Anuário #03 - São Luís, 2005
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A Fome de Maria
Editorial
Galeria de Anônimos Ilustres
Uma volta no Lado Selvagem

Edição 99

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Data de Publicação: 28 de novembro de 2005
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Quando ele fala, a sinceridade se vai manifestando e confirmando – no tom de voz (que não trai o sentimento que parece fluir do íntimo do seu Ser) e no olhar franco (que se cruza, olho-no-olho, sem sofismas).

Bom coração, boa índole... “Sangue bom”. Ouvi-lo, é um tanto como auscultar estrelas, em céu cristalino, sem nuvens isoladas, sem nuvens carregadas... Transparência total. É também intuir, nas entrefrases, átimos de uma luz poética... Intraduzível! E ele não é poeta (literalmente falando). Nem intelectual credenciado – se bem que tenha tentado a intelectualidade acadêmica...

“Busquei, anelante, esse Palácio encantado da Ventura... ‘(...) Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!...’(...)” – ele brinca, (re)citando Antero de Quental. Em outras palavras: “Fiz vestibular três vezes pra Letras, na UFMA, e em todas fiquei como primeiro excedente, aguardando um chamado que nunca veio”. Conclusão: “com isso, me desinteressei de vez pelos estudos e passei a me dedicar exclusivamente à leitura, ao trabalho e à curtição da vida, procurando sentir, no meu dia-a-dia e noite a fora, a essência de cada instante vivido” - desabafa.

E ele não é poeta... (repitamo-lo). Mas, tem sensibilidade para o Belo, sabe apreciar o Artístico, comover-se com o Sublime... Poemisa-se, nos encantos naturais e culturais da Cidade-Ilha... Ternuriza-se com os pôr-de-sóis da Beira Mar ou do Largo dos Amores... Amante do luar e das estrelas, ele conhece o segredo das altas horas. No flanar pela Magalhães de Almeida, pelo Largo do Carmo e do Desterro, pelas Ruas da Palma, do Giz, da Estrela ou Afonso Pena... Esticando até o Portinho, para curtir uma seresta... No descer, muitas vezes, as escadarias da Nauro Machado (deleitando-se com o aroma agradável do pãozinho do francês), sentindo os ares do Reviver... No subir a Escadaria da Humberto de Campos, voltando pela João Lisboa... Parando sempre no Abrigo, já madrugada, serenim, serenim (para curar a ressaca naquele cozidão de tutano)... No compasso da Bandida (em tempos de Momo) ou no sotaque das matracas e dos pandeirões (em temporadas juninas), a pancada é sempre a mesma e na manhã seguinte ele está novinho em folha, pronto para aquele papo com os amigos camelôs, na entrada da Rua Grande... Uma figura!
Sob as luzes da ribalta, no palco da vida... Gilberto (Gil) Moraes!! – que, de São Benedito do Rio Preto, vem brilhar, discretamente, aqui na São Luís “de marés, luares e telhados”. Nascido lá pela década de 60 (09.12), trata-se do último rebento da família Moraes, formada pelo casal Maria de Jesus Noronha de Moraes e Antonio Wagner de Moraes. Ela, atuante, por muitos anos, no ramo da hotelaria, nesta cidade; ele, “versado em atividades agrícolas e detentor de pequenos comércios”. O nome, de inspiração boêmia, vem do cantor Gilberto Milfont. “Meu pai era freqüentador de cabarés e gostava muito desse cantor” – ele solta a ficha. Filho caçula, bendito fruto entre cinco mulheres (suas irmãs): Lília Moraes Bertrand, Lígia Moraes Pereira, Sônia Moraes, Léia Moraes e Graça Moraes.

Na cidade dos azulejos, a chegada da família se dá em l965, estabelecendo-se à Rua dos Afogados, no antigo Hotel OK (já extinto), do qual a mãe, Dona Maria de Jesus, foi arrendatária por 13 anos. Ali, naquela pinturesca e enladeirada Rua, Gil começa a estudar na (também já extinta) Escola São José, onde cursa o Jardim de Infância e o Primário, sob o magistério de “duas grandes educadoras, nossas ilustres desconhecidas”, ele frisa: as irmãs Bibi e Didi (??), para ele, simplesmente, Dona Bi e Dona Di...

No portal da adolescência, transfere-se para o Zoé Cerveira, onde completa o lº. grau ( hoje novamente chamado de Ensino Fundamental) e cursa todo o 2º. (Idem, Ensino Médio). Da instituição, ele guarda com carinho a memória da Professora Nadir Moraes, “inesquecível educadora”, ministrante das disciplinas Geografia e História, entre outras matérias.

Sobre esse tempo de transições (da infância para adolescência, e desta para a maioridade), marcado por travessuras e descobertas inéditas, ele se reporta, evocativo: “Eu gostava de matar aulas pra ir jogar bola (de meia) no Coreto da Deodoro ou na Fonte do Ribeirão, com Pichichita e Zé Negão” (já falecidos). “Estudava mais por obrigação, concluindo tudo direitinho, passando por média, mas sem morrer de amores pelos estudos. Melhor mesmo era jogar pelada na Ponta d’Areia, em frente ao Tóquio Bar, com Sérgio Cão, Valério e Sebastião Albuquerque (hoje vereador) e outros parceiros da época” – confessa. E os estudos sistemáticos vão parando por aí, dando lugar à curtição despreocupada da vida. “Fiz outros cursos: Técnicas comerciais, Escriturário, Inglês, Datilografia e Computação. Mas, o que queria mesmo era viver a vida e com muita liberdade”, ele enfatiza, acrescentando que, até à faixa dos 15 para os 17 anos, “era puro”; a partir dos 18 para os 19, começa a freqüentar as festinhas do Lítero, do Casino, animadas por músicas de Renato e seus blues caps e outras estrelas da Jovem Guarda, e vai se entrosando, conhecendo as garotas e aí... “tu já viu, hein?”...

Por essas alturas, a mãe, Dona Maria de Jesus, arrenda o Serra Negra (esquina com as Ruas do Sol, Egito e de Nazaré), passando, pois, a família, a residir em pleno Coração da Cidade... E um fato inusitado, então, ocorre, fazendo-o acreditar, agradecido a Deus, que a família Moraes é mesmo muito, muito abençoada... Recordando: “Tivemos a maior sorte!! Mamãe tinha entregue o hotel há dois dias atrás, quando tudo ali pega fogo!” – refere-se ao famigerado incêndio, acontecido naquele prédio (considerado o maior monumento de azulejos da América Latina), na década de 70. Mais tarde, o imóvel é restaurado e recuperado pela Caixa Econômica Federal, que ali instala uma de suas agências bancárias. E o novo endereço da família, então, vem a ser: Avenida Magalhães de Almeida (Edifício Sálua, Ap. 01).

Nessa fase, conforme já aludido, após três vestibulares de insucessos consecutivos, ele desiste, de vez, dos estudos oficiais, apaixonando-se pela leitura literária. É quando entram em cena autores como Gibran (O profeta), Sidney Sheldon (O outro lado da Meia Noite), Jonh Stemberg (A pérola), Baudelaire (As flores do Mal), Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray), Camões (Sonetos)... Neruda, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Drumond... que ele lê, relê, cita e recita. Sem esquecer os maranhenses, que ele não relaxa, mas está sempre antenado a quase todos, sobretudo os mais próximos da sua geração, e com preferência para nomes como Tribuzzi, José Chagas (do qual adora as crônicas finissemanais), Gullar (do qual ainda relê o Poema Sujo), Arlete Nogueira (da qual tanto admira a inspiração e o talento na Litania da Velha), Feitosa, Laura Amélia Damous, Zé Maria Nascimento, Luís Augusto Cassas, Cunha Santos Filho...

É um tempo (também) em que o trecho correspondente à remotíssima Praia do Caju (Beira Mar), imediato e fronteiriço à Ponte do São Francisco (centrando-se, sobretudo, no final da Rua do Ribeirão, pegando os bares do Cazuza e do Biné – hoje restaurante Dallas), fica conhecido como Baixo Leblon – ponto de encontro da galera universitária avançada e intelectual da época, que baixava total, no pedaço. Algumas legendas: Cláudio, Lavoisier, Beth, Kiko Consoline, os caricaturistas Cacco e Beda, Eliane Lily, a mineira Rose, Antonio José, Feitosa, Rita de Cássia, Ivanhoé Leal, Aldo Leite, Valdelino Cécio, Jorge e Zé Maria Nascimento, Angela Gullar, Mazé, Cunha Santos, Cristina, Paulo Salcher, Paulo César, Paulo Oldi, Wagner Alhadef, Ray Santos, Antonio Nicolau Jr (Bareta, hoje brilhante advogado), Walber Santana, no seu velho land rover... E tantos outros e outras, num filão interminável. Então estudante de inglês do (também antigo e já extinto) Jonh Kennedy Center (Rua do Sol), Gil também ali baixava direto, muitas vezes emendando desde a tarde, integrante que era do Plenário – formado por jovens que se reuniam na antiga Faculdade de Direito (Rua do Sol, em frente ao TAA), para trocar idéia, declamar e cantar, ao som de flauta e violão, em noites de luar, tomando umas e outras “e, depois, sentindo o clima do mar, na maré cheia, descer, pelo Ribeirão, passando pelos Cazuza e Biné, pra curtir a poesia da São Luís noturna”, já dispersando-se, entre si, cada um buscando outras parcerias, em doces amizades coloridas... Prestigiavam esse grupo figuras como: Kit Figueiredo, Josias Sobrinho, Antonio José e Antonio Carlos (mineiros), Zezé da flauta, Omar Cutrim, Ritinha, Giordano Mochel, César Roberto (que fazia o Discoteca Alucinante, na Educadora), Vânia e Sérgio Habibe... Sob os influxos do Plenário, ele vai despertando, cada vez mais, para cultura, o folclore, a literatura local, apaixonando-se, com muita devoção e entusiasmo, pelos valores da cidade que, naquele tempo, já começava a mudar o seu perfil arquitetônico, definindo-se em São Luís antiga e São Luís moderna, tendo como marco divisório a Ponte do São Francisco - mas como ele diz, “sem que a São Luís dos arranha-céus, dos condomínios fechados, dos apartamentos, da arquitetura moderna e pós-moderna viesse a ofuscar a beleza transcendental da São Luís histórica, dos antigos casarões de azulejos, com seus telhados, mirantes e sacadas, com suas ladeiras e becos, escadarias e pedras de cantaria...” Nessa fase enriquecedora (em experiências e aprendizado das relações humanas), ele tinha a mania da agenda organizada de leitura, onde elencava obras e autores selecionados para ler, em períodos mensais, semestrais ou anuais. Por essas alturas, vale ressaltar, a caderneta marcava, dentre as obras seletas: O pequeno príncipe (Saint-Ex), Fernão Capelo Gaivota (Richard Barch), O Estrangeiro (Albert Camus) e Confissões (Santo Agostinho) (!!) – obras que lhe são indicadas por amigos (as) e que ele lê com atenção, impressionando-se, sobremaneira, com seus autores, a ponto de transcrever-lhes frases, para decorá-las e citá-las, oportunamente, usando sempre a expressão: “Vamos ver como soa esta conotação”... Do Pequeno príncipe, guardou com carinho o episódio do encontro da raposa com o principezinho, no deserto, passagem que o cativou, deveras, na obra de Saint- Exupery. De Fernão Capelo Gaivota, gravou, entre outras coisas: “Vê mais longe a gaivota que voa mais alto”. De Santo Agostinho, ainda conserva na memória (para citar a qualquer hora): “Naquilo que se ama, não há fadiga; e se há fadiga, ama-se a fadiga”. E o célebre “Ama e faze o que quiseres”...

Por volta de 78/79, foi criada a Banda do Baixo Leblon e ele, sem dúvida, estava no meio desse cordão da folia, que se concentrava no Bar do Biné, para ganhar as ruas, num périplo que lembrava o da procissão de São Benedito, ou seja: subindo a Ribeirão e desembocando na Rua do Sol, passava pela João Lisboa e entrava na Rua Grande, percorrendo-a até a Rua do Passeio, descambando para a Deodoro, seguindo até a Rio Branco, virando para a dos Afogados, voltando para a concentração, na Beira Mar. Engrossavam esse cortejo, foliões como: Antonio José, Antonio Nelson, Nelson Brito, Valdelino Cécio, as irmãs Jeysa e Joila Moraes, Joaquinzão, Sapiranga, Eliene Hadad, Manoel Leite, Gutemberg Bogéa, Tereza Leite, Cosme Júnior, Roldão Lima, Miguel Veiga... dentre tantos incontáveis. E ainda os travestidos e divertidos: Badu e Augusto Mocinha (falecidos) em meio a outros mais discretos. E o tempo vai passando...

No final de 1983 para começos de 84, ele decide aventurar-se num tour pelo Nordeste brasileiro, tendo como parceiro de viagem o amigo Gutemberg Bogéa, num roteiro incluindo Natal (RG), passando por Paraíba (JP), Mossoró, concluindo-se em Terezina (Pi), onde ele permanece por três meses. Um tempo de muita curtição. Passeios, acampamentos, praias, leituras ao ar livre, cinemas... e muito papo rolando.

l986. Já de volta à magnética Ilha do Amor, de novo flanando pela área beiramarinha das noites sanluisenses, um fato inédito vem marcar sua vida: fruto dessa venturosa arte de viver e conviver, em doces amizades coloridas, nasceu Alessandra Moraes, de quem ele muito se orgulha de ser pai ... Como ele mesmo diz, a mãe, Dona Maria de Jesus e a filha Alessandra, são os dois grandes amores da sua vida. Depois delas, sua paixão é a Cidade, “com este Centro Histórico cheio de magia e poesia”, que lhe é tão familiar, como uma parte de si mesmo, sua casa, seu mundo, seu coração, sua vida: “Eu adoro tudo isso aqui. Tanto, que minha mãe se mudou pra Cohab, em 95, mas eu fiquei aqui (na Magalhães de Almeida)”.

Em l999, falece o pai, Antonio Wagner de Moraes. Um bom pai, ele o atesta, agradecido. Provedor e responsável pelo bem estar da família mas, de certo modo, meio ausente... De qualquer modo, reconhece, foi um esteio, um referencial para a família, no seio da qual sempre mereceu respeito e consideração, deixando, pois, muitas saudades.

Importante é ressaltar que, não só de folias, poesias, cantorias e utopias, viveu o nosso “pequeno príncipe”, ao longo desses anos todos. Mamãe Maria de Jesus, muito cabeça, soube mexer os pauzinhos para que ele começasse a pegar cedo, no batente. E assim foi. Em l975, em pleno albor da juventude, rolou o seu primeiro emprego. E ele começou a dar duro, ainda bem garoto, na Cohab – Ma.(Companhia de Habitação Popular do Maranhão), onde batalhou seis anos, passando depois para a Com (Companhia de Obras do Município), onde ficou por dois anos. O terceiro emprego, é na Companhia Moraes, Posto Texaco, onde ele ralou, também, por dois anos, como balconista, vendedor de peças de carro. Enfim, retornou ao serviço público, servindo nos órgãos: Comaba, Codeia, Emarhp, sempre em turnos vespertinos. Hoje, entrando na faixa dos 40, mas ainda conservando aqueles ares do adolescente de outrora, encontra-se à disposição da PROC-JUD, onde se entrega ao trabalho, com muita dedicação e seriedade, gozando da boa amizade e do apreço dos seus colegas de militância.

E muito mais poder-se-ía acrescentar, sobre esta figura, se a página não fosse tão pequena para conter uma vida, e as palavras tão poucas para traduzi-la, em sua essencialidade.
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