Data de Publicação: 28 de novembro de 2005

Nascimento Morais Filho é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e é o titular da Cadeira Nº 37 da Academia Maranhense de Letras, instituição com a qual acabou travando uma briga memorável. O autor de Esfinge do azul rompeu com a Academia quando os seus pares reuniram-se, no dia 7 de junho de 1979, para eleger o ex-governador Pedro Neiva de Santana (1907-1984). Protestei porque Pedro Neiva nunca escreveu uma linha. Reagi, votei contra e nunca mais pus meus pés lá. Dessa sua atitude, Nascimento Morais Filho diz que nunca se arrependeu: Larguei a Academia, sim. É uma Casa que não imortaliza ninguém. Quem tem valor, quem tem talento mesmo, não precisa de Academia, assinala o poeta, lembrando que seu pai foi presidente dessa mesma Academia. Caso raro entre os literatos maranhenses, o autor de Clamor da hora presente faz duras críticas aos intelectuais da moda, como também tem uma avaliação bastante severa de sua obra e de si próprio. Porém ele enche o peito, deixando a modéstia de lado, quando começa a falar de seus próprios livros: Eu sou um escritor internacional. Minhas obras já foram para outros países e meu livro Azulejos, se fosse traduzido em francês ou inglês, seria um best-seller, porque é um livro originalíssimo, que resgata os meus tempos de menino.
Em
Azulejos, o escritor evoca o prédio da Rua Grande – onde funcionou a casa comercial popularmente conhecida como 4 & 400, a loja Lobrás, onde ele foi criado. Nele fala, inclusive, dos bons tempos do Largo do Carmo e da Praça do Panteon, onde está o busto de seu pai, erigido por iniciativa de Guimarães Martins, à época do governo de Matos Carvalho. Filho natural de Francisca da Graça Bogéa, que fora aluna de seu pai, Nascimento Morais Filho foi criado por sua madrasta, a professora Ana Augusta Nascimento de Mo-raes. Foi ela que me criou, desde o dia em que nasci, afirma o poeta, mostrando a foto dela na parede da casa onde mora, no Beco do Couto. Com muito carinho, o poeta diz que se orgulha de ter tido duas mães. Meu pai tinha um defeito terrível: ele gostava muito de mulher.Fundador e presidente, durante muitos anos, do Comitê de Defesa da Ilha de São Luís, Nascimento Morais Filho mantém suas críticas à Academia Maranhense de Letras e lamenta o que considera miséria cultural do Maranhão. A província não imortaliza ninguém. Se o artista ou intelectual ficar aqui, morre abandonado, e sem nenhum reconhecimento.
Se meu pai ou mesmo Nauro Machado vivessem no Sul do País, seriam, com certeza, nomes de prestígio até mesmo internacional. O autor de Azulejos se orgulha de pertencer a uma geração que teve grandes literatos como Ferreira Gullar, José Chagas, Manoel Caetano Bandeira de Melo, Nauro Machado, Lago Burnett e Erasmo Dias. Para Nascimento Morais, Gonçalves Dias (1823-1864) é o maior poeta do Brasil e um dos maiores do mundo. Só a Canção do Exílio é o bastante. Foi algo que revolucionou a poesia.
Nascimento Morais Filho se ufana de ter sido o “descobridor” de Maria Firmina dos Reis (1825-1917). Ele diz que descobriu a romancista, por acaso, no ano de 1973, época em que procurava nos jornais antigos da Biblioteca Pública Benedito Leite textos de autores maranhenses sobre o ciclo natalino (Natal, Ano Novo e Reis). Ficou impressionado ao encontrar informações sobre uma mulher que no período da escravidão escrevia poesias. Depois, encontrou informações sobre o romance Úrsula, publicado em 1859 cuja temática é a sociedade brasileira da época. Destaca-se que ela, em seu romance, redigido numa sociedade dominada por senhores de escravos, aponta a dimensão humana do negro, que deixa de ser mera mercadoria, para assumir a figura de gente. Maria Firmina dos Reis foi, portanto, uma negra revolucionária, que no seu romance tirou o negro dos desvãos da senzala, para colocá-lo no salão. Quando aprovada num concurso público, recusou ser carregada num palanquim: Negro não é animal para se andar montado nele!, reagiu ao repelir a regalia.
Maria Firmina dos Reis foi uma mulher humilde, negra, professora leiga que, mesmo discriminada pela hipocrisia da sociedade maranhense da época, tornou-se, na segunda metade do século XIX, a primeira romancista da Literatura Brasileira e a primeira poeta da Literatura Maranhense. Ela nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825 e, depois de aprovada em primeiro lugar num concurso público para o magistério, foi nomeada para trabalhar em Guimarães, cidade onde passou a morar até a morte. Ela escreveu outras obras como o livro Cantos à Beira-Mar, poesia, o conto A Escrava e Gupeva, romance indianista publicado três vezes nos jornais de São Luís. A segunda edição de Úrsula, um fac-simile do romance original, foi publicada em 1975, ano em que foi erigido, em São Luís, na Praça do Panteon, um busto em homenagem a ela, feito pelo escultor Flory Gama. A edição fac-similar do romance só se tornou possível graças ao escritor, historiador e bibliófilo Horácio de Almeida, que doou o livro ao Governo do Estado. A terceira edição, com prefácio do intelectual negro norte-americano Charles Martin, saiu em 1988, por ocasião da comemoração do centenário da Abolição da Escravatura. A escritora faleceu em Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Entre a vida pessoal, a política, a História, as inquietações e angústias filosóficas brota a obra de Nascimento Morais Filho. Ele confessa que não pôde realizar o sonho de construir um museu pré-histórico, para abrigar as pedras recolhidas durante muitos anos durante suas andanças em cidades do interior do Litoral Maranhense, como fiscal de rendas do Estado. O poeta reconhece que, como intelectual, é e sempre foi um sujeito muito inquieto. O intelectual nunca está acomodado nem satisfeito com coisa
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