Data de Publicação: 28 de novembro de 2005

Chagas Val em O Código do Vento é um exemplo típico do poeta que conseguiu chegar a um nível de linguagem de poesia moderna que corresponde aos anseios de quantos, desde 1922, lutam, nem todos com completo sucesso, por escrever um discurso poético o mais livre das convenções das escolas literárias, sem cair em clichês, xerocópias ou papéis carbonos. Sim, a poesia em estado puro, livre de normas, pulsando espontaneamente, sem qualquer sinal de retrocesso,
Ou cantar na solidão o amor
quase impossível, o casto amor
dos que se querem mas não se tocam,
apenas se procuram em silêncio
como se pedissem a Deus um pouco
de ternura para aquecer o próprio
coração
(VAL, Chagas. O Código do Vento. São Luís: Lithograf, 2004, p. 48) Para chegar a esse texto em que o mais importante é a linguagem, ou seja, a poesia em si mesma, Chagas Val, como Nauro Machado ou Ferreira Gullar, optou por um recurso estético que dá dinâmica ao poema, o cavalgamento,
Porque o amor é um inútil desassossego
porque amar é como se
perder os olhos ou as mãos e
quem ama vive feito um cego e segue
pela imensa planície dos sonhos [...]
(VAL, Chagas. Op. cit., Sedução, p. 77)Outro recurso que percorre os poemas de O Código do Vento e que é um dos elementos centrais da poesia moderna constitui a metalinguagem. Está bem transparente que, na escrita de Chagas Val, é a linguagem quem comanda tudo, ou melhor, a linguagem é o protagonista dos poemas, já que, ao longo de todo o livro, ela é quem fala, quem dá as cartas ao contar a história da evolução de si mesma e de sua libertação de cânones e códigos clássicos, livre, solta, descomprometida. Some-se a esse processo uma boa dose de aliterações, sinestesias e neologismos. Mas, ao final, as situações acabam como pretextos para que o poeta salve a poesia da mesmice, ao transitar por caminhos metalingüísticos que resgatam as melhores conquistas da linguagem poética do século XX:
Uma rosa é cheia de prosa e passeia airosa
pela tarde, uma rosa macia na leveza
de um rio uma rosa leve na maciez de um
[pássaro,
uma rosa risonha e fluida, uma rosa assim
para cor-de-rosa, branca, cor-de-rosa, branca
mas que não seja linda e branca, que não
seja uma rosa limpinha nem límpida como
um espelho, a rosa seria rósea, rosácea
a roer os rios e os riachos, a rasgar as roupas
[de uma rainha,
rosnando, rindo, roendo as margens de um rio,
[...]
(VAL, Chagas. Op. cit., Rosinvento, p. 43-44)Outro recurso de que se vale Chagas Val, para que sua poesia flua sem os embargos da razão, é o monólogo interior, que permite ao poeta, transitar livremente pelo fluxo da memória, construindo-se o texto como que autonomamente, quase que mecanicamente, ficando, nesse estágio de consciência da introspecção psicológica, as regras de gramática, como sinais de pontuação, por exemplo, em segundo plano,
[...] o amor termina onde não
houve início nem no começo dos sonhos e da
[esperança
dos que permanecem à beira de um caminho
[como
se houvesse o caminho azul, o azul caminho
através do qual caminham os seres solitários
[e tristes que
não aprenderam as voltas do caminho,
[quando o
caminho volta a ser o mesmo caminho dos
[que voltam
e vêem as curvas do caminho, no caminho
[em volta
dos caminhos solitários, desses caminhos
[de outros
caminhos, que cabem dentro das mãos
[oferecidas,
[...]
(VAL, Chagas.Op. cit., Errância, p. 56) Esse monólogo interior se constrói de maneira ininterrupta, quase sem pontuação, sem vírgulas, no limite do absurdo, como se fruto da insanidade, mas que tem a beleza das chuvas torrenciais, dos coitos ininterruptos, das águas caudalosas, velozes, de uma mobilidade, cujo veículo principal, ao qual se atrela o inconsciente, é o enjambement.
