Data de Publicação: 28 de novembro de 2005


Nascimento Morais FilhoQuando em 1956, o poeta Nascimento Morais Filho publica seu segundo livro de poemas, Azulejos, o Maranhão resistia ainda ao Modernismo. Poucos poetas haviam publicado livros de poemas usando a técnica do livre-metrismo.Contavam-se nas pontas dos dedos os inovadores: Bandeira Tribuzi, Oswaldino Marques e Ferreira Gullar. De sorte que
Azulejos é uma obra marco no Panorama da Literatura Maranhense daquele momento. AZUL/LEJOS (ou A Valsa de valsiba com josé)Quando o poeta Nascimento Morais Filho escreveu Clamor da Hora Presente,o espírito da poesia ainda não havia baixado completamente sobre ele. Mas ali já estavam a semente do poeta e o espírito do notável orador, do grande mestre de retórica. Algo explosivo, dinamite.
Era a iniciação do Demóstenes maranhense. Esfinge do Azul é também uma obra antecipadora do que viria a ser um dos mais revolucionários textos poéticos que o gênio maranhense já produziu,
Azulejos. Se Nascimento Morais Filho tentasseescrever qualquer outra obra de arte depois de
Azulejos, jamais se superaria.
Azulejos é uma obra-prima completa, única e irrepetível no contexo do que se possa chamar de poesia com palavras em linguagem nonsense.Nascimento Morais Filho, como Édipo, em sua infância, protagonista máximo da tragédia grega, depois de Telêmaco, como o Guesa do mito e da tragédia Muysca, teve uma mãe biológica, mas excepcionalmente foi criado por uma mãe adotiva. Também como Telêmaco, da Odisséia,de Homero, ele teve um pai a distância.
O José, de
Azulejos, tem muito a ver com os três meninos da literatura universal, Telêmaco, Édipo e Guesa. Por essa razão, que
Azulejos, essa obra-prima da literatura maranhense, brasileira e quiçá universal, é uma espécie de catarse de todo processo de encantamento do amor pelo amor, do amor filial pelo amor materno de adoção, que soma paixão, compaixão, surpresa e admiração do filho pela mãe que o criou. Cercado por carinho, ternura e mimo, como o filho adotivo haveria de reagir, senão com um pé na frente e outro atrás, a princípio?

O poeta Nascimento Morais Filho entrevistado pelo jornalista e escritor Manoel Santos Neto Azulejos constitui um pacto de gratidão recíproca.
Azulejos é um momento especial de resgate de auto-estima filho versus mãe. O que concorre para tanto? Amor. Daí por que a criança do subconsciente do adulto José Nascimento Morais Filho encontra na mãe adotiva uma correspondente de Maria, a mãe de Jesus Cristo. Por isso é que essa criança introspectiva anseia por um céu distante. E, quando o encontra dentro de sua própria casa, se torna extrovertida e pinta e borda.
Não conclusivamente, talvez esteja aí a razão do título do livro, em>Azulejos, do espanhol, Azul Lejos, cujos correspondentes semânticos são: Azul, denotativamente igual à cor azul, e cujo correspondente poético, com função de linguagem expressiva, emotiva ou anímica, é céu; Lejos é um advérbio que significa distante. Sim, a criança atemporal do subconsciente de Nascimento Morais busca o céu azul distante da infância, o céu azul do amor materno, o céu símbolo de pureza e inocência perdidas, mas reconstituídas e resgatadas no poema.

O pai do poeta ladeado pelo irmão Paulo Nascimento Moraes e o professor Orlando Leite
Nascimento Morais Filho retorna à infância para se reencontrar com o menino josé no labirinto do amor traumático, perplexo diante da dualidade da mãe biológica e da mãe adotiva. Ele é uma espécie de Édipo e Guesa desenraizado, desfamiliarizado. Não se trata do Édipo Rei, mas do Édipo criança. Não se trata do Guesa aos 15 anos, tragicamente morto e tendo o seu coração usado como oferenda ao Deus-Sol. Ele não matará o pai na estrada.
Contraditoriamente a Édipo, o glorificará. Ele não se casará com a própria mãe, mas centuplicará por ela o amor edipiano da infância, conforme Édipo dedicou a Mérope, sua mãe adotiva.Nascimento Morais Filho vive no tempo mental ou no fluxo da memória o drama da duplicidade materna e, por isso, incorpora, na adotiva, a biológica, e, dessa fusão, nasce um amor filial exacerbado.
A NARRATIVA

