Data de Publicação: 28 de novembro de 2005

Foliões do Bloco Vira-LataFoliões do Bloco Vira-LataComo tintas no rosto encharcado de suor, as lembranças de carnavais pas-
sados vão-se decompondo com o tempo. Mas alguma coisa ficou retida à altura do coração e, reincidente, se insinua ao menor apelo, devolvendo imagens e sons, como o burburinho em torno dos chamados blocos tradicionais, que marcaram a adolescência da minha geração nos anos 60.
Alguns desses blocos já pareciam crucificados pelo passado, como o Vira-Lata, o Coringa e o Pif-Paf, entre outros que vi e ouvi falar, passando a fazer parte de um baú de fantasias. Era preciso um registro, sobretudo, pela importância que tiveram os grupos mais antigos na concepção do samba maranhense.
BONS TEMPOS
O escritor Carlos de LimaFoi com surpresa e alegria que, numa manhã chuvosa de 1999, recebi a visita inusitada do escritor e folclorista Carlos de Lima em minha casa, na Forquilha, depois de atravessar enxurradas dirigindo bravamente um fusquinha. Queria me mostrar no papel seu projeto de gravar músicas de alguns blocos dos anos 30 e 40, ouvir minha opinião etc.
No ano seguinte, o projeto se transformou no CD Carnaval dos Bons Tempos (1), onde foram registradas dez músicas de quatro compositores desse período: Raimundo Fidélis, Duquinha Furtado, Jorge Meireles e o próprio Carlos de Lima, autor do “Hino do Bloco Coringa”, entre outros sambas.
Coringa é o do baralho,
essa a verdade que eu sei,
e a Dama, a Dama que é muito boa,
deixa o rei que tem coroa
pelo Coringa, que é rei. (...)A princípio, os instrumentos utilizados pelos blocos tradicionais eram violões, cavaquinhos, tamborins, pandeiros, saxofones e flautas.
Surge então um tambor (atual contratempo) bolado pelo folião Ruy Habibe, do bloco Vira-Lata, a partir de tubos de madeira que serviam de embalagem às folhas de zinco vendidas nos armazéns da Praia Grande. Esses tubos eram recobertos com couro de cobra.
Mais tarde os surdos e contratempos passaram a ser feitos de compensado, aumentaram de tamanho e receberam peles de bode e de carneiro, sempre pintados com motivos e cores dos blocos. Cordas e sopros foram desaparecendo aos poucos, enquanto se fixavam outros instrumentos: retinta, frigideira, sino (agogô), cabaça, afoxé, triângulo e reco-reco.
“O certo é que essa simbiose de criatividade e musicalidade fez surgir nessa época uma nova e diferente maneira de brincar o carnaval, única no País”, registra o pesquisador Valdelino Cécio no encarte do disco, lançado no final de 2000. Entre os homenageados, Jorge Meireles, do bloco Coringa, autor de “Couro de Cobra”:
Se você quer saber
como fiz o meu surdo,
eu vou contar.
Ele era um couro de cobra
pendurado na parede
do meu lar. (...)center>
Jorge também compôs os sambas “Seja Tudo Brasil”, “Baralho” e a inte-ressante marchinha “Sapo, Pula, Pula”, interpretada no CD Carnaval dos Bons Tempos, pelo compositor Chico Maranhão.
Por sua vez, o Vira-Lata, fundado em 1933, granjeando fama em São Luís pela sua criatividade e por ter introduzido o fofão como fantasia de bloco, teve o seu Hino composto por Duquinha Furtado:
Saímos pra mostrar nossa bandeira,
há muitos anos que nós temos união.
Salve a mocidade Vira-Lata!
Como não?
Quem fala de nós tem paixão. (...)
Como muitos desses blocos, sucedâneos dos cordões e ranchos, o Vira-Lata era considerado “de elite”, por ser integrado por cadetes de famílias abastadas, comerciantes e altos funcionários públicos. Freqüentavam clubes sociais como Casino, Lítero e Sírio-Libanês, mas tinham veia boêmia.
“O Vira-Lata reunia-se na pensão da Madame Chicó, onde atualmente é o Arquivo Público do Estado, na rua de Nazaré, e partia das proximidades do Cemitério do Gavião, para percorrer todo o centro da cidade...”, registra o historiador Ananias Martins. (2)
É importante registrar ainda no CD Carnaval dos Bons Tempos o pitoresco samba “Sereia”, de Raimundo Fidélis, conceituado desenhista do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem:
Eu encontrei na Ponta d’Areia
Uma sereia de maiô azul,
Perguntei como era seu nome.
Disse que era Teresa,
Vinha dos Mares do Sul. (...)
