Anuário #03 - São Luís, 2005
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Eugenio de Freitas
Sedução
CHAGAS VAL: O código do vento ou manual do viajante solitário (I)
Editorial

Edição 95

Sedução

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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Se uma flor sentisse o
seu poder de encanto e se
inebriasse nas folhagens de
um rio ou se esquivasse da
leveza de um seio ou se
fechasse no silêncio da noite,
mas que atingisse a limpidez
de uma lâmina ou que se detivesse
no silêncio de um pássaro
ou se tornasse leve como a
leveza de um rio, mas que se
refletisse na limpidez de um lago.

Ah! esta flor seria pura em
face da beleza e caminharia
airosa pela superfície de um rio,
ou cantaria sinfonias de luar
e vento e traria nas mãos um arco-íris
e dançaria sobre as águas de um rio
e mais coisas inventaria como
brincar e dançar com o rio,
lavar as alvas águas das cascatas
e das fontes e saltar do arco-íris
e para a vaga e luminosa linha do hori-
[zonte.

Ah! se uma flor soubesse que
se ama a cor de seus olhos
e que tem um coração sensível
e lindo e que mais vida, se houvesse
e muito mais se amaria e
muito além para depois da vida,
porque não existe morte para
os que amam e só a eternidade
é muito pouco para certos
corações, quando o amor por
desigual partilha permite a uns
corações viver em agonia
só porque morta é a esperança,
e amar no caso é desrespeitar
até o nono mandamento e para
sempre Deus tenha pena de
mim e me dê a paz que procuro.

Ainda mesmo que não se escrevessem
versos, ainda mesmo que não
se ouvissem músicas, ainda mesmo
que eu amasse uma ruína manca,
mesmo assim eu jamais seria
espelho, mesmo assim eu jamais estaria
em Deus e buscaria os caminhos
de um rio como quem caça
um pássaro no escuro.

Ah! se uma flor sentisse o seu
poder de encanto e se inebriasse
nas folhagens de um rio ou se
esquivasse da leveza de um seio
ou se fechasse no silêncio da
noite mas que se detivesse no
silêncio de um pássaro ou se
tornasse leve como a leveza de
um sonho.

Ah! essa flor seria pura em face da
beleza e caminharia airosa
pelas águas de um rio e cantaria
sinfonias de luar e vento,
traria nas mãos um arco-íris e
suas cores resplandeceriam
em um sonho todo feito de harmonia
e esperança – e eu cantaria
essa flor silenciosamente.

Mas ainda que eu ficasse mudo e cego
no apartamento e não se produzissem
pássaros ou não se ouvissem
músicas do piano mudo; mesmo
assim eu jamais seria puro, mesmo
assim eu seria fiel à palavra dada,
mesmo assim jamais amaria uma
ruína trôpega.

[...]
Mesmo que tudo se tornasse branco,
mesmo que nada produzisse música,
mesmo que alguém me escrevesse
cartas, mesmo que eu amasse uma
ruína trôpega.

Um sonho em nuvens planaria alto.

E essa flor seria uma invenção
no espaço ou talvez uma construção
de nuvens – ou seria uma invenção
de vento ou talvez uma solução
mais fácil para um amor que
é treva na escuridão do tempo.

Ainda mesmo que se inventassem
nuvens, ainda mesmo que se produzissem
pássaros, ainda mesmo que se ouvisse
música, ainda mesmo que se colhesse
água, ainda mesmo que se ferissem
os olhos, mesmo assim eu jamais
seria espelho, mesmo assim ninguém
jamais povoaria os mares nem talvez
se desenhassem uns pássaros...
mesmo assim eu jamais seria
espelho, mesmo assim eu jamais ficaria
neutro, mesmo assim eu jamais
seria puro.

Porque o amor é um inútil desassossego
porque amar é como se
perder os olhos ou as mãos e
quem ama vive feito um cego e segue
pela imensa planície dos sonhos
na esperança de que haja
o milagre, e a flor de lótus
produza um rio que não seja
o Nilo – essa flor sonhará
com o que tens nos olhos –
e dela bem longe ficaria e me afastaria
como quem reza nos brancos
altares das catedrais do sonho
das inexistentes catedrais do
mundo, quando penso dizer-te
amar-te é quase morte, ou
má sorte de quem mais
merece sentir talvez uma
intermitente e teimosa
dor de dente.


(Val, Chagas. O Código do Vento. São Luís: Lithograf, 2004, p. 73-77)
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