspeitas. Tínhamos, às vezes, que nos explicar com a polícia... Em Fortaleza, por exemplo, ficamos detidos 24 horas, até que consegui dialogar com a autoridade: Quero que o senhor me diga o que estou fazendo aqui. Eu não cometi nenhum crime. Sou brasileira. Estou conhecendo o meu país através do meu trabalho... Por que o senhor não quer que eu seja livre? Muito compreensivo, esse delegado, por sinal evangélico, nos liberou, levando-nos em seguida, para almoçar na casa dele e depois nos levou para o hotel, ele mesmo, no carro dele... Aqui, também, cheguei a ficar detida. O delegado tinha me dado 24 horas para deixar a cidade. Procurei o Secretário de Segurança da época, homem sensato, também muito compreensivo, e dialoguei com ele, que também nos libertou. Muito humano, ele deu ordem aos policiais para não mexerem mais com a gente. Hoje, posso dizer que venci o desafio de ficar aqui nesta São Luís, tão linda e de natureza incomparável. Nós, os hippies, amamos e respeitamos a natureza, a vida ao ar livre... Beleza para nós é a beleza natural. A gente se enfeita, mas sempre numa linha natural, que não favoreça o consumismo. Não usamos maquiagem não vamos a salão de beleza... Contentamo-nos com o necessário, trabalhando para viver. Muitos de nós éramos universitários, que deixavam os seus cursos, numa espécie de repúdio à ditadura militar, ao consumismo, ao convencionalismo, ao preconceito, pra seguir uma vida mais livre, mais humana, dentro do nosso modo de encarar a vida”.

“Posso dizer que, entre os hippies, sempre fui bem tratada. Me considero uma pessoa de sorte, porque, tão novinha, andando, vivendo por minha própria conta, nunca sofri violência, nem constrangimentos. Já pensou? Eles tinham muito respeito por mim e até me preservavam das drogas – que eu experimentei só quando quis, por mera curiosidade. Hoje, estou aqui para alertar os jovens, advertir que não entrem nessa, que é só ilusão, fantasia, sonho que vira pesadelo. O jovem tem que ter auto-controle, limitar sua liberdade – como eu aprendi a fazer”.

Bom gente, estamos fechando a página. Esperamos que tenham tido o prazer imenso que tivemos em conhecer esta hippie. “Minha vida é um romance”, ela diz, mas vamos ficando por aqui, com esta sinopse de uma vida de luta e muita coragem, na conquista do direito de ser e de viver. Parabéns Charla! São Luís te agradece pelo poema-canção!


Botei o pé na estrada/Pra São Luís
[do Maranhão
Uma ilha pequenina que prendeu
[meu coração
Vi poeira, vi boiada/Vi gente de pé no
[chão... (bis)
Passei numa plantação... Vi raízes
E vi folhas e vi pétalas no chão.

Rua Grande Coração da cidade
Rua Grande minha paixão minha
[saudade
Rua Grande me leva pra rua do
[Passeio
Pró Cantinho da amizade...

Na ponte do são Francisco
Gosto muito de ficar
Para ver o pôr do sol
E os barquinhos navegar....

(Charla S. Magalhães)
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