Anuário #03 - São Luís, 2005
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Editorial
Nascimento Morais Filho
O homem que renunciou à Academia
LER / DIALOGAR / SIGNIFICAR - NASCIMENTO MORAIS FILHO: Um Poeta Além de seu Tempo

Edição 100

Nascimento Morais Filho

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Data de Publicação: 28 de novembro de 2005
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Nascimento Morais Filho e o<br />editor Alberico Carneiro
Nascimento Morais Filho e o editor Alberico Carneiro
Filho de um intelectual que se notabilizou como um dos grandes literatos do Maranhão, na primeira metade do século XX, o professor José Nascimento Morais Filho não é apenas aquela corajosa figura que, no início dos anos 80, deflagrou o movimento ecológico no Maranhão, com a criação do Comitê de Defesa da Ilha de São Luís. Na época, ele mobilizou a opinião pública contra a instalação de grandes projetos industriais na Ilha e hoje, aos 82 anos, leva uma vida mansa como o poeta e cronista que sempre retratou em sua poesia os problemas sociais do Maranhão.

Com mais de 10 livros publicados, Nascimento Morais Filho é dono de uma obra que muitos quiseram condenar ao ostracismo, por conta das ousadas atitudes políticas que assumiu ao longo da vida. Cioso da ascendência africana da sua família e do exemplo de vida de seu pai, o jornalista e escritor Nascimento Moraes (1882-1958), que sofreu na pele o escancarado preconceito racial que havia na sociedade maranhense, Nascimento Morais Filho, até hoje, trava uma luta à sua maneira pelo respeito e pela valorização dos negros. Como parte desse esforço, ele gosta de lembrar que ficou na Imprensa do Maranhão o exemplo do grande jornalista, que foi seu pai.

De fato, Nascimento Moraes, autor do livro Vencidos e Degenerados, deixou uma vasta colaboração sob diferentes pseudônimos nos jornais maranhenses mais importantes da primeira metade do século XX.

Escritor e homem de ação, Morais lutou contra os preconceitos de uma sociedade injusta e até mesmo desumana para com os escritores pobres e negros. Polêmico, levando às últimas conse-qüências as suas convicções, ele atraiu amigos e inimigos com a mesma intensidade. E jamais se intimidou
ante os que negaram o valor de sua obra, opondo-se bravamente, nos jornais de sua época, contra os representantes de uma cultura racista e elitista.Meu pai foi vítima dos preconceitos daquela época. Negro, homem de fibra, jornalista de talento, ele era tolerado pelos poderosos. Até os inimigos respeitavam meu pai. Mas ele venceu no Maranhão e essa foi talvez uma de suas maiores glórias, porque até hoje o intelectual ou então o artista maranhense precisa sair daqui para poder ser reconhecido, afirma Nascimento Morais Filho.

Nascido em São Luís, aos 15 dias de julho de 1922, o autor de Clamor da Hora Presente, desde cedo, mostrou sua forte vocação de agitador de idéias. Assumiu a liderança de um grupo de jovens, e com eles fundou e dirigiu o Centro Cultural Gonçalves Dias, considerado o mais importante movimento cultural de São Luís, na década de 40. Auditor Fiscal aposentado pela Secretaria da Fazenda do Estado, Nascimento Morais Filho hoje preocupa-se com as novas gerações, que não contam mais com as tertúlias – as conversas noite adentro nos botecos do Largo do Carmo e na Praça Benedito Leite, nas quais jovens poetas e jornalistas falavam de literatura, amor e política.

Recolhido às memórias, Nascimento Morais Filho não arquivou a paixão pela poesia, tampouco se esquiva da militância pública. Casado há 52 anos com a enfermeira Conceição Moraes, o poeta fala com orgulho de seus cinco filhos: o professor de Física José Nascimento Moraes Neto; a bacharel em Filosofia Ana Sofia Fernandes Nascimento Moraes; a enfermeira Eleuses Moraes Garrido; o médico veterinário Renan Fernandes Moraes e a professora Lourely Fernandes Nascimento Moraes. Enfermeira do trabalho, ex-funcionária da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e da Alumar, hoje trabalhando na Prefeitura de São Luís, Conceição Moraes encantou o poeta aos 20 anos de idade: “Era uma pepita, que eu roubei de lá, da cidade de Turiaçu, onde ela nasceu”, recorda o poeta.Seu primeiro livro, Clamor da Hora Presente, publicado em 1955, foi traduzido para o francês e para o inglês por uma freira dos Estados Unidos da América do Norte. Depois ele publicou Pé de conversa (1957); Azulejos (1963); O que é o que é? (1971); Esfinge do azul (1972); Esperando a missa do galo (1973); Maria Firmina – fragmentos de uma vida (1975) e Cancioneiro geral do Maranhão (1976). Nascimento Morais Filho também promoveu a reedição fac-similar do romance Úrsula (1975) e do livro de versos Cantos à beira-mar (1976).

Por Manoel Santos Neto
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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