Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
Por: J. M. Cunha Santos
Se é próprio da poesia uma ligação com o sobrenatural, algo que pressupõe missões divinas e filtra da alma o inconcebível, o não estabelecido, para nos pôr de frente à sinceridade estética; se não há fronteiras para o que ela possa dizer ou sugerir e não está no tempo, ou na forma, a sua essência, porque é a inspiração, o incômodo e a vontade de sobreviver a todas as eras seu destino apocalíptico inevitável, encontro em Eugenio de Freitas essa ternura semântica luminosa.
Homem de muitos títulos, um dos fundadores do Instituto dos Advogados do Maranhão, “Membre d’honneur” da “S.P.E.R – Société des Poètes et Écrivains Régionalistes”, de Nimes, França, e várias entidades culturais do Brasil e, também, de muitos prêmios e honrarias: Doutor em Leis honoris causa pela Samuel Benjamin Thomas University, de Londres, Inglaterra; Atestado de Reconhecimento Artístico e Cultural, conferido pela Academia de Fiorino, de Prato/Firenze (Itália), dentre tantos outros títulos e prêmios, Eugenio de Freitas reúne vasta obra em verso.
É um poeta conquistado pela alma humana, um “cavaleiro andante” do soneto, do romantismo e da fé, gerado num tempo em que a poesia guardava uma atitude respeitosa, quase de reverência, para com o leitor.
Minha missão, aqui, julgo, é transmutar-me a outras épocas, outras em que o intimismo era deflorado sem piedade, para sublevar multidões e quase ensinar o leitor a refletir sobre as faces e fases diversas da alma humana, como em
Três Perversos
Este – num lance de maldade, nega
direitos a quem é merecedor.
Esse – na mente inconformada e cega,
inveja traz do alheio resplendor
Aquele – no pecado a que se entrega,
não gosta de seu grande benfeitor.
Dos três é vítima um leal colega,
cujo respeito em vão lhes quer impor.
No entendimento de real valia,
quem, nesta hipótese, o pior dos três?
Qual é dessas três almas a mais fria?
Alguém, a decidir com sensatez,
inveja ou injustiça escolheria?
Apontaria ingratidão talvez?
É o que, sem pejo, chamaria de lirismo filosófico. Amante arraigado do soneto, Eugenio de Freitas chega a ser enternecedor na sua busca por uma humanidade melhor. Um cultor do perdão, um pregador da Paz, um cantor umbilicalmente ligado às determinações de Deus, o poeta parece dominado por uma exasperação que o faz produzir intermitente, como se da poesia lhe dependesse a vida e parar o verso correspondesse a uma parada cardíaca: somente no livro Gorjeios são 308 sonetos, todos obedecendo a uma técnica impecável, a precisões métricas e exigências decassilábicas e alexandrinas, afinal, durante muito tempo exigência e apanágio de grandes mestres da literatura mundial.
Muitos foram os escritos sobre Eugenio de Freitas pelo país afora. O professor de Comunicação e Expressão, francês, latim e grego e membro da Academia Cearense de Letras, Edmilson Sousa Lima, dedicou-lhe A Água e a Pedra, ao ler seu livro Meus Sonhos em Rimas:
Li e reli co’a alma genuflexa
As ungidas tiradas de seu estro,
Onde encontrei destreza de um maestro
Na beleza da arte ali reflexa
Eu... seu mestre? Não sei onde se indexa
A diferença: canhoto ou dextro?
Que importa? Um só contexto nos anexa,
Onde me sinto tímido e canhestro.
A sua lira é como a cachoeira
Que corre morro abaixo sem canseira
E vai matar a sede aos oceanos;
A minha é como a pedra pequenina
Que cai no lago manso onde patina
Buscando o pensamento em seus arcanos
Um dito bíblico ensina que ninguém é profeta em sua própria terra. Não são poucas as vezes em que desconhecemos os sucessos dos que nos rodeiam. Eugenio de Freitas, se me parece, preenche essa assertiva. Sua poesia tem recebido encômios de conceituados beletristas dos mais diversos Estados do Brasil: Ceará, Rio Grande do Norte, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, dentre os que pude catalogar.