Daí por que estamos diante de um poeta que é portador de uma nova mensagem, porque é aquele que, em meio a outros poetas, manipula uma linguagem diferenciada, contraditória, desfamiliarizada, desenraizada. É aquele que nos toca e surpreende por aqueles traços que mais definem a moderna poesia, o imprevisto e o inesperado a driblar o óbvio. Os códigos dele são outros em relação aos da maioria. Ele é, então, visto como um poeta estranho, um peixe fora d’água, porque é nessa condição que a opinião pública e, às vezes, a crítica, deixa, durante algum tempo, os verdadeiros poetas.
Uma coisa são as palavras. Outra é como as mesmas palavras estão ordenadas nos mecanismos das mentes de distintas pessoas, distintamente, e desta ou daquela em particular. De como estas são acessadas, conforme o inconsciente de cada individualidade.
É incrível como diversificada ou diferentemente cada pessoa, conforme seu estado de espírito, significa idênticas situações, percepções, sentimentos e como também reage.
Cada uma tem reações psíquicas que, embora iguais no geral, são diferentes nas particularidades. É por aí que se pode estabelecer a diferença entre um poeta e um mero versejador.
Um outro dado importante a observar na poesia de Chagas Val é a pista que ele nos dá sobre a sua simpatia com o recurso que há de mais emergente na modernidade, a intertextualização.
Quando um poeta atinge a fase madura, atinge também a fase da sabedoria, portanto da simplicidade. Não esconde suas preferências e até faz questão, inclusive, de declarar quais são as suas predileções, quais as suas leituras mais apaixonadas, quais os poetas com os quais dialoga com mais freqüência. Assim, vemos o poeta dialogando com Ferreira Gullar, por exemplo, num poema em que este faz a mesma indagação do menino-poeta perplexo diante de um mundo em que se percebe, mas não sabe, como se situar nele,
Que procurava um menino na
vertigem da manhã,(...)
(VAL, Chagas. Op. cit., Infância, p. 89)
[...]sozinho na tarde no planeta na história
arrastando camarão
com um cofo de palha
quê
que eu buscava ali?
(GULLAR, Ferreira. Poema Sujo, Toda Poesia, p. 242-243)
E adiante,
[...] eu era apenas um garoto
tentando compreender o mundo
e o sentido das coisas (...)
E eu ficava à margem do rio,
à margem do mundo. Não havia
resposta. Para mim, nas minhas
primeiras provações, meu Deus, que
sentido tinham as coisas se nem em
mim e no que eu fazia eu via qualquer
sentido?
(VAL, Chagas, op. cit., p. 90-91)
[...] que é que eu buscava ali
caminhando pelos trilhos
à toa
[...] Que me ensinavam essas aulas
de solidão
entre coisas da natureza
e do homem?
(GULLAR, Ferreira. Op. cit., p. 243) Outra referência que Chagas Val faz a versos de Ferreira Gullar, também sob a forma de releitura, vem a propósito do Poema Sujo, em sua parte final,
[...]
O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade
mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
[...]
(GULLAR, Ferreira. Poema Sujo. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A., 1976. p. 101) Chagas Val é pleno e aberto ao diálogo quando permite aos seus textos lerem outros textos em visitações, referências, releituras, homenagens, mas sempre do ponto de vista da desconstrução do discurso dos poetas que relê, sempre problematizando, subvertendo, pois o poeta está disposto a não ser preguiçoso. Faz a sua própria leitura e oferece uma versão inusitada do arquétipo que o iluminou a transgredir, essa maneira admirável de ousar, tão benéfica para o poeta inspirador e tão reciprocamente eficaz para o poeta inspirado. Assim, o poeta faz a sua versão, a sua tradução das situações em jogo. Sabe que é preciso identificar os parceiros ao longo da viagem da maturidade, quando é hora de agradecer pela ventura de haver, na adolescência ou na juventude, deparado com este ou aquele livro de Fulano, Sicrano ou Beltrano. É a partir do reconhecimento de que houve essas conversas que surge o verdadeiro poeta, autêntico, generoso, audacioso, desenraizado, desfamiliarizado tal qual os que tem orgulho de citar,
[...]como
uma coisa em outra cousa
qual dois corpos que se enrolam
no vento: um corpo por dentro
de outro corpo como uma raiz
rachada, mas encaixada em
outra raiz e sempre assim: um
corpo sobre outro corpo que são
dois corpos encaixados até
chegar a hora de se desenroscarem
e serem então uns corpos desencaixados,
[...]
(VAL, Chagas.Op. cit., p. 65-66)Daí para frente o diálogo de Chagas Val se fará cumulativamente com Ferreira Gullar, Oswaldino Marques e Bandeira Tribuzi
[...]
que se fundissem como
se fossem livres para
quaisquer jornadas como
se fossem as roscas
dentro das roscas de um
modo tão estranho
que seria impossível
desenroscarem-se os corpos
numa permanente cópula
como uma raiz rachada, encaixada
em outra raiz perfeitamente assimilável,
exatamente ajustável no suave enrosco
do enleio amoroso
ou do carinhoso enlevo.
( VAL, Chagas. Op. cit., Cópula p. 65-66)
Vejamos esta releitura ou versão moderna do Soneto Nº 3 de Camões, através de Oswaldino Marques,
[...]
A aspiração do amante é afeiçoar
O próprio ser à imagem do que ama:
Entrançar-se em teia tão unida
Que só se pode apartá-la, lacerando-a;
Dobrar vigília e sono em um só novelo
Para tecer o linho dos amplexos;
Enredar-se indiviso um no outro
Como a textura da rama nos vinhedos.
Triunfar capitulando;
Cair alçando-se;
Convalescer desenganado;
Viver embriagado em temperança;
Dar-se ao desregramento por dieta.
(MARQUES, Oswaldino. Cravo Bem Temperado. Rio de Janeiro: Edição Revista Branca, 1952. p. 11-15.)
Camões,
SONETO 3
Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma tranformada
Que mais deseja o corpo de alcançar?
[...]
(MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa Através dos Textos. São Paulo: Cultrix, 2002. CAMÕES, Soneto nº 3, p. 84.)O poema de Chagas Val, em questão, tem a ver também com o Meditação da Ponte, Tropicália Consumo&Dor, de Bandeira Tribuzi. Vale a pena conferir esta obra já citada no Anuário II Guesa Errante.
Enfim, nenhum poeta que optasse pelo alto risco da poesia lírico-amorosa, passaria ileso, se não intertextualizasse Camões. Razão por que Chagas Val traz de volta à cena a Poética, de Aristóteles, em sua tese camaleônica ou mimética, quando relê o soneto nº 1, cujos personagens são Jacó, Labão, Raquel e Lia,
[...]
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
(CAMÕES, Soneto Nº 1, in MOISÉS, Massaud. Op. cit., p. 83)
[...] e que mais vida, se houvesse
e muito mais se amaria e
muito além para depois da vida,
porque não existe morte para
os que amam e só a eternidade
[...]
(VAL, Chagas, op. cit., Sedução, p. 74)
Eis uma releitura tão belamente fascinante, que põe o poeta Chagas Val no cerne da intertextualização,
[...] quando o amor por
desigual partilha permite a uns
corações viver em agonia
só porque morta é a esperança,
[...]
(VAL, Chagas, ibidem, p. 74 ) Na época em que viveu Camões, já havia intertextualização. Por exemplo, no Soneto Nº 1, ele toma como mote um verso do poeta italiano Petrarca, Per Rachel ho servito e non per Lia. Petrarca, por sua vez, já parafraseou a Bíblia.Conferir Gênesis, XXIX, 25. O Soneto Nº 3 e o de Nº 5, de Camões, respectivamente, também têm motes tomados por empréstimo a Petrarca, L’amante nell’amato si transforma e Questa anima gentil che si disparte.
A diferença entre lá e cá está na seguinte proporção: No século XVI, era comum a imitação. Hoje, ao contrário, como é o caso de Chagas Val, o poeta faz uma releitura, dando a sua versão de qualquer tema ou assunto que desenvolve, a partir de uma obra preexistente.
Citemos um exemplo típico,
[...]
Ainda que eu falasse a língua dos anjos
sem amor, eu nada seria.
[...]
(DE TARSO, Paulo. Bíblia Sagrada, 1 Coríntios 13, 1, 1. São Paulo: Edição Pastoral, 2004, p. 1474)Ao que Chagas Val problematiza, usando a concessiva e o verbo no imperfeito do subjuntivo,
[...]
Mas ainda que eu ficasse mudo e cego
no partamento e não se produzissem
pássaros[...]
(VAL, Chagas. Op. cit., p.75)
Estamos diante de um poeta maduro que transita por outra via de leitura, com a consciência plena do que seja o legado poético.- Próximo texto:
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