Anuário #03 - São Luís, 2005
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Eugenio de Freitas
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CHAGAS VAL: O código do vento ou manual do viajante solitário (I)
Editorial

Edição 95

CHAGAS VAL: O código do vento ou manual do viajante solitário (I)

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
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O Código do Vento é um livro definitivo e diferenciado, tanto no contexto da obra literária de Chagas Val, quanto no contexto das Literaturas Maranhense, Brasileira e Portuguesa, tomando-se por base o que se vem construindo a partir dos anos 40 aos dias atuais, no campo específico da poesia lírico-amorosa.

Em O Código do Vento, Chagas Val relê seus livros precedentes, reconhecendo-lhes o valor e, ao ultrapassá-los, resgata-os. Assim, O Código do Vento é um marco de coroamento da carreira literária de um poeta solitário, de alguém que se isolou em exílio, para poder ver e viver o mundo de maneira mais visceral e verbal. Por isso e por outras razões, com este livro ele demarca seu lugar ao lado dos maiores, poucos, que exerceram ou exercem o gênero lírico-amoroso.

Maduro, pleno, despojado, ousado, audacioso, consciente do fazer literário, Chagas Val abre o jogo sobre o que pensa a respeito do que seja essencial na vida de um ser humano, o amor, a libido.

Sem hipocrisia, celebra com belíssimos poemas a Ars Amatoria, de Ovídio, possivelmente a primeira obra literária sobre o amor, depois do Cântico dos Cânticos, de Salomão, e das Odes, de Safo.

Condutor de poesia erótica de altíssimo nível, nele se inflama uma linguagem de alta voltagem.

Estamos, portanto, diante de um texto novo no panorama literário maranhense, que inaugura uma nova fase no contexto da literatura nacional, em termos de poesia lírico-amorosa.

Chagas Val é um poeta que relê o legado passado, atravessa milênios e séculos e chega à época contemporânea com uma visão existencialista sobre o que seja o amor, que impressionaria Sartre.

Sua visão sobre o amor tem origem em Salomão, passa por Camões e desemboca em Rilke.

Também Chagas Val é um dos raros talentos da linguagem velada ou encoberta sobre a poesia erótica, no Brasil. Foge radicalmente à vulgari- dade e aos lugares comuns. Recusa-se a ser o emblema do globalizado.

A Linguagem

Chagas Val usa uma mesma palavra inumeráveis vezes, mas sempre com uma segunda intenção. Ele busca estabelecer uma tensão contínua e imutável entre significante e significado.

Para ele, o significado se opera no plano metafórico por contigüidade e similaridade. Quer dizer, ele faz com que uma coisa concreta (rio, pássaro, mesa, espelho ) não corresponda ao pé-da-letra aos seus correspondentes semânticos imediatos. Ou seja, sempre estará evocando outra coisa oposta no plano real. Para ele, curso-d’água, ave, utensílio doméstico, reprodutor de imagem são pretextos para que possa debruçar-se sobre seu universo onírico, estabelecendo correlações surrealistas, que apontam para outras leituras, que poderão ser decifradas nos textos que ele assina em O Código do Vento.

Em outras palavras, para ele a Semiótica é apenas um pretexto coe-rente (e não o mais importante veículo da sabedoria poética) para poder exercer a incoerência, ou o viés da Semântica que possibilita a distinção entre poesia e objetividade.

É esse exercício que o torna um poeta singular porque, logo de saída, se percebe que ele está propositalmente fora dos padrões convencio-nais, como se estivesse blefando a normatividade gramatical.

Sua linguagem poética é inovadora, porque tangencia para o monólogo interior, a partir da introspecção psicológica, privilégio de raros assinalados bem sucedidos.

Nele, o toque surrealista aflora dos dados imediatos do consciente com uma vertiginosidade estonteante.

Exemplos típicos desse cavalgamento são os textos dos poemas Ro-sinvento, p.43-48; Luminosidade, p.49-50; Errância, p.55-58; Cópula, p.65-66; e Sedução, p.73-77. Estes poemas serão assunto de análise da próxima edição.

Poucos poetas brasileiros e portugueses já se arriscaram com sucesso por esses meandros do engendramento do texto.

Pensaríamos em Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima; Os telhados, de José Chagas; Poema Sujo, de Ferreira Gullar, e Pão Maligno com Miolo de Rosas, de Nauro Machado.

Chagas Val é um escritor, cujo texto possibilita dialogar, tanto com um poeta clássico como Camões, quanto com poetas modernos, como Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade ou Rainer Maria Rilke. Mas essa re-leitura, no mais expressivo aspecto paródico, vem num tom de homena-gem àqueles poetas aos quais admira, por alguma razão especial, com os quais tem afinidades eletivas e temáticas. Por isso, ao apossar-se de pequenos trechos de discursos poéticos matrizes consagrados, Chagas Val os desconstrói e os reelabora, incorporando-os, às avessas, ao seu próprio discurso, dando-lhes uma dicção personalíssima. Ele tem um olhar pós-moderno antenado com as melhores conquistas poéticas contemporâneas.
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