A respeito de um de seus livros escreveu Artur da Távola: “Jóia literária de fino lavor”. Sinésio Cabral, cearense, disse com todas as letras: “O exímio sonetista Eugenio de Freitas é o maior poeta vivo do Maranhão”. O escritor José Chamone, de Belo Horizonte, Minas Gerais, afirmou: “Quem compõe tão belos e perfeitos sonetos, quer decassílabos, quer alexandrinos, faz jus, efetivamente, ao título: Príncipe dos Poetas Maranhenses”. E Alberto Fernandes Bastos disse: “Você é um sonetista que poderia, sem favor nenhum, ombrear-se com o grande Bilac. Pelos poucos sonetos que li, constatei que você é perfeito na forma, no conteúdo e na originalidade”.
Trata-se, é evidente, de uma forma poética que tem so-frido, injustamente, uma espécie de expurgo por parte das novas gerações de poetas que não compreendem que sentimentos e palavras, como tudo o mais, vestem a roupa do tempo e se repetem em épocas estanques, vítimas do mimetismo da criação.
Veio do presidente da Associação Brasileira de Estudos e Pesquisa do Folclore, Lacerda Júnior, acadêmico titular de dez academias de letras nacionais e oito academias e organizações internacionais, associado à Casa do Poeta Maçom do Brasil e à Casa do Poeta de São Paulo, a idéia de instituir um concurso nacional de poesia, tendo por tema o poeta Castro Alves, com poesias que poderiam ser inéditas ou não, duas de cada autor. Num rasgo de inspiração, adotando o peculiar pseudônimo de Zíngaro, Eugenio escreveu o soneto Castro Alves, que logrou o 1º lugar no II Concurso Nacional de Poesia do ano de 2004, em São Paulo, capital, promovido pela Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas do Folclore, Casa do Poeta Maçom do Brasil e Casa do Poeta de São Paulo, conforme comunicado que lhe foi feito recentemente pelo próprio Lacerda Júnior.
Castro Alves
Castro Alves, um dos gênios da Bahia
– celeiro de ases de incomum talento –
brilha, ao olhar do julgador isento,
qual grande estrela, que do céu nos guia.
Da escola condoreira, em poesia,
aferretoa o proceder cruento
dos que mantinham no maior tormento
a raça que dinheiro lhes rendia.
Com sua pena abolicionista
revela, após “ESPUMAS FLUTUANTES”,
insuperável seu valor de artista.
Exemplo de impertérrito guerreiro,
idolatrado pelos estudantes,
glorificado pelo mundo inteiro.
Para constatar a verve romântica e a técnica apurada do poeta Eugenio de Freitas, que remete à poesia condoreira, o soneto Sem Retorno é inevitavelmente explicativo.
Sem Retorno
Eu era, em toda vida, perdulário
de crença, de afeição e de ternura,
até que em meu extremo itinerário
um dia te encontrei, formosa e pura.
Lancei-me, com arrojo extraordinário,
aos riscos de uma esplêndida aventura,
sem refletir, sequer, que meu fadário
a mim trouxesse penitência dura.
Ao cabo de alguns meses me fugias,
em me deixando claro teu desdém.
E as horas arrastavam-se vazias.
Com outras me iludi, assim também.
De minhas dissipadas energias
não tive um só retorno – de ninguém.
No primeiro concurso, vencido por Eugenio de Freitas, em 1985, era exigido que fosse soneto e que fosse inédito. Com o tema “Ideal”, o III Concurso Nacional de Sonetos, promovido pela Casa do Poeta Lampião de Gás de São Paulo, sagraria Eugenio em 1º lugar.
Ideal
Lutar com fé, em prol da causa justa
a que me entrego, há muito, noite e dia,
era isto exatamente o que eu queria,
sabendo embora quanto isto me custa.
Amo o perigo, a morte não me assusta;
de quando em quando, um mau me desafia,
sem conseguir vencer-me, todavia,
tão protegido sou da Mãe Augusta.
Almejo partilhar de um reino santo,
no qual, em meio a tanta luz, não sobre
espaço algum que determine o pranto.
Que eu trate, por igual, o rico e o pobre.
Que eu possa, enfim, se for preciso tanto,
morrer feliz por ideal tão nobre!
Pesquei em Billy Graham, pois que me sinto néscio em matéria de Teologia, o substrato para alcançar a fé e determinismo desse poeta constantemente às voltas com Deus. O escritor e pastor americano se pronuncia ante o ceticismo dos intelectuais com relação à Divindade. Escreve que “todos os homens gostariam de ser Deus, se lhes fosse possível; e alguns têm dificuldade em reconhecer essa impossibilidade”. Refere-se, ainda, ao que os gregos denominavam Ataraxia, a idéia de uma alma tranqüila, de profunda satisfação interior, que transcende inquietações, frustrações e tensões do viver diário. Este apóstolo entende que os homens estão desesperadamente desejosos de paz, porém que a paz de Deus não é a ausência de tensões, mas a paz que, em meio às tensões e tumultos, continua a existir. E isto infiro do soneto
A Volta do Cristo
Cada um de nós elege a própria sina.
Perto de má se vê pessoa honesta.
A norma do equilíbrio predomina:
não julgo exista lei maior do que esta.
Mas hoje o mal delira em plena festa,
enquanto o bem aos poucos se extermina.
Da crença antiga quase nada resta,
não se merece a Proteção Divina.
Por isso tudo, o fim do mundo aponta
incomplacente, como está previsto.
A humanidade permanece tonta.
Horrorizado, à punição assisto
das violências bárbaras, sem conta,
até que venha uma vez mais o Cristo.
E é aos cépticos que se dirige o poeta Eugenio de Frei-tas, quando se concentra nesta nave do terrorismo, bombardeios, suicídios e violências de todo porte, chamada planeta terra. O poeta escreve como se escrevia no passado, para refutar a falta de fé do presente. No entanto, sem medo do futuro. Como se, sendo também um intelectual, chegasse às mesmas conclusões do Dr. Roomaker: “não podemos entender a Deus perfeitamente, nem conhecer sua obra completamente”. A busca do verdadeiro ser humano, em Eugenio de Freitas, não se constata apenas em experiências místicas, nem naquilo que os intelectuais chamam de “nova consciência”, mas na fé.
Refutações
Só Deus conhece o que nossa alma sente.
Debalde esforças-te por encontrar
alguma explicação inteligente
da origem deste mundo singular.
Enganas-te ao supor que fatalmente
tua incerteza um dia há de cessar.
Não vês sequer, embora a tua frente,
o resplendor que ofusca teu olhar.
A Bíblia nos ilude? Não aceito,
de modo algum, a tese anticristã.
Quem poderá chegar a ser perfeito?
Não continues nesse penoso afã.
Não te palpita um coração no peito?
Ninguém descerra as portas do amanhã.
E eis que o surpreendo físico, matemático, literato, filósofo, astrônomo, a discipular a Ciência, para provar a existência de um ser supremo, utilizando-se de um dos principais argumentos para a inexistência de Deus: a
Evolução
As vibrações perpétuas da energia
não se renovam totalmente iguais.
Da altura, o próprio sol nos alumia,
às vezes menos, outras vezes mais.
A evolução contínua desafia,
e excede sempre, argúcia dos mortais.
Neste equilíbrio da cosmogonia,
tem-se a maior das leis universais.
À Mesa do Saber, Deus se alimenta,
e todos nós ficamos em jejum,
a resvalar dos erros na tormenta.
Por penitência, que nos é comum,
vamos à luta, perigosa e lenta,
até dos males não restar algum.
Se somos, ou não, apenas uma combinação de genes e cromossomos, a resposta deve estar nos cultos ou nos homens que professam uma religião qualquer. Se dermos à poesia, por alguns instantes, algum armistício, concluiremos que, em grande parte, ela não se origina de nada que possamos entender perfeitamente, não obedece a lógicas numéricas, não é prescrita por infusões químicas, não tem células, partículas, não pode ser atomicizada, mas explode.
Um soneto de Eugenio de Freitas pode ser a resposta que a humanidade inteligível espera para muitos conflitos e inquietudes, como sempre secundado pela fé e pelos ensinamentos de Jesus:
Ascensão
Imerge tua pena de escritor
na tinta de teu sangue especial,
para extrair do peito sofredor
todo o veneno de teu próprio mal.
Eleva um hino de perdão e amor
a quem se considere teu rival.
Ora por ele ao Cristo Redentor,
para que nutra um sentimento igual.
Transporta-te às estrelas do infinito,
na eterna busca do aprimoramento,
cuja escalada não te deixa aflito.
Teu contendor, ao te seguir atento,
com fé no Santo Deus, em que acredito,
há de propor-te a paz, que experimento.
Observe-se, ainda, que o soneto publicado na capa desta edição, sob o título Perante Minha Mãe Morta, foi escrito durante o velório da mãe do poeta. É singular, também, que não se tenha conhecimento de outros sonetos alexandrinos, de qualquer outro autor, que não contenham verbo explícito em nenhum dos 14 versos.
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