Nascimento Morais Filho quando da inauguração do busto do pai, na praça do Panteon, com família
Nascimento Morais Filho exerce, simultaneamente, vários planos da narrativa moderna, mas sempre numa perspectiva contraditória, porque está além de sua época.Primeiro, ele abole o tempo convencional. Todo texto poético de Azulejos se constitui de digressões. Não se trata do adulto que se vê como criança, mas do adulto que não regride ao estágio da infância, porém se coloca psicologicamente nela.
Aí não há protagonista. É a criança que se conta a si mesma em estado puro. Quem se narra é josé, pelo subconsciente de José Nascimento Morais Filho. Assim, é o fluxo da memória que conta, não a memória ou imaginação cronológica do escritor. É o subconsciente que pode e está lá na infância eternamente imutável. Diga-se o subconsciente, a alma intrínseca da pessoa que não tem a idade de certidão de batismo, mas de estado de espírito íntimo desta. Segundo, ele exerce nesse plano do subconsciente o monólogo interior.
Na soma compacta dos 168 mosaicos de Azulejos está um exemplo lapidar de monólogo interior perfeito e, ao mesmo tempo, estranho e contraditório. Apesar de todos os personagens da aparente ficção serem reais, pelo aparente retorno no tempo, passam ao plano do surrealismo. Em outras palavras, a realidade paralela aqui é a própria realidade imutável do subconsciente.
São os vários eus do não-protagonista que ecoam num tempo não capturado pelo convencional. A criança josé os reinventa de dentro da memória do adulto. A criança que, no subconsciente, nunca muda de idade, tenha o adulto 82 anos pela certidão de batismo, conforme Nascimento Morais Filho.
O texto é, por sua vez, sintática e ortograficamente descosturado, para que possa haver verossimilhança não intencional, pois quem escreve é uma criança que reproduz a linguagem correspondente a sua idade mental.E por que quem escreve é um não-protagonista? Porque é uma entidade que não tem consciência sobre o que fala, uma criança.
Enfim, trata-se de um texto contraditoriamente nonsense, já que a linguagem das crianças parece mesmo não ter nenhum sentido. Puro engano. Nela estão as pegadas, através das quais poder-se-á explicar a vida do adulto nos desdobramentos da adolescência, mocidade, maturidade e terceira idade.
Através da linguagem nonsense das crianças serão desvendados os porquês, os comos, os para quês, os ondes e os quandos do adulto. Azulejos é assim o mais estranho, contraditório, ambíguo, paradoxal, autêntico, original e atual poema-romance da modernidade literária maranhense, escrito muito antes do que se rotula de modernidade. Em Azulejos, portanto, a criança permanece cronologicamente imutável durante toda a vida.
POEMAS SELECIONADOS DA OBRA AZULEJOS
8 aqui, que mora dona ana augusta? – não, moço, aqui, mora é mamãe!
24 mamãe, por que a lua é pelada?
26 a lua está quebrada, didi!... – heim heim!... olha como o chão está cheio de caco de vidro!...
28 ... e pra papai noel eu vou pedir asa pra voar!...
30 didi,vamos ver quem corre mais do que a lua?
31 mamãe,por que o galo da igreja não canta? – porque é de ferro, meu filho! – mas ele devia cantar, mamãe, porque ele é galo!
37 que meu filho toda hora espia atrás do espelho? – eu estou procurando eu, mamãe!
56 ... e de hoje em diante, não tire mais o sapato dos pés!... – mamãe, agora eu só me banho de sapato?!...
63 mamãe, dê modo pra lua! se eu vou pra lá, ela vai... se eu venho pra cá, ela
vem!...
70 as outras casas são criançasa minha já é sobrado!
72 não está de castigo? – estou, mamãe! – e como já está aqui a brincar? – eu me esqueci, mamãe!...
132 nossa senhora parece com mamãe!
136 não sei o que gente grande conversa e criança não pode ouvir!...
151 as estrelas são balãozinhos de são joão que ficam pregados no céu!
152 olha, zezé, como o céu entrou dentro da poça d’água! – heim heim, josé!... - o céu é grande no céu e pequeno aqui na terra!...
155 a noite comeu a lua e só deixou o espinhaço!
160 só sei que esta casa é minha casa, porque vejo mamãe!...
162 eu tenho eu!... ... e eu carrego eu! ... ichi!... o espelho se espatifou!...
e eu se quebrou todinho!...
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