Muitos blocos iriam surgir depois dos antigos Vira-Lata, Coringa, Sentenciados, Cadete da Lua e Oba-Oba, como o fascinante Boêmios do Ritmo, que trazia entre seus compositores os já falecidos Othon Santos e Jorge Barros, integrantes da Dupla Ponto e Vírgula, um sucesso nos programas de rádio de então.
QUEDA DE BRAÇO
Ali no bairro de São Pantaleão, entre o Beco das Minas e a rua de Santiago, dois blocos também fizeram história nos anos 60 e 70: Conscientes do Ritmo e Mal-Encarados. A disputa entre eles era o deleite das torcidas, gerando uma grande expectativa quanto à fantasia do ano, o samba novo e os breques criados para a batucada.
Reinava no período pré-carnavalesco um ar de mistério, a ponto de se redobrarem os cuidados com os olheiros, ou espiões, que pudessem se infiltrar na sede de uma ou de outra brincadeira, para que seus segredos e criações não fossem revelados antes da hora, ou melhor, do Sábado de Carnaval.
Nesse dia as corriolas iam para as esquinas cedo, sabendo que a qualquer momento um ou mais componentes dos dois blocos iriam passear “distraidamente” rua acima e abaixo, emperi-quitados nas suntuosas fantasias de seda, lamê, veludo ou imitação de astracã para impressionar o contrário, provocando verdadeiro alvoroço.
Só faltava ver a saída para os locais de desfile – na praça Deodoro e na João Lisboa – e, com um pouco de sorte, presenciar o encontro dos dois numa rua qualquer, quando iriam medir força e concentração. Ou seja, passar um pelo outro sem perder o ritmo ou desafinar o samba.
As mãos subiam altas para bater nos surdos e contratempos, as cabaças flutuavam e as retintas “só faltavam falar”. Era um momento mágico, mas preocupante. Quando dois blocos se encontravam, qualquer provocação poderia resultar em briga generalizada, com fantasias destruídas e plumas voando.
Geralmente, a queda de braço se dava através da música e da poesia, sempre com base num argumento original, escolhido para surpreender o adversário, como este samba que o compositor Eudes Silva Américo fez para o Conscientes em 1965, ano em que o bloco saiu fantasiado de Carcará:
Sob este céu azul
vim desfilar vestido de carcará.
A minha fantasia simboliza
uma ave sem igual,
pretendo brilhar no Carnaval.
O meu samba é poema, é canção,
trago alegria dentro do meu coração.
Eu sei que este ano
a justiça se fará presente,
só ganhará quem melhor se apresentar.
Eu sou Consciente.
Mas depois de vários entremeios, um fato inusitado ocorreu no concurso carnavalesco de 1967, colocando lenha na fogueira: o bloco Mal-Encarados ficou empatado em 1º lugar com o Conscientes do Ritmo, cujos dirigentes, não satisfeitos com o resultado, teceram ruidosas críticas ao adversário, que também não guardava almoço para a janta.
A resposta veio através de um samba do compositor Eudes, que já havia pedido asilo político nas fileiras do Mal-Encarados:
Você deveria se orgulhar
do gesto que eu pratiquei.
Foi uma concessão que eu abri
ao deixar um vassalo igualar-se a mim.
Eu ainda sou o rei,
minha coroa é intocável.
Você que se diz um vassalo “consciente”
deveria beijar os meus pés
só de contente.
Foi o pretexto para um arranca-rabo sem tamanho quando esse bloco passou cantando o samba em frente à sede do Conscientes do Ritmo na terça-feira de carnaval. “Foi uma coisa medonha, eu fiquei de longe. Parecia briga do boi da Maioba com Iguaíba”, conta Eudes.
Troféus e instrumentos espatifavam-se no chão. Porém, sem vítimas fatais, os ânimos se acalmavam e logo se festejavam as conquistas, enquanto novas surpresas iam sendo arquitetadas em segredo para o ano vindouro, até que os dois blocos desaparecessem no início da década de 70.
É esse tipo de brincadeira que ainda hoje, apesar da grave segregação sócio-cultural, mantém a diversidade do nosso Carnaval e faz com que os velhos foliões voltem a tanger a saudade dos bons tempos, nas décadas de 30 e 40, quando São Luís – cúmplice de uma boemia inspirada – era mais humana e as máscaras eram só fantasia.
“Ladrão? Um só, o Pé Gordo! Comunista? Maria Aragão! Ainda se pu-nham cadeiras na calçada para jogar gamão e falar da vida alheia (...) Saudade de mim mesmo” (3), emociona-se Carlos de Lima, um coringa que sobreviveu para resgatar algumas cartas abandonadas no bolso do Momo.- Próximo texto:
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