Data de Publicação: 28 de novembro de 2005

Abbas KiarostamiA simplicidade é a principal característica do cinema iraniano. O uso de atores não profissionais, a ausência de movimentos de câmera mais ousados, a despretensão das histórias narradas que retratam o cotidiano das pessoas daquela região tão sofrida, asseguram um tom de registro documental. Pode-se dizer, ainda, que esses elementos remetem ao movimento neo-realista italiano, sendo essa sua principal influência.
É no meio de tanta aridez que reside o lirismo do cinema iraniano e o espectador é agraciado com imagens belíssimas, sinceras e poderosamente rarefeitas, capazes de tocar nossa sensibilidade no âmago.
Não nos iludamos com a suposta despretensão, pois aliada à mesma reside uma técnica de filmagem extremamente refinada e uma sutileza onde o filme transita facilmente entre a ficção e o documentário de maneira magistral.
Outro aspecto relevante do filme é o uso recorrente da metalinguagem como em Através das Oliveiras, em que Hossein, o ator protagonista, refaz uma cena seguidas vezes, ‘apenas’ por ele trocar o número de mortos que informa a um vizinho.
Ele deveria dizer ‘65’ (parentes seus que foram mortos no terremoto). Mas, como ele perdera em torno de ‘vinte pessoas’, e não ‘65’ como pretende o diretor, ele não consegue dizer. Assim, percebemos aí uma intenção de direção em aproximar a ficção de um documentário ou o contrário, já que o mote começa com a cena, enquanto ficção, confundindo ou informando o espectador da proximidade real do cinema à realidade como reprodução da vida, onde os atores representariam o papel de si próprios.
A cena então é repetida e vamos sendo confrontados, com planos rarefeitos em sua composição cenográfica, mas saturados em significações. A consciência na simplicidade e sutileza de sua forma é marco no cinema mundial, pois remete o espectador ao que Bernadet (Caminhos de Kiarostami) chama de estética relacional, isto é, aquela em que a responsabilização do espectador sobre a significação da obra de arte é determinante.
Eles, os iranianos, são apaixonados pelo cinema e, vez por outra, podemos nos surpreender, vendo-os na telona como protagonistas, como no próprio Através das Oliveiras ou em Salve o Cinema, de Mohsen Makmabalf, em que o povo iraniano é convocado a fazer testes para atuar num filme novo do citado e conhecido diretor.
A surpresa dos candidatos a atores é tamanha, quando são informados de que seus testes foram aprovados e que eles, tal como estão, já são considerados cenas do filme, isto é, que foram atores no momento em que fizeram o teste, que constitui o filme num making of.
O que estamos vendo na verdade é a feitura de um outro filme e, dessa forma, a realidade é manipulada impressionantemente e nos deparamos, de repente, com um set de filmagens, equipe técnica e todo seu aparato. Podemos visualizar essa faceta do cinema iraniano também no filme O Espelho, de Jafar Panahi, no qual uma menina já sozinha na escola espera sua mãe que não chega; a menina, aturdida, resolve voltar sozinha para casa e pega um ônibus. Ali, de repente, a menina começa a chorar e a dizer que não quer mais filmar nada. Escutamos o diretor gritar: “Corta!”. E, então, toda a equipe aparece no filme tentando convencer a menina voltar a filmar. Enquanto isso, uma câmera, obviamente, permaneceu ligada, para que percebamos o ‘jogo documental’, sem a qual não poderíamos ver o filme. É realmente impressionante.
Bem, mas vamos ao ponto principal desta matéria ao qual queremos chegar. A cinematografia do Irã tem conquistado o mundo e ocupado um lugar de destaque em terras brasileiras. Podemos confirmar tal informação com a homenagem prestada ao cineasta iraniano Abbas Kiarostami pela 28ª Mostra Internacional de São Paulo, quando, além de uma retrospectiva da obra do diretor, o mesmo proferiu palestras e ministrou cursos e oficinas, havendo ainda uma exposição de fotos de autoria do diretor iraniano. Na ocasião, foram lançados livros sobre sua obra como Caminhos de Kiarostami, do crítico francês radicado no Brasil, Jean-Claude Bernadet, editado pela Companhia das Letras e Abbas Kiarostami, da editora Cosac & Naify.
Não era difícil vê-lo circulando pelo hall do cinema do Conjunto Nacional interagindo com as pessoas. O curso de cinema da FAAP (Fundação Armando Álvarez Penteado) o recebeu com entusiasmo, e lá ele ministrou uma aula magna para os afortunados alunos.
DEZA situação da mulher iraniana é muito delicada, não há dúvidas quanto a isso. E essa é a matéria prima de Dez, último filme de Abbas, (feito com câmera digital, assim como ABC África).
A idéia original do filme surge de uma notícia de jornal: Uma psicanalista tem seu consultório lacrado pela justiça, em decorrência de denúncia de uma paciente, que afirmava que ela teria influenciado em sua decisão de separar-se de seu marido. Ao chegar outra paciente a psicanalista diz que não poderá atendê-la, mas ela entra em crise de choro e insiste na sessão. As duas vão para o carro, mas um policial as aborda dizendo que não é permitido que pessoas permaneçam num carro parado no estacionamento. Então, a sessão se dá com o carro em movimento.
Dividido em dez blocos, cada um indicado com um número correspondente àquelas imagens de contagem regressiva em que um ponteiro dá uma volta completa, em todos os blocos, uma mulher é a protagonista que segue dirigindo um carro, ora levando o filho de aproximadamente dez anos para a casa da sua avó; ora dando carona a uma senhora, a uma prostituta ou a uma moça que perdera o namorado. Aliás, este é o melhor momento do filme, em que lembramos da tão comum genialidade do diretor, pois tímida e imageticamente a atriz apresenta seu drama. Já o filme, em quase Dez blocos, não encanta nem impressiona o espectador. Irrita-o. Um dos elementos que contribuem para isso é o garoto, tipo arrogante, filho da protagonista. Não resta dúvida que trabalhar temas (prostituição e submissão femininas) tão delicados para um país como o Irã, foi uma ousadia que vale elogios. Contudo, dentre os muitos filmes de Abbas, não consigo imaginar onde encaixar Dez, em termos não de tema ou forma de filmar, etc., mas de qualidade como produto visual, como obra de arte, do cuidado com a fotografia ou com os atores, por exemplo.
A impressão que temos é a de um Road Movie de um Big Brother, pois há duas câmeras que permanecem paradas em relação ao carro, já que elas estão presas, de modo a filmarem uma motorista; e, a outra, o passageiro: um passeio, infelizmente, nada confortável.
Nascido em 1940, Kiarostami estudou Belas Artes na Universidade de Teerã e trabalhou como designer e ilustrador até 1968, quando fundou o Departamento de Cinema no Centro para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens.
A partir de então, teve início sua carreira cinematográfica, começando com o curta-metragem neo-realista O Pão e o Campo (1970). Ao longo de sua carreira produziu mais de 30 filmes, como os curtas-metragens O Descanso, A Solução Número Um, O Coro e os longas Onde Fica a Casa de Meu Amigo?, Vida e Nada Mais (E a Vida Continua...) Close-Up, O Vento Nos Levará, Através das Oliveiras, ABC África e Dez.
No 50º Festival de Cannes, o cineasta ganhou a Palma de Ouro com o filme Gosto de Cereja